[google6450332ca0b2b225.html
Mostrar mensagens com a etiqueta eu/opinião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eu/opinião. Mostrar todas as mensagens

domingo, dezembro 15, 2013

Num atalho para o Natal

“Ninguém O viu nascer.
Mas todos acreditam                                                       


Que nasceu.   
É um menino e é Deus.”

Miguel Torga, 25-12-1983      


Não é fácil, a poucos dias do Natal, escrever breves linhas sem referir as metas falhadas, os pareceres negativos que chovem de todos os lados e que baixam as defesas dos portugueses.
Todos os dias nascem profetas e messias neste país e a acreditar nas vezes em que a palavra “milagre” é invocada pelo governo, concluímos de imediato que destes messiânicos não precisamos pois, na verdade, todos somos pequenos ou grandes consoante a dimensão da palavra, da acção ou do carácter com que vivemos.
É Natal mas o mundo permanece na mesma!
Precisamos destas efemérides sagradas para, numa faxina de reflexão pessoal, nos reencontrarmos e adquirirmos a paz lavada da alma.
Mas não uma paz bovina, boçal, mas a realista que nos faz olhar um Portugal de tantas crianças de olhos e prato vazios, de pais desiludidos e revoltados, querendo esquecer que é Natal. Quantas famílias olharão, com lágrimas, as luzes coloridas chinesas das montras, das vidraças, tudo de relance, lembrando os “natais” de outra vida?
Gostaria de ver a “troika” substituindo o Rudolph, a Dasher, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donner e Blitzer, puxando um trenó carregado de ânimo, de esperança, de alegria infantil, de sorrisos adultos, de horizontes de vida iluminados.
Gostaria também que por um milagre não houvesse natal com luzes, prendas, mesa farta, na casa dos que deliberada e teimosamente cismam nos erros que fizeram desta nação um coro de desiludidos, de emigrados, de pobres.
Sonho ou deliro pois não sou profeta nem messias…
A quadra da “Festa” iniciou-se hoje na tradição madeirense com as Missas do Parto.
Que essa Alegria sã extravase e se prolongue pelo novo ano, com ânimo, sem esmorecimentos, acreditando que ninguém é eterno e que a história dos tempos já nos provou que basta uma cadeira e uma queda para haver mudança!
A todos Boas-Festas.

Maria Terersa Góis (15 Dezembro 2013)

 http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/421594-num-atalho-para-o-natal

domingo, novembro 17, 2013

Não podemos ignorar...

“Vemos, ouvimos e lemos Não podemos ignorar…” 
Sophia Mello Breyner Andersen (in: Cantata da Paz)


Quando uma estatística afere em 67% o índice de felicidade dos portugueses, vou ali aos “mercados” e já venho… Mais, 69% estão tão ou mais felizes do que há três anos (“Expresso” 08.11.2013).
A minha descrença espelha-se no número de outras estatísticas substantivas como a Pobreza, a Fome e as cantinas sociais que nunca conseguem satisfazer toda a clientela, o desemprego ou a emigração. A desilusão e o desalento são, também, sentimentos populares.
Os políticos de refugo, filhos de escolinhas partidárias de “rankings” menores querem convencer os europeístas troikanos de que são filhos de um deus maior e salvadores da Pátria. Puro embuste!
A famosa estrada do progresso ainda não conseguiu ser projectada. Porém, já corremos o risco de ser atropelados. Os sofrimentos morais e sociais não casam com tais índices de felicidade.
Cada erro consentido é um rude golpe nas populações, nas instituições e empresas, do país.
A democracia, ou a igualdade social como já alguém lhe chamou ehoje em perigo, alerta para o fosso cada vez maior entre a carência e a opulência. E a cada semana nos sobressaltamos com guiões, caricaturas e falsetes. Somos, então, um povo maioritariamente feliz?
A política opressora sem resultados nega a democracia e faz realçar a falta de aptidão e petulância de quem se julga sobredotado e “bom aluno”. Também realça a corrupção…
Um governo move-se por ideias mas um povo move-se por ideais.
Se todos fossemos cegos, surdos ou coxos, quem notaria o defeito? Será que só um espírito de Abril elevaria a felicidade à potência dos 100%?
A expressão de rua é legítima mas não provoca consequências imediatas. É necessário que o cidadão não seja indiferente, não se limite a teclar nas redes sociais, não ignore e participe na construção democrática de um debate público e político.
Deixámos de ser sem surpresa os companheiros da Irlanda. Sucedem-se agora as declarações de sinal contrário, e os comentadores a soldo afanam-se.
Ainda há, felizmente, “medias” que trilham a independência e o esforço profissional à informação pura e crua, por isso isenta, enquanto outros a blindam de constrangidos e dependentes que estão.
Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar….

domingo, outubro 20, 2013

É preciso mudar!

     
 “O homem absurdo é aquele que nunca muda”     Georges Clemenceau 



Sete a quatro, resultado do “play-on” de 29 de Setembro de 2013 na Região Autónoma da Madeira.
Passado o “choque da expectativa” foi a terceira vez em que as lágrimas quentes e espontâneas, sem qualquer motivo agendado de tristeza ou de alegria, me saltaram: no 25 de Abril de 1974, no dia em que o Chiado em Lisboa ardeu e neste abençoado Domingo de mudança!
Os actos e as obras julgam-se uns aos outros.
O dreno posto ao PSD-Madeira há-de purgar os abismos nunca revelados que iludiam a realidade na obscura existência de políticos geniais, únicos e importantes, descartáveis afinal.
Não deixo de desejar os maiores êxitos a todos os eleitos em prol da região, com especial ênfase ao meu concelho, o Porto Moniz, onde sempre cultivei uma mudança esperançosa por mais de três décadas.
Começa a definhar o conceito de “Madeira Nova” e ainda bem; que a Madeira volte a ser só e apenas “a pérola do Atlântico”, tão conhecida e amada.
Entretanto, no país, o governo usa Portugal na lapela. Dos novos ciclos redentores apregoados, o crivo da austeridade aperta e esmaga, destrói dignidades, alimenta desigualdades e revoltas e a decrepitude futura é desesperante.
 Se a liberdade desocupada de Abril começa a correr o risco da angústia, incorre também no grito da insurreição de um povo amargurado, por isso brando, mas que já foi capaz de demonstrar a sua força na conquista dos seus direitos, sem as brutalidades históricas.
A geração jovem mais bem formada – o futuro – deixa o país sem pensar voltar; outros, já estabelecidos, vêm-nos partir com a mágoa de quem perde filhos.      
Os homens públicos e os governantes, perderam a credibilidade, a honestidade, fazendo honras aos méritos imbecis de que são formados.
O Estado confisca, usurpa o contribuinte, espolia retroactivamente quem descontou o que lhe foi exigido para pagar a sua reforma. Contudo, mantém a mão sob os grandes poderes da economia, mesmo aqueles que constituíram as suas sedes fora de Portugal.
O orçamento para 2014 não espelha futuro para a sociedade portuguesa e é uma segunda edição dos anteriores.
Para onde iremos e até quando?
Abismo atrai abismo… 

Maria Teresa Góis

in:Diário Notícias, Madeira, 20 Outubro 2013

 http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/411984-e-preciso-mudar
                                                        

domingo, setembro 15, 2013

Até ao lavar dos cestos...

“Se amanhã o país se encontrar na hora da agonia, e se se perguntar aos que pensam, aos que governam, aos que  andam com o cérebro aceso alumiando a marcha-se se perguntar: que havemos de fazer?, é possível que eles respondam, e com justiça: sucumbir.”

Eça de Queirós in “Distrito de Évora”  

Até ao lavar dos cestos, é a vindima!
Porém não me refiro à tarefa de recolha de cachos úberes, aptos à transformação e à “requalificação” de néctares.
Não são os laivos outonais e a têmpera meteorológica o que me ocupa. Ocupa-me e preocupa-me a “vindima” feita por mãos incompetentes ou por imbecilidades políticas que vindimaram já a economia do país, as esperanças geracionais, a classe média, o sonho do futuro e hastearam em dois anos as bandeiras do retrocesso e da Pobreza.
Em vez da fruta de Baco, em Setembro corrente, vindima-se o cinismo, o parasitismo, a hipocrisia mentirosa e oportunista. Uma “parreira” que em quatro anos nada produziu, atacada de filoxeras várias, e quer em três semanas prometer o céu e a terra enjeitando a inabilidade às costas da crise!
Pelo modo como um país, ou uma autarquia, evolui, enriquece ou empobrece a sua história ou o seu povo, podemos medir a capacidade intelectual de quem nos governa.
Ocorrem, nesta altura, reuniões políticas que mais parecem congressos de feitiçarias tal o discurso agressivo, ardiloso e rasteiro, deitando mão a meios ínvios e enganadores.
Os que ao longo de décadas têm ocupado o poder autárquico regional atribuem sempre a culpa ao antecessor para justificar o insucesso. Mas, afinal, não tem sido sempre a mesma orientação político partidária, viciada em servilismo intelectual, que abdica do gesto de mudança e do exercício livre, responsável, que o voto popular lhe conferiu?
É preciso saber despir, figurativamente é claro, a arrogância e prepotência de um “poder” que devia ser serviço, adoptar a força do empenho da mudança, do desenvolvimento, da recuperação da tradição apesar de toda a fatalidade económica presente. É preciso mudar a mentalidade dos que “mandam” e deixar que os munícipes participem de um projecto que os enriqueça e à terra onde vivem.
A força actuante da “mudança” é possível. “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce” (Fernando Pessoa). Aprendamos o lema e façamos a mudança!

 http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/406022-ate-ao-lavar-dos-cestos

Maria Teresa Góis

domingo, agosto 18, 2013

O servilismo intelectual

       “Na política, a verdade deve esperar o momento em que todos precisem dela.”

        Bjornson , Bjornstjerne          
    

Acontece outra vez; caminhamos para a abertura oficial das promessas eleitorais, das acusações e choradeiras. O país está cansado destas repetições, está indiferente. Porém joga-se no tabuleiro o destino da vida concelhia e é tempo de analisarmos a fraqueza dos governos, a perpétua permanência das mesmas opções e parar, pensar a sério que, e se queremos mudar alguma coisa, temos no voto o primeiro passo.
Muitos dirão que não se fez mais devido à crise, às dívidas herdadas como se na Madeira a herança deixada não fosse sempre a filha do mesmo pai… O cansaço e a indiferença, a alteração de meios de vida inibem muitos do penoso trabalho de analisar, de verificar, de comparar, o que é pena. Quando nos despimos da nossa opinião e esquecemos que todo o acto político nos toca, ficando na lassidão tão portuguesa do “deixa andar”, perdemos a razão da crítica e se votarmos numa atitude indiferente, o acto democrático é inconsequente e servil.
Numa autarquia as grandes obras começam pelas pequenas coisas, sempre tendo em primeiro plano o bem-estar e desenvolvimento dos seus habitantes que devem ser tratados por igual, e os seus visitantes. É preciso saber valorizar o que se tem, mesmo que pouco e com meios escassos; não é esperar pelos actos eleitorais para os trabalhos esforçados das obras ou limpezas numa tentativa de lavar os quatro anos estéreis…
Foi notícia pública que em terras da nossa Ilha já se fazem sugestivas insinuações quanto à tendência, ou não, do voto. Só demonstra a mentalidade pequena, a sanidade perturbada e o servilismo intelectual à mesma política de quase quatro décadas que tanto tem onerado a vida dos madeirenses pondo-os nos “top’s” da gasolina mais cara, do gás mais caro, do porto e aeroporto mais caro, de um custo de vida agravado por um IVA que não merecíamos para além das restrições que sabemos nas escolas ou nos serviços clínicos.
Torga escreveu que “ser insular é viver a solidão mas não é uma condenação”. Hoje já temos a tecnologia que não nos isola e precisamos da verdade que não nos condene.
Essa “verdade” está na nossa mão, no nosso esforço de análise, de participação e empenho num sentimento bairrista e arrebatador. A vida de um Concelho deve ser pensada e vivida, projectada e organizada pela sua população e não ser gerida de fora, sem repto, por quem se ache único e importante.    

Maria Teresa Góis

    http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/401896-o-servilismo-intelectual           

domingo, outubro 14, 2012

os "Esmifrados"

Diário de Notícias
 
                                                   "Arrepiam-se as carnes e o cabelo, a mim e a todos, só de ouvi-                                                     lo e   vê-lo"                                                                    "Os Lusíadas", Canto V, de Luís de Camões
 
Com a profusão de acontecimentos e informações que nos têm assolado, sobretudo nestes últimos quinze dias, torna-se difícil isolar uma opinião e não ser levada pela sensação generalizada do mais comum dos cidadãos - a actualidade política, essa mesma que toca e deixa marca na nossa vida.
O país pede pão e democracia.
Um grito que o governo não ouve e que parece ser interdito às bandas de Belém. Será que não usam a condição de mortais e que a atmosfera política não lhes fede?
Somos quase diariamente insultados. De "piegas" a "coitadinhos", de "completamente ignorantes", de ouvir um primeiro-ministro dizer que mais vale "viver mal e morrer bem", de nos mandarem sair da "zona de conforto" e "emigrar", de dizer que "o desemprego pode ser uma oportunidade", de sermos apelidados de "mexilhão" e só nos faltava mesmo vir um lacaio da Goldman Sachs, de nome Moedas, dizer que somos um país de "esmifrados". Usam mesmo La Fontaine para o insulto!
Tiram-nos a pele, o coiro e o cabelo, a esperança e o futuro e, bem devagarinho, apelidam-nos de "melhor povo do mundo".
Sempre ouvi dizer que os Homens se avaliam pelas pequenas atitudes e pelas frases espontâneas. Assim sendo, é bem abaixo de lixo que faço a minha avaliação dos desvarios e incompetências políticas com que todos os dias sou brindada. É que nem a crítica austera dos pares mais velhos e experientes, direi mesmo dos competentes pares deste governo, os convencem!
Somos Lusos, somos Portugueses, uma nação que se fez, que pelejou, em que as Aljubarrotas, Alcáceres Quibir ou 25 de Abril da nossa História não estão esquecidas. Se hoje naufragamos é porque a barcaça social naufragou, por incúria dos homens desencartados que ousaram pegar no leme.
Quererá o capital enfrentar o pão dos escravos de outrora?
Na sequência do que nos foi levemente comunicado na 5ª feira passada, fiquei a saber que não podemos afirmar que o governo rouba o contribuinte. Digamos então que gama, furta, suga e empobrece.
Só que os tempos mudaram, mudou a mentalidade do" melhor povo do mundo" que, espezinhado, usará a força do provérbio popular: "ou vai ou racha!".
As manifestações de rua subscritas por gente tão diferente como um médico, um professor, um pedreiro, um desempregado ou um estudante, com cartazes e flores, têm sido o aviso pacífico e adulto dos que defendem a nacionalidade. Mas chegámos ao limite do suportável, é preciso agir.
Os verdadeiros "esmifrados" estão no palco do poder. Incompetentes, indecisos, desavindos não passam de aprendizes medrosos, vaiados, que fogem por portas traseiras rodeados de seguranças temendo o povo "paciente e compreensivo".

domingo, setembro 16, 2012

estou triste...

Diário de Notícias

Estou triste...

Somos um povo roubado: na acreditação política, na segurança de vida...

Maria Teresa Góis
 
 
 
 
 
 
"Sim, temos paz social. A paz de um sepulcro do Tamanho da pátria."
Miguel Torga in: Diário, 22/01/1962

Estou triste, macambúzia, aborrecida. Não sei se será desta canícula perene, peganhenta que não combina com os genes invernosos, próprios de quem nasceu em Dezembro.
Olho à volta e vejo um povo que sofre os tormentos do vime, escaldado e torcido pela condição de vida de um jugo imposto e de impostos.
Começa a ouvir-se um clamor no País, o povo quer associar-se, protestar, quebrar o jejum voluntário da liberdade às promessas políticas, ao mel da bajulação. Finalmente transferem o que sentem na pele para a sua própria consciência.
Onde pára a claridade futura?
A semana tem sido agitada, pródiga em lógicas ministeriais, todas de plano inclinado, num mar sem pé, num mar de angústias onde só os tubarões sobrevivem e dão conselhos e, obviamente, são insultados, vaiados e apelidados no léxico mais puro.
O pessimismo luso parece já não admitir a esperança e a beatitude vegetativa deste último ano parece abanar. Até quando andará o português em levitação? Quando descerá à realidade da indignação? Quando veremos na rua a face colectiva da Liberdade?
Pela Madeira agitam-se as águas laranjas, um sumo que precisa ser mexido para conservar as vitaminas da social-democracia. No continente correm outros néctares, de várias cores, tentando evitar que o purgatório da esperança que temos passado não desagúe velozmente no inferno da incerteza.
Emigram os jovens, padecem os idosos; agendam-se manifestações de rua que deveriam abranger o povo da abstenção, o dos desempregados, o dos empobrecidos e o povo que vê, dia após dia, os seus direitos confiscados e espezinhados. Não há pena de morte em Portugal mas há a pena de Vida. Certo que nascemos para morrer, mas que a dignidade social medeie estes dois pólos.
Somos um povo roubado: na acreditação política, na segurança de vida, roubado nos salários e pensões de direitos adquiridos e descontados, roubado no sorriso e futuro das novas gerações, na disposição e ânimo ou, como diria Torga "somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados."
Não, afinal não estou triste, estou farta!
 
N- À data em que escrevo ainda não sei qual o impacto das manifestações agendadas. Espero que tenham sido coesas, civilizadas e muito, muito participadas.

domingo, agosto 19, 2012

"Silly season"

"Posso mudar se me penso mudado"
Agostinho da Silva                                          
  É Agosto.
 Um Agosto quente e dormente convidativo de sombras, bebidas frescas, cavaqueira fácil e molezas diversas. Uma chuva perpendicularmente doce veio serenar ânimos e a Terra agradeceu.
Na Madeira foram muitos os que abdicaram das passeatas no areal e dos mergulhos atlânticos, pela sombra gratuita do bananal.
E a "silly season" é bode expiatório a um povo que não cresceu nem amadureceu, que esqueceu o amor-próprio e o sentido de cidadania do Estado - veja-se as férias dos deputados! Um povo que assiste ao patinhar no atoleiro político, em passos descontrolados e frustração cívica.
Tantos anos de inquietude e esperança volvidos e nada mudou. Há uma indiferença sem remorsos, uma maldade inocente que nos leva a caricaturar, ao detalhe, a arte nobre da política.
Não será por acaso que esta se reacende na "silly season", sob a espreguiçadeira do Verão. Afinam-se glotes para as conquistas, come-se carne assada com salada nas grandes reuniões e os salvadores da Pátria renovam promessas em propaganda ruidosa que violenta a boa-fé.
Por apenas três semanas não ouvimos falar em "crise". "troika" e "deficit". Não ouvimos mas o povo não teve férias nem mordomias, olhou o mar com o sufoco de um náufrago, olhou o céu com o medo do infinito e na montanha viu horizontes de precipício.
Atravessar a Ilha é uma dor de alma. A paisagem outrora fresca e verde da Encumeada é hoje uma negrura satânica que dói e incomoda, que se prolonga ao planalto da serra e acentua o somatório de cidadãos sem laços de cidadania.
Troam foguetes e girândolas no ar abafando o estalar doloroso das vagens torturadas pelo sol.
Machado de Assis (1939-1908) dizia que "a moral é uma, os pecados são diferentes".
Na verdade, na vida real, o herói passa de mito a simples mortal enquanto o diabo esfrega um olho…
Que a "season" consentida acabe e despertem as consciências, reagindo aos direitos sonegados e à violência imposta, se bem que não para todos.

Maria Teresa Góis

Diário de Notícias

domingo, julho 22, 2012

os diabinhos negros...

                                                                             "…não vou pôr porcaria na ventoinha…."                                                                          Pedro Passos Coelho, debate da Nação, 11/07/2012  


Eles andam aí… Antes que a prosa me corra para os acontecimentos actuais quero mencionar o desassombro, claro, frontal, inteligente e lúcido de D. Januário Torgal Ferreira. Acutilante faz a análise da Pobreza, do uso indevido de dinheiros públicos, com palavras fortes que escandalizaram ministros, os porta-vozes das direitas que quais virgens ofendidas de média idade, vieram vomitar a sua indignação. Falasse D. Januário em processos no DCIAP ou no Ministério Público e, talvez, se sentissem menos ofendidos. Bem-haja D. Januário por não querer uma Igreja amorfa, acomodada, afastada dos valores há mais de dois mil anos proclamados.
Há sim, muitos diabinhos negros, desses chifrudos de olhos grandes, com passinhos mansos, leves, cheirando a incensos diluídos em pó, comprando a essência da experiência e da credibilidade avulso.
A Madeira arde, há dias. Uma vez mais, pintam-se de preto paisagens outrora verdes.
Não se aprende a lição, grassa a incúria, desdenha-se a lei. Num tempo em que as Câmaras Municipais tanto precisam de verbas, não limpam, fiscalizam ou fazem cumprir a lei no que respeita à limpeza obrigatória de matagal em perímetro de edifícios públicos ou habitações.
Ainda este mês, duas vezes em duas semanas, reclamei a quem de direito da urgência de desmatar a zona envolvente da Capela dos Lamaceiros, século XVIII, parte do raro Património do concelho.
Se olharem o boletim paroquial que é público e chega a três Paróquias, vemos impresso, a pedido, o aviso da Câmara Municipal do Porto Moniz sobre o requerimento para a colocação de barracas na Festa do Senhor do Seixal, paróquia que este boletim não abrange.
Nunca vi que saísse da Edilidade um aviso de proibição de queimadas, de churrascos, de uso de fogo-de-artifício, lei existente no território Continental. É esta leveza de atitudes que condeno, que reclamo, numa região cada vez menos agricultada, com terrenos abandonados à praga das canas vieira, do silvado e da feiteira. Dirão que os donos não podem, que estão ausentes, que são de herdeiros….Apareça o Governo Regional a expropriar esses terrenos ou uma proposta choruda de compra que os herdeiros aparecessem aos magotes.
A Madeira ardeu e arde não por um fenómeno natural e talvez nem sequer por fogo posto. É a incúria que queima a Madeira, que alaga a Madeira quando chove demasiado. É a incúria que dá a conhecer a Madeira pelas piores razões quando outrora era uma pérola do Atlântico.
Deixem, senhores governantes, de procurar alibis e perseguições fantasmas. Assumam os erros, as limitações, sentem-se com todos os de boa vontade e discutam soluções - para o bem da Madeira. Façam cumprir a lei, eduquem o povo se necessário, mesmo aplicando as coimas previstas. Só assim enfrentaremos os picos de calor ou de invernia, só assim protegeremos a "Pérola do Atlântico".
Já basta de pôr porcaria na ventoinha…


Maria Teresa Góis

Diário de Notícias

domingo, junho 24, 2012

As homenagens

Diário de Notícias

As homenagens

Não basta ser brasonado de nome; é preciso merecê-lo

Maria Teresa Góis
 
 
"Caminhais em direcção da solidão. Eu, não, eu tenho livros."Marguerite Duras (1914-1996)

É costume que no dia 10 de Junho, dia de Portugal, o Presidente da República ou quem o representa, homenageie pessoas que por uma ou outra razão tenham contribuído para a sociedade com actos e obras valorosas e dignificantes.
Os nomes ou entidades são acordados por mútuo acordo dos governos e no caso da Madeiradeduzo que prevaleça a opção de escolha regional.
As pessoas podem ser mais ou menos simpáticas, mais ou menos populares, mais ou menos figuras politizadas. O que não podem deixar de não ter é obra feita, reconhecida como útil, necessária e influente no meio.
Em 05 de Novembro de 2011, subscrita por 327 identidades, sendo professores de diversos graus, editoras, livreiros, escritores e outros, foi dirigida aos senhores Presidente da República, Primeiro-ministro, Secretário de estado da Cultura, representante da República para a RAM, Presidente do Governo Regional da Madeira e ao Secretário Regional de Educação e Cultura da RAM, uma carta na qual se pedia que no dia 10 de Junho deste ano, meritoriamente, fosse distinguido o senhor Jorge Figueira de Sousa.
Este, livreiro de profissão, herdou de seu avô Jacintho Figueira de Sousa (1860) e depois de seu pai, a Livraria Esperança.
Deu-lhe vida, deu-lhe o primeiro lugar, no país, em número de diversidade de títulos, deu-lhe o empenho e trabalho diário, junto com a esposa e colaboradores.Foi eleito livreiro do ano de 2012, a nível nacional, e foi-lhe atribuído o prémio LER/Booktailors 2012.
Hoje com 80 anos e após seis décadas no meio dos livros, não sendo fácil manter a porta aberta e a actualização de títulos, tudo isso consegue.
Desprezar a obra, o vulto e a riqueza que representa para a Região termos, entre nós, a "Livraria Esperança", mesmo se à distância de um clique, é um acto cobarde ou de pura e adulta ignorância.
Assim se trata a cultura, a arte nobre de divulgar a literatura pela mão de um filho desta terraque muito lutou para dar continuidade a um sonho de séculos.
Não basta ser brasonado de nome; é preciso merecê-lo.

domingo, maio 27, 2012

O respeitável público

"A paciência dos Povos é a manjedoura dos tiranos"
DemetrioPianelli

"Senhoras e senhores, meninos e meninas, respeitável público". Era assim que começavam as matinées de Circo e a estas palavras mágicas do começo, crianças esbugalhavam os olhos e batiam palmas sem cansaços.
Os adultos que as acompanhavam olhavam tanta satisfação e alegria,aderindo com entusiasmo.
A curiosidade de ver ursos de bicicleta, leões obedientes e saltitantes, elefantes dançantes, trapezistas voadores em nada ofuscava a expectativa dos palhaços. Aí, era o delírio!
Da nobre arte, velha de séculos, temos hoje quotidianas imitações políticas que nos entram pela porta dentro sem pedir licença, queiramos ou não, dominam debates e chatsfacebookianos e até pululam nos adros das igrejas.
"Deve-se julgar da opinião e carácter dos povos, dos seus eleitos e predilectos" (Marquês de Maricá). Concordo plenamente pois se vivemos em democracia, teremos de aceitar as escolhas sufragadas ainda que deixem muitos travos de amargura. Deste estado vamos, a pouco e pouco,tomando o conhecimento.
Na Roma antigaos "César" de então não deixavam o povo passar fome e tédio: panem et circenses.
Hoje o circo também acontece; actuam palhaços e a ignorância ouve e bate palmas mal sabendo que o pão não será de novo distribuído, antes rareará. Assim são as ostentações de poder na tentativa, algo frustrada, de desculpa, de verdade escondida, de culpa não assumida. Nada voltará a ser como antes: a Madeira agita-se, já não tem medo, não se envergonha de discordar e no livro enorme da História, começa a virar a folha.
Quando o poder é incomodado é célere a recrutar novos soldados. Imberbes de política, tantas vezes de Educação, refugiam-se na grosseria de actos e palavras sob um tecto de falsas verdades cujo estampido não fará vítimas.
É com tristeza que vejo no panorama político português uma hoste de "jotas" sem experiência, rasos de incompetência, ávidos de importância, balofos de maus saberes. Não é com "políticos" destes que se ultrapassam crises, que se diluem carências, que se enfrentam adversidades.
A Madeira tem excelentes condições de turismo, um clima óptimo, um povo hoje menos risonho mas acolhedor. Não será com insultos e procedimentos cabotinos que se ultrapassará, com esperança, os tempos difíceis que só agora se vislumbram ao respeitável público.

Maria Teresa Góis
Diário de Notícias, 27 de Maio de 2010

http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/326534-o-respeitavel-publico

domingo, abril 29, 2012

'Diazepam'*

No dia da assinatura da venda do BPN ao BIC, a preço de saldo, o indivíduo bem-disposto sentado ao lado do eng.º. Mira Amaral disse: "Os portugueses estão mais tristes que qualquer angolano de calções e chinelo no pé". Se, de início, tal declaração me pôs a paciência em franja certo é que hoje começo a alavancar (promover) que a ideia não é errada. Senão vejamos: o subsídio de Natal criado em 1972 por Marcello Caetano e os subsídios de férias e desemprego de 1974, andam na boca e na miragem dos portugueses. Depois da mística data de 13 de Setembro de 2013 para o regresso aos mercados temos agora o ano 2017 em vista, como ano da devolução.
Criados, os dois primeiros, para compensar os baixos salários então praticados, não se esperava que quarenta anos depois e mantendo o nível de salários sempre baixo para o grosso da população, o subsídio de férias e o de Natal, assim fossem "gasparizados".
Num país que hoje é governado por pessoas que não parecem conversar entre si, é fácil despedir, é barato e não precisa de aviso prévio.
O parto sigiloso da suspensão das reformas antecipadas demonstra a insegurança do Governo e o desprezo que têm pelos sindicatos e parceiros sociais.
O país, de dia para dia, empobrece, esvazia-se de quadros jovens que emigram à procura de um futuro, deixando a zona de desconforto a que não tencionam voltar. O país envelhece sem o acesso à saúde e aos medicamentos, anda ansioso, sem a capacidade de criar anticorpos às convulsões sociais previsíveis.
O Estado vende, a qualquer preço, os bens do país mesmo que sejam empresas de serviço público, sem retorno possível num qualquer futuro.
Não me admiraria de ver a estátua do Marquês de Pombal numa praça angolana ou o Fernando Pessoa de perna cruzada na China…
A depressão cerra fileiras e aos manifestantes de Abril, a pouco e pouco, vão-se juntando mais alguns descontentes e desiludidos, enchendo as praças e avenidas.
Outros, não aguentando o peso e o ritmo da vida sem a panaceia de um qualquer Diazepam, mesmo se genérico, põe termo aos problemas numa solução radical.
Reinstalou-se o medo, o falar à boca pequena, a denúncia, a pobreza, a mendicidade de um país intervencionado.
Não admira que o estado geral da população activa, que hoje já não tem subsídios ou garantia de emprego certo, somando os desempregados desesperados e os idosos onerados, precisem de sedativos que lhes mitiguem a ansiedade e a precariedade de vida, contrastando com os que auferem ou acumulam boas pensões.
O desemprego flagela famílias e as normas do governo atiram-nas para organizações de apoio alimentar, um "take-away dos pobres" como disse o ministro. Umas, porque outras hão-de recorrer a meios ilegais para garantir a sobrevivência.
Aproveitemos pois o 1.º de Maio para celebrar o trabalho e os trabalhadores, para fazer ouvir o direito ao trabalho e para descansar num feriado que dificilmente será retirado, gozando os verdes da Laurissilva, olhando o oceano azul, na descontracção do convívio e, por que não?, saboreando uma 'cuba libre'!

*Diazepam - fármaco da família dos bezodiazepínicos (ansiolítico, sedativo)

Diário de Notícias
 
MARIA TERESA GÓIS

domingo, abril 01, 2012

Vandalismo, Violência ou Terrorismo?

"A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota."
Jean-Paul Sartre


Sabemos que o terrorismo é um fenómeno quotidiano.
O século passado foi fértil em actos terroristas gerados pela ambição e pela corrupção moral, sem piedade pelas consequências geradas.
A falta de argumentação, de entendimento, de razão ou mesmo a atitude cobarde e anónima, levam ao terrorismo. E não refiro casos de guerra, refiro casos políticos que nesta Região Autónoma e desde o 25 de Abril de 1974 vão acontecendo e ficando impunes.
O termo "terrorismo" apareceu pela primeira vez em 1798 no suplemento do Dicionário da Academia Francesa, dado o pânico vivido naquele país de Setembro de 1793 a Julho de 1794. Muitos, ligaram-no à anarquia.
Gilles Lapouge (1923/-) dizia que "esses assassinos cegos se consideram santos, heróis, pessoas sacrificadas, que hoje provocam a desgraça com o objectivo de preparar a felicidade do amanhã".
Hoje, o terrorismo anárquico, violento e vingativo, actua neste cantinho do céu chamado Madeira. Não há mártires suicidas cintados de explosivos, invocando um facto religioso ou tribal. Mas há o fogo ou os explosivos nos bens alheios!
É a violência vândala, acobardada, quando alguns sentem que os aterros lhes fogem debaixo dos pés.
Se a vingança se serve fria, será que a impunidade se serve quente?
Sobre os acontecimentos ocorridos não se ouviram as vozes sábias, autoritárias do politicamente correcto que, quotidianamente, escribam na Região.
É comprometedor, no mínimo, esse silêncio complacente.
O radicalismo leva à desconfiança, à provocação. O ódio feito acção é um estado de espírito que exige tratamento.
Havendo na Madeira carências e falhas na medicação e meios de actos médicos, cumpridas que sejam as promessas de reposição da normalidade a curto a curto prazo, será urgente que se tratem estas patologias terroristas, se as analisem e as curem de raiz para que, um dia, não sejam os sadios a lhes tratar da saúde.

Maria Teresa Góis
 
Diário de Notícias

domingo, março 04, 2012

De milagre em milagre

Diário de Notícias
 
Maria Teresa Góis
 
 
 
 
No século XX o nosso querido país era conhecido por todos como o país dos três "FFF": Fátima, futebol e Fado.
Já no século XXI ninguém hesita em recorrer ao léxico profundo, com ou sem acordo ortográfico, acrescentando mais um rotundo "F": fónix!
Tendo sido o buraco mais badalado até hoje, o buraco da RAM, é certo o garrote que nos espera nos tempos actuais, a médio e longo prazo. Crise? Não! Sabemos também que neste Carnaval madeirense se gastaram 502 mil euros, o dobro do anunciado pela secretária regional do turismo. Um milagre de verbas, sem dúvida, ou seja, continua tudo na mesma.
O Presidente do Governo Regional que, no domingo passado se referia ao Governo central como "uns rapazinhos" é o mandatário do 1º Ministro na Madeira. Mais um milagre, este, previsivelmente, de curta duração.
Espera-se que nas festas, inaugurações ou nos adros das Igrejas (se eu fosse o Pároco não deixaria) se obrem mais conversões. Haverá explicação, com mímica, em que os vilões serão, por milagre, angélicas e impolutas criaturas.
O ministro das Finanças, pausadamente como convém, afirmou no dia 28 de Fevereiro que a troika ficou "agradavelmente impressionada pelo facto do programa de ajustamento da RAM ser forte, adequado e credível, nos melhores interesses e respeito da Região, pela dívida acumulada". Milagre! E a resposta que todos ouvimos foi um estupendo dito: "o que eu faço, faço bem!". Não será milagre?
Já neste mês sentiremos o milagre do IRS, com aumentos retroactivos a Janeiro e Fevereiro, em Abril o milagre do IVA e todos os aumentos que com ele se pendurarão nos nossos vencimentos ou pensões. Seremos então milagreiros mensais de gestão económica, de pobreza flagrante que afectará a qualidade e os mínimos de vida de uma grande maioria. Só o milagre da solidariedade poderá mitigar estas necessidades.
E ficamos na expectativa das taxas moderadoras, das de circulação e dos aumentos de combustíveis.
A insuspeita Dra. Manuela Ferreira Leite e o Dr. Rui Rio discordam do discurso fantástico do Governo que prevê, para 2013, um oásis de ressurgimento económico, de emprego, de melhoria de vida para a nação portuguesa não emigrante. Precisaríamos, nem que fosse por milagre, de uma coesão política que pudesse derrotar esta subserviência a estrangeiros, como se em Portugal não existissem cabeças competentes e como se o abismo sobranceiro não estivesse à vista de todos!
A troika diz que estamos no bom caminho mas eu, que me perdoem, não acredito em milagres!

domingo, fevereiro 05, 2012

Envelhecer - um direito!

As horas mais belas do dia é o amanhecer e o crepúsculo. Transpondo para a Vida estes dois momentos, tanto é belo o nascimento como a mudança para a velhice.
Passam os anos e acumulamos recordações, alegrias e tristezas que parecem intransponíveis, únicas, que actuam na nossa vida como uma mola ou uma vitamina.
Consagramos na memória a recordação por excelência; até aprendemos a esquecer ingratidões afinando a sabedoria, no saber escolher entre o trigo e o joio da Vida, construindo na mudança novas relações. Também aprendemos a lidar com a partida dos nossos contemporâneos, o nome de novas doenças, descobre-se que as faculdades outrora plenas vão falhando, mas podemos olhar a vida com a serenidade da poesia pois tudo é possível ou impossível!
Por isso somos meninos duas vezes…
Quando a memória falha, acentua-se a recordação e temos a noção da finitude.
Mas se envelhecer é um direito, será sempre um nobre direito. Pela vida que se levou, feliz ou infeliz, pela boa ou má semente deixada. E, neste direito, assiste o carinho e compreensão da família e da sociedade.
Este ano já, serão duas as dezenas de idosos encontrados sem vida nas suas casas ou em refúgios. Mais do que o choque de os saber morrer sós, incapazes fisicamente, talvez lúcidos, o choque da estupidez humana que, à vista de todos afirma "tem três dias que o não via", "tem uma semana que a não víamos".
Nas grandes urbes em que muitos são os que passam despercebidos, haverá desculpa. Mas nos meios pequenos, nos bairros em que toda a coscuvilhice se sabe e comenta, dói a indiferença social irresponsável.
A vida tornou-se difícil para quase todos e talvez esta austeridade fomente o egoísmo e a indiferença.
Os nossos idosos são o Património da nossa cultura, dos usos e costumes, da portugalidade adquirida através dos anos (sem ser preciso o uso do emblema na lapela).
O Estado, a sociedade e a Família, se existindo, deveriam monitorizar cada caso e tentar a melhor solução. É um pensamento utópico, na época actual, em que o empobrecimento do País é um crescendo e regredimos décadas, se não um século.
Também pela Região os casos de isolamento desamparado acontecem, há uma população desmarcadamente idosa e talvez por isso se fechem serviços médicos de urgência sem olhar à possibilidade de um socorro urgente. Se um doente das Achadas da Cruz adoecer, sem transporte, esperará por um socorro que sairá de S. Vicente, para aí retornar. Com um quartel de bombeiros no Porto Moniz…
Mas os gastos com o Carnaval em todos os concelhos, estão garantidos.
E deixo uma informação ao senhor Secretário dos Assuntos Sociais; a co-habitação de idosos numa só casa já se usa em Portugal Continental onde autarcas sensíveis e conscientes transformaram e adaptaram escolas primárias vazias em habitações, com infraestruturas e o devido acompanhamento e assistência da Segurança Social.
No Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, saibamos estar atentos aos cada vez mais evidentes sinais, no dia-a-dia.

Maria Teresa Góis  (publicado Diário Notícias Madeira em 05-02-2012)

domingo, janeiro 08, 2012

No limiar do limite….

Não era este o texto que me propunha escrever no começo de um Ano novo em que o cheiro a Festas ainda perdura no fundo dos frascos dos biscoitos, nas garrafas de licor, no cantar dos Reis que esta noite ouvi.
As notícias que temos escutado na Madeira têm, porém, um peso maior, mais grave, que a pessoa consciente não pode esquecer.
Começo pelo acidente das duas turistas. Para quando em todos os "sites" que vendem a Madeira, em todas as promoções, em todos os mapas de Levadas, a informação não só do equipamento necessário, o aviso dos ambientes húmidos e escorregadios mesmo se num dia de sol, do respeitar as indicações escritas e é urgente que elas apareçam em pelo menos 3 a 4 línguas, as distâncias e orientação, a sensibilização nas receções de Hotéis para a renovação do aviso de alguns perigos e o uso de telemóvel indicando o número de socorro e, sempre que possível, o acompanhamento com guias. Estes acidentes que já são, infelizmente, notícia quase mensal nas nossas Levadas, é um mau cartaz turístico.
Pensei que a contensão do discurso governativo, depois das promessas e declarações eleitorais alucinogénias que doparam 48% dos votantes madeirenses, inebriados de inaugurações "para vilão ver" porque muitas delas estão fechadas, inoperativas ou ainda por concluir, teria agora o rumo certo de recuperar a Madeira, mas não.
Bastaram-me 14 minutos da entrevista ao Sr. Presidente do Governo Regional para sentir que a continuidade de governação, não fora o garrote do Primeiro-ministro e Ministro das Finanças PSD, seria mais do mesmo.
Já sentimos nas contas mensais indispensáveis os aumentos; vem aí o combustível especialmente onerado para a Madeira em 15% de imposto, o IRS, o IRC o IVA que subirá aos 22% tornando, no dizer do Dr. Jardim, "a vida mais barata e competitiva"… Primeiro instalou-se a pobreza moral, o despeito pelo que é dos outros, de todos, e agora chegamos à Pobreza física, outrora envergonhada e escondida.
Um estudo da União Europeia no dia 03 pº. pº. diz que Portugal é o único país da EU onde foi exigido mais aos pobres do que aos ricos. Com um governo social-democrata, coligado, e ambos pertencentes ao Partido Popular Europeu, é de estranhar que assim se fomente e aumente a Pobreza, que se mande os Jovens e desempregados emigrar.
E se perguntássemos ao Governo Central a causa desta austeridade pesada, que se apega à Ilha por mais de uma dezena de anos, a resposta seria: o "Buraco" da Madeira!
Teremos de ser optimistas, criativos, verdadeiramente honestos se quisermos, desde já, um ano menos carregado. Caso contrário o passado misticismo do ano 2000 acontece - chegámos ao limiar do limite.

Maria Teresa Góis
Diário Notícias, Madeira, 08-01-2012

domingo, dezembro 11, 2011

Passo a Passo para o Natal

 
Dezembro sombrio, como se quer o Dezembro. O frio, a brisa e o cinzento do céu lembram que, a passos rápidos mas não certos, chegamos à "Festa", ao Natal!
Mas o Natal (o tal que aconteceria sempre que o Homem quisesse), deixa marcas, sulcos, em cada um de nós. É o tempo das recordações, das Alegrias, do Presente, da Família, dos que estão sós… A Paz não será celebrada, a Fome não será mitigada e a indiferença, a par da solidariedade, vigorará.
Há, no Funchal, a animação da época: cor, movimento, alegria, luz, espectáculo. É convidativa uma cidade que assim recebe.
Depois, espera-nos um ano indecifrável e difícil. Novos impostos e limitações, novo custo de vida, onerando os mais pobres e a classe média.
Cortam-se "gorduras" reais e virtuais, criam-se novos cargos de direcção e reduzem-se outros, engorda-se à mesma o "emprego" aos amigos, familiares dos amigos enquanto no Centro de Emprego, que se deveria chamar de Desemprego, famílias desesperam.
Fechou-se a Direcção Regional de Educação e Reabilitação Especial, alegando que poderia ser integrada noutra. Talvez que a vice-presidência do Governo pudesse ter menos cargos em prol da manutenção desta Direcção.
Que "Natal" terão, pelo ano fora, estas crianças que não pediram para nascer diferentes e a quem professores dedicados dão o seu melhor, não só no ensino e na educação, mas também no carinho e na preocupação. Vem-me à memória o trabalho conseguido e realizado pelo prof. Eleutério de Aguiar, as sementes que deixou e também o modo como foi afastado!
Em vez de gorduras, cortam magrezas. O povo, aos soluços, vai conhecendo o pouco que escapa de um discurso chato, repetitivo, cansativo, estéril e sempre com bodes expiatórios. A pretensa governação regional acabou, perdeu-se a conquista autonómica, lavrada em cimento e obras valiosas, pelo seu desmedido custo e inépcia de aproveitamento. Nada mudou nas eleições regionais a não ser a esperança da Mudança, hoje mais próxima.
O tempo das festas acabou. Finalmente!
Levaremos um ano "troikado", a falar verdade olhos nos olhos e nos bolsos.
Mas não percamos o ânimo da sobrevivência e da Alegria.
É Natal.
Mais do que tudo, é tempo de reunião, de saber sorrir, de saber pensar nas crianças que perderam a DRERE, nos inúmeros desempregados, nos pobres cujo índice aumenta todos os dias, nos que estão sós e saber olhar para além do sombrio do céu, a luz.


Maria Teresa Góis
"Sinais dos Tempos", Diário Notícias Madeira, 11-12-2011

domingo, novembro 13, 2011

A pose do Governo



 
 
"NÃO SEJA SERVIL; NÃO TENHA SERVOS."
Agostinho da Silva

Dia 09 de Novembro passado. Um compromisso inadiável obrigava-me a estar no Funchal cerca das 15h. Admirei-me de encontrar tantos pequenos/as de mochila às costas, tantas crianças pela mão de adultos. A tarde estava amena, clara de sol e só para os lados do Monte as nuvens pareciam mais carrancudas. Os cafés estavam cheios, homens conversavam pelos passeios e a cidade bulia sem pressas, descontraída.
Tomada de posse do Governo. Sim, e depois? No consultório a televisão transmitia um discurso a que ninguém parecia ligar, ouviam sem ouvir, viam sem ver, como se folheia uma revista em consultório médico!
Tive a chata curiosidade de passar, no dia seguinte, pela oratória. Surpreendeu-me, confesso, o número de identidades estrangeiras nomeadas que, sendo vivas, não sei que grau de lisonja sentiriam. E linha sim, linha não, lá fui tentando dissecar o que de novo pudesse haver na mensagem.
Pela citação de Paulo Krugman e da "necessidade de criar empregos" com o fito certeiro da produtividade digo eu, não me parece que a tolerância de ponto dada a milhares de funcionários fechando escolas e organismos públicos, estivesse na linha de pensamento do mesmo.
E se Santo Agostinho disse que "uma lei injusta é inexistente" também deixou escrito que"…de facto a corrupção é nociva, e se não diminuísse o bem, não seria nociva…"
No Sermão 37 do grande P. António Vieira lemos que "Pior é uma verdade diminuída que uma mentira mui declarada; porque a verdade diminuída na essência é mentira, e tem aparências de verdade; e mentiras que parecem verdades são as piores mentiras de todas." Referir-se-ia, visionariamente, à dívida oculta da Madeira?
Daqui se conclui que este Governo Regional, em tudo igual ao anterior, pecou gravemente contra a sua Pátria, mesmo que ela seja a Madeira, ao fazer uso da verdade oculta.
E, não será a mediocridade que fez a perseguição política, as cenas de "pão e circo" que precedem todas as eleições na Madeira e consequente pseudo inaugurações para um povo vestido com o véu da ignorância política, consumir? Quantas dessas inaugurações estão deficientes, inviáveis, fechadas?
Que renasça uma esperança nova nestes quatro anos. Que se cortem as "gorduras madeirenses" de todas as maneiras, para que não haja denúncias de deputados a residir no Funchal ou bem perto e a receber deslocações, tal como no Governo central, que haja coerência dos que não tiveram a maioria mas ganharam, cumprindo com o prometido, que o arranjinho de lugares simpáticos cesse, que se pense no ónus de um desemprego galopante e de uma Pobreza adivinhada que até pelos passeios da cidade do Funchal será visível.

 Maria Teresa Góis

domingo, outubro 16, 2011

"Um ónus e não um bónus"

Maria Teresa Góis
"Um ónus e não um bónus". 
Pedro Passos Coelho, 1º Ministro, 14.09.2011

Depois do ministro Miguel Relvas ter afirmado que a dívida regional seria conhecida antes das eleições, os Madeirenses ficaram suspensos da informação. Divulgado um total, ainda não totalmente apurado, de cerca de 7,5 mil milhões de euros, resta saber o quanto terá custado ao erário as inaugurações apressadas, com obras incompletas, inauguradas para fechar de seguida e ainda os comes e bebes a que todos ou quase todos já se habituaram. Sobretudo no meio rural.
Vítor Gaspar, ministro das Finanças, já afirmou "ser imprescindível alterar a lei de Finanças para que este tipo de comportamento não volte a repetir-se". E porque foi tão frio, tão ríspido o nosso pausado e explicativo ministro? Porque além do deficit de 23% do PIB a dívida equivale a seis vezes a receita de um só ano.
E votámos no dia 09 passado, ignorando da missa a metade. Votaram 147.344 votantes, sendo que 71.556 votaram em Alberto João Jardim a presidente do Governo e 71.888 votaram nas outras forças partidárias, faltando apenas mencionar os 3.900 votos brancos ou nulos.
Será uma maioria que ganhou? Duvido seriamente pois o PPD deveria ter 73.673 votos, o que não teve.
Acabar-se-ão agora "as baldas" na Assembleia Regional? Com certeza que haverá mais cuidado ainda que a qualidade do discurso verbal continue na mesma. Ou pior, à conta de alguns eleitos!
Acreditando que a voz ancestral do Povo tem razão, "Deus escreve direito por linhas tortas", é caso para dizer, agora, que quem comeu a febra roa o osso. E sem reclamios e queixas, sem acusações ridículas, sujeitando-se à disciplina e austeridade impostas, já sem poder recorrer ao aliciamento pessoal para a corrupção social.
E, se como afirma o presidente, "tudo é legal" porque não reclama o Governo das derrapagens nas obras, do mau acabamento e qualidade de material? Talvez se poupassem uns milhões se, é óbvio, os "amigos" não se importassem…
Nada voltará a ser igual após estas eleições e a hegemonia laranja caminha, constrangida e caduca, com mais furos no cinto, para uma minoria. É só o Povo se aperceber do logro em que caiu com o beneplácito do Governo da República.
Morto o Turismo, sem economia, sem as centenas de milhões que o Continente mandava, é um desafio que se põe a todos os Madeirenses de saber viver e suplantar a realidade de verem, a cada mês, menos euros e menos poder de compra.
Adeus festas comemorativas em todos os Concelhos, adeus jantares à borla, passeios, benesses em tempo de eleições.
É a hora da oposição e da abstenção prepararem o caminho para as Autárquicas!


sexta-feira, outubro 07, 2011

"Abaixo o fascismo..."

Ontem fiquei completamente PARVA que, por acaso, é um dos "atributos" que me falta. 
Ouvi uma multidão de dezenas gritar "abaixo o fascismo", uns de braço no ar, outros "tocando" palmas, outros rindo e alguns tentando por-se de costas para a televisão.
Pensei que tinha regredido no tempo, que até estaria na Alameda D. Afonso Henriques em Lisboa, ou coisa semelhante.
NÃO, a cena passava-se em mais uma pseudo-inauguração do soba desta Ilha, que não merecia tão sorte funesta, e quando os reconheço vejo o próprio chefe da mafia fascista, o Alberto João, o seu vice-presidente, um aproveitador de negócios, dos tais que enriqueceu e, ainda por cima, tem fama de bater na mulher, vejo secretários de panças gordas, outros de cabelo rapado em cabeça dilatada, e toda a corja rastejante, de hoteleiros a comerciantes, com um único ponto em comum: terem sido beneficiados pelo regime jardinista.
Na outra frente da manifestação, funcionários da firma "Tâmega" radicada à décadas na Madeira, construindo estradas, túneis ou pontes, que têm salários em atraso, caras de despedimento entregues e um futuro negro pela frente.
A luta foi entre ricos e pobres, entre trabalhadores e políticos ineficientes, entre o Bem e o Mal, entre a Justiça e a Injustiça.
Será possível que no próximo dia 09 se continue a votar para mais despedimentos, mais fome e índice de pobreza, deixando que um louco e a sua turma de lambe botas continuem a destruir o que outrora foi uma Ilha verde, florida, feliz?
É preciso desenvolvimento, todos o queremos. Também na nossa casa já não lavamos à mão, comprámos máquina de lavar com o nosso suor e íamos, a pouco e pouco, evoluindo as condições da Família. 
Daqui para a frente de que servirão os túneis perfurantes da Ilha se não houver carros para circular? De que servirá o cimento se o Turista que nos visita, cansado das cidades quer o conforto dos hotéis e da Natureza.
É preciso usar a única arma democrática que temos no segredo das nossas mãos: VOTAR CONTRA O FASCISMO.