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sábado, dezembro 23, 2017

Natal sem Luzes





Natal sem luzes.
Natal sem pão, sem calor, sem  abrigo ou tecto, sem família.
Natal dos doentes, dos marginalizados, dos violentados ou oprimidos, dos escravizados no século XXI.
Natal sem luz.
Natal de um Menino que nem era louro nem tinha olhos azuis, que não sabemos o dia certo do seu nascimento e que o ano se referencia pelo fenómeno astral da estrela de Belém.
Natal de todos, afinal.
Que Ele nasceu é facto histórico, para os que crêem e para os que duvidam. Algo então mudou no Mundo dos homens.
Que de toda a luz, de todo o esplendor que possamos ter em casa fique um rasgo de lembrança para os que não podem ter Natal.
Boas Festas

domingo, outubro 06, 2013

quinta-feira, março 08, 2012

MULHER


Mulher,
Que enfeitas o destino com corpo de ancas musicais,
Tão em paz e descontraída,
Te entranhas, como a chuva promissora,
Fértil, serena, avassaladora,
Aquecendo a indiferença e a ilusão.
Mulher,
Que nasceste para o luar te inventar o sonho
- Na nudez reclinada dos desejos –
Porto seguro, na fácil confusão do acordar,
Alimentas desesperos uterinos
E não és nascida de um qualquer Adão.
Mulher,
Única, una, imensa Mãe da natureza inteira,
Escondes na tua dor a dor mais verdadeira,
E no riso dos teus olhos enternecidos
Embalas, resignada, a morte do destino,
Nos filhos desta Vida que te nascem.
Mulher,
Corpo de deusa em ternuras breves,
Volúpia de pecado, sentinela de sonhos transformados,
Transparência de olhos, regatos ocultos,
Alma crescida em superior razão,
Mulher,
Dona de um abismo, nunca saciado...

Maria Teresa Góis


Ilustração- Aguarela de Jordana Góis

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Morreu "a Muda"...

     Quando em 1973 vim viver para o Porto Moniz, na altura um meio pequeno, hoje ainda rural, salpicado de casas pequenas sem luz e sem água, de poios cultivados e vizinhos curiosos e afáveis.
     A poucas dezenas de metros morava a Ti Antónia, figura venerável, xaile negro, coçado, saias compridas, às vezes descalça na poeira do chão, bordão de cana em cada mão, cara rosada e rugosa, emoldurada de cabelos brancos que, num ápice, desapareciam no puxar rápido do lenço preto. Os olhos azuis, por detrás de uma armação amarela, torta, de lentes gastas, pareciam maiores e mais vivos. Conversadora, mãe de muitos filhos paridos por casa, sobraram-lhe cinco.
     Morreu, terá mais de vinte anos, já centenária.
     Três filhas viviam com ela: a Francisca, a Rosa e a Paixão.
     Habituamo-nos a ver “as mudas”, como todos lhes chamavam, no quotidiano.
     Os meus filhos gostavam delas e do seu “pâpâpâ”, às vezes irritado, quando entre si brigavam.
    A Rosa, numa voz trémula, envergonhada talvez por ser a única que balbuciava palavras, fazia questão de saudar “os meninos” com gestos mímicos, ganhando deles o título de “a muda que fala”.
     Morreu Francisca, morreu Rosa, ficou Paixão.
     Figura magra, habilhando trajes herdados de anos, às vezes com a novidade de uma soeira garrida e nova, passeava o seu vai-e-vem no Cabo Salão, onde morava. A todos saudava e todos a entendiam e conversavam por falas e gestos.
     Enterra-se hoje às 14h00; faleceu no dia 07 e faria no dia 08 deste mês, 88 anos.

Maria Teresa Góis
09-02-2012

segunda-feira, março 21, 2011

sensibilidade I



 Sinto no céu
                Que se azula
A permissividade do sol
E o mar ondula
                 Num cinzento mole
A luz esforça
                 O compacto nublento
Que se renova e adoça...


Maria Teresa Góis
(foto da net)

é Primavera

                É primavera, dessa que não acontece só no calendário, porque a natureza desperta emergindo dos castanhos cobre para os verdes tenros que surpreendem, em humidades cúmplices. A poalha da manhã é um manto amarelado que se espreguiça, espalha e desaparece no calor do sol. O ar fresco traz os cheiros da noite já coados pela luz. Apetece respirar fundo e pensar que cada dia é um começo.

                Mas não é.
                As caras estremunhadas e remelentas das crianças que esperam, cedo demais, o transporte da escola, os que de foice ao ombro vão ou vêem dos palheiros, o carro do pão parado na venda, a conversa de comadres, dizem de um começo de séculos que temos de prosseguir.
                A mesma bica, do mesmo café e da mesma máquina, não tem um mesmo sabor!
Não pode ter porque o “bom dia” que se troca não tem as mesmas entoações, as mesmas vibrações. Mas a manhã espalha-se no tempo e nas vontades contrafeitas, adianta-se no dia soalheiro e a continuidade acontece.
                 Crianças passam para a escola numa mão dada que é o prolongamento do braço das mães que as arrastam, enquanto outras caminham ajoujadas pelo peso da mochila, mas alegres. E é essa pequena Alegria que nos garante a Primavera, todos os dias.

Maria Teresa Góis

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

anotação


Lembro esquecidas presenças,
Lugares sombrios,
        Onde rasgos de sol me visitavam,
Onde os murmúrios soavam,
O vento brincava na vida sem tempo,
           Desejada.
Lembro esquecidas presenças,
Lugares sombrios,
           Hoje sem rasgos de sol,
Sem murmúrios, sem ventos,
             Sem ti.

Maria Teresa Góis

terça-feira, outubro 19, 2010

o "tukakubana" faz hoje 2 anos...

Foi a partir de um desafio que o criei. Pensei-o para publicar apenas o que escrevia, mas depressa senti que não poderia ser. Para além do pouco que escrevo, há boa poesia, óptimos textos de literatura, de opinião, notícias de ciência, da actualidade, fotos e pensamentos, tudo o que vos tenho dado tentando o melhor.
Das vinte ou trinta visitas diárias de há um ano hoje os meus visitantes são mais, não sei se mais assíduos. Mas gosto saber que há ilustres desconhecidos que aqui passam, aqui ouvem música, aqui deixam opinião e alguns até deixam nos seguidores a sua foto. Pena que não sejam mais pois gosto de vos olhar, de vos "seguir",também.
Tentando trazer ao blog um leque de assuntos culturais, partilho convosco o que acho de essencial, de curioso, de interessante. Por isso a vossa opinião é, para mim, importante: críticas e sugestões, opiniões, são sempre bem vindas.
Espero ter saúde e carolice, q. b., para continuar o "tukakubana".
A todos vós, de coração, MUITO OBRIGADA.

segunda-feira, setembro 20, 2010

Outonos




Outonos de folhas fáceis,
   Caídas, inertes,
Pintadas de cobres e ouros baços
  (espalhadas na morte do chão)
em que verdes se esbatem,
  criando ilusão.

Também tu tens outono,
  Calado e sem dono,
  No teu coração.




Maria Teresa S. T. Góis

segunda-feira, agosto 16, 2010

Cheiro a verdes


   É verde, verde, o cheiro da noite que entra pela janela. 
   Colhido na serra tem, contudo, um travo fundo de mar como se as raízes bebessem, milhões de anos atrás, o salgado das marés.
   A feiteira seca, espalhada, refrescando odores e despedidas na tibieza da noite. Pouco faltará a ser calcada, recolhida, ciosamente guardada meses afora, para cama de gados e adubo.
   Os grilos não cansam e o sono custa, não acontece.
  Bizarra esta manifestação de convívio nocturno, cocktail de ervas e húmus, machices gri-gritadas em desafinação estridente.
   E o ciclo repete-se, no nasce e morre, girando para tudo e todos, no virar rápido dos meses, de verdes diversos, para os quais não quero fechar a janela...

  Maria Teresa S. T. de Góis

 

 

 

 

sábado, agosto 14, 2010

Uma data



 
Olhei casualmente o calendário
E a centelha mais querida faiscou.
Faz hoje anos, lembras ?
A data que sempre celebramos
Até que o mar encheu !
Depois,
Limitámo-nos ao cruzamento de ondas,
Ondas sem crista,
Sem o rolar macio e colorido das águas,
Sem o estrondo de quem se deixa morrer.
Ondas desviadas, sem correspondência,
Sem o vaivém das marés da nostalgia,
Sem reger marés, clareios de céus, sombras de amantes...
Faz hoje anos e eu celebro, na distância do infinito
Que ninguém ainda mediu,
Celebro no vinho frio que se entranha e saboreia,
Saboreando o teu riso, o teu olhar pleno, a tua provocação.
Tudo capitalizamos e hoje,
Celebrando,
                                      Somos banqueiros de sonhos.

Maria Teresa S. T. Góis

terça-feira, agosto 03, 2010

Viajo


Viajo nas nuvens rápidas levadas p'lo vento,
Despenteada pelas brisas,
De olhar semicerrado à luz,
Viajo.

Confiante, apesar das alturas,
E conto as estrelas caídas no mar.
Viajo ainda,
Neste intervalo que vivo de vida,
No voo desinquieto das gaivotas.

Hoje, amanhã e sempre,
Regresso ao reino obscuro do vento…

 
Maria Teresa S. T. Góis
Porto Moniz, 25 Julho 2010

quarta-feira, julho 28, 2010

Antes que seja tarde



Antes que seja tarde
Eu quero renovar a terra,
Desbravá-la e produzi-la
De grãos mortos e espigas plenas.
Quero cruzar os mares,
Navegá-los, balouçar nas ondas,
Medir e brincar nos ventos.

Antes que seja tarde !

Antes que seja tarde
Eu quero amar.
Assumir esse Amor e compartilhar
Tudo o que me invade.
Olhar cada filho bem nos olhos,
Rever a minha vida dia a dia,
Olhar as minhas mãos e,
Antes que seja tarde,
Não as ter nunca vazias.


Maria Teresa S. T. Góis

imagem Salvador Dali

segunda-feira, maio 17, 2010

paciência

quando tudo pede calma,
e o corpo pede um pouco mais de alma,
a vida não se contempla
      e não pára.

o tempo avança e pede pressa
e eu que não tenho paciência
     peço a espera.


Maria Teresa S. T. Góis  
Porto Moniz, 17 Maio 2010

sábado, maio 15, 2010

onde


Onde está o amor que amei
Na impetuosidade dos gestos,
Na ausência de palavras dispensáveis,
Na intensidade do olhar?
Que rumo levou, que destino,
O ardor das essências, das demências,
Que não pedi para acontecer.

 
Cresci ou envelheci?


Maria Teresa S. T. Góis
sem data 

quinta-feira, maio 13, 2010

sem saber

amei-te sem saber
sem arrepios, suspiros,
sem rubores, meneios
com a alma liberta
de quem se evade.

amei-te sem saber
sem emoções,
sem recordações,
com a alma leda
de quem se amarra.

amei-te sem saber
sem idades, razões
sem muitas paixões,
com a alma inteira
de quem renasce

Maria Teresa S T Góis
sem data

pintura: "antropofagia"
Tarsila d Amaral

sexta-feira, abril 23, 2010

Germano


Não há passividade carente na dança de um canavial. Há harmonia e a subtileza das leis físicas ordenadas pelo "nordeste". Bailado estremecido e solto num som sempre seco que, interrogado na noite, nem se sabe se é chuva se vento. 
Todas as brisas da natureza têm um cúmplice carinho, nesse vai vem, um tombar parecido ,calmo, ingénuo e sereno.
Germano apreciava a sua terra, vivia e comia dela. De manhã em manhã era por ela que persistia e as suas grandes e ásperas mãos eram meigas no pegar da foice ou da enxada.
Não conhecia outro vocabulário, não sonhava outra vida. A terra, só a terra, era a perfeita felicidade do homem e tê-la, desbravá-la obrigando-a a produzir, possuí-la como bem de raiz, era a cabal missão para que nascera.
A escola ficara-se a meio pois nem as ameaças do pai de Germano conseguiam convencer os professores. Nascido no meio rural, habituado ao servilismo escravo de quem obedece porque nada mais sabe fazer, Germano cresceu menino de trabalho enrijecendo músculos, criando forças impensáveis à sua estatura entroncada e baixa.
Os olhos cresceram-lhe ávidos do saber que a escola negou, escuros como terra arroteada, salientes como bolbos, penetrantes como sol de Agosto sem vergonha, escaldantes.
A terra sorveu-lhe os primeiros acordes machos e ele agradecia-lhe os silêncios deleitado nos cheiros fortes de húmus, na capacidade de quem rasga sulcos e amorosamente os tapa na promessa da fertilidade.
O gado era a outra paixão de Germano. 
Tinha prazer nos seus olhares - quase idênticos - de compreensão, à comida e cama seca, a uma leve palmada nos quartos cheios, no grito animal, à ração verde e fresca.
O Domingo, dia sagrado e de descanso, Germano gostava de ir à missa, apreciava o colorido das vestes, do entrar pachorrento na igreja, dos cânticos semi- berrados e do acotovelar que a enchente do templo obrigava. A saída era atenta e demorada, mesmo se chovesse, pois a diversidade de pessoas e cheiros só semanalmente acontecia.
E foi num Domingo, gozando a frouxidão do povo, que Germano a viu. 
Uma qualquer alquimia se gerou na seiva morena do corpo moreno. 
Foi penoso e calado o regresso a casa e nem os afagos do fiel amigo o alegraram.
Na terra a enxada era o encosto imóvel que o olhar distante acentuava. A semana jamais passaria e Germano arrastava as botas pesadas, pensando esmagar o tempo.
    Mas novo Domingo chegou e, com ele, o homem novo bem lavado e bem vestido  ansiosa e piedosamente se moveu.
Maiores, os olhos, dissecavam todos os bancos de mulheraça na fé firme de nova aparição. 
Ultrapassando-se a si próprio saiu a meio do ofício, invocando qualquer premente necessidade. 
Quando reentrou subiu as escadas do coro, vitorioso da sua inteligência e visão. Instalado olhou firme a imagem sagrada que, em frente, também o olhava, invocou pequeno murmúrio de oração e, enfim, reconheceu que amava! 
Não deu pelo desenrolar da cerimónia amando, em silêncio, aquela límpida claridade dentro de si. 
O "Amém" uníssono despertou-o. Apurou os sentidos e lutou para o lugar de varandim que outros abandonavam.
Viu-a. 
Sorridente, apoiada em abandono a mão no braço másculo de quem também lhe sorria. As alianças brilharam nas mãos entrelaçadas num reflexo que cegou Germano.
Agora, sentado e ausente no muro da estrada, anseia que o Domingo passe.
    As canas, ao longe, estremecidas e sussurrantes, deixam entrever o seu único amor -a  terra. 

Maria Teresa S. T. Góis 

Imagem: "o lavrador de café" de Cândido Portinari

Este texto foi já publicado, por ocasião da Feira do Livro, na revista cultural  "Margem", da Câmara Municipal do Funchal

domingo, abril 18, 2010

Faina


Manhã de Novembro. 
Abro a porta da rua e o nevoeiro lambe-me num reencontro desconfortável, repetitivo.
O motor do carro não responde à primeira ordem e pede acelerador e paciência. Cumpro. Rumo à Vila, encosta abaixo, no horário quotidiano.
O ilhéu esfumado e opaco envolve-se de sombras húmidas. O mar fustiga-o e o rochedo permanece habituado, vaidoso das rendas brancas que o bordam.
Cinzentos casam-se no horizonte, mar e céu e os barcos que vejo, longe, lembram-me as horas.
Clareia e começa o dia sempre igual; as mesmas caras e saudações não prometem novidades. Também o facto de ser Sexta-feira não parece satisfazer nada e ninguém.
Fim de tarde.
Desço ao porto para meter gasolina. Enquanto olho o mar e acho-o, agora, zangado. Pintam-se brancos ondulantes que as gaivotas evitam.
Uma voz uníssona, chorosa, um clamor dorido e o corre-corre das gentes alerta-me. Corro também.
Homens nervosos puxam fumaças apressadas, ajeitam barretas inquietas, gesticulam. As mulheres choram, apertam a cabeça e arrastam filhos pelas bainhas das saias.
Os barcos ! Os barcos saíram na alvorada da pesca e ainda não voltaram !
Rostos tisnados, rugosos, peles feitas das mesmas fomes e alegrias, espelham consternação. É íntima a dor que os atende e abraça e é única, também.
Esgota-se a tarde no tempo que a noite promete.
Empoleirado no guindaste um miúdo desafia o equilíbrio e a amplidão do mar. Só esta paisagem é possível ! Vultos sobem e descem a rampa do porto, semicerram-se olhos e até se aponta, nas muralhas, um binóculo.
E o grito do catraio nas alturas, esganiça-se no ar – SÃO ELES, SÃO ELES !
Dois pontos concretizam-se à força de braços, à força de gritos distantes que as preces não aproximam.
É pouco o espaço da chegada para tanta gente. 
Avançam mulheres e filhos e riem, riem, atirando ao ar a gargalhada de mais uma vitória.

 imagem:quadro de William Turnner "fishermen at sea"
Maria Teresa S. T. Góis

segunda-feira, abril 05, 2010

Abril



Gosto das manhãs de Abril de crepúsculos ensanguentados de encontro às janelas e habitadas pelo fim de sono dos pássaros.

As casas, íntimas de calores familiares, são despertares respeitosos.
O céu, puxado do lustro da noite, acende-se de claros.
A esperança toda se renova em intenções.
Vale a pena acordar nas manhãs de Abril conquistado.

  Maria Teresa Góis