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segunda-feira, dezembro 06, 2010

quarta-feira, novembro 24, 2010

1506 - O Massacre de Lisboa

Antes que el Rei fosse de Lisboa para Almeirim, ordenou Tristão da Cunha à Índia por capitão de uma armada, da qual, e do que nesta viagem se fez se dirá adiante, no ano de mil quinhentos e oito, em que tornou. Pelo que nestes dois capítulos, que são já derradeiros desta primeira parte tratarei de um tumulto, e levantamento, que aos dezanove dias de Abril, deste ano de mil quinhentos e seis, em Domingo de Pascoela fez em Lisboa contra os cristãos-novos, que foi pela maneira seguinte. No mosteiro de São Domingos da dita cidade estava uma capela a que chamava de Jesus, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, com quanto os que na igreja se acharam julgavam ser o contrário dos quais um cristão-novo disse que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta no lado da imagem de Jesus, o que ouvindo alguns homens baixos o tiraram pelos cabelos de arrasto para fora da igreja, e o mataram, e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação convocando-os contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos bradando, heresia, heresia, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus, que então vieram da Holanda, Zelândia, e outras partes, ali homens da terra, da mesma condição, e pouca qualidade, que juntos mais de quinhentos, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, e os corpos mortos, e os meio vivos lançavam e queimavam em fogueiras que tinham feitas na Ribeira e no Rossio a qual negócio lhes serviam escravos e moços que com muita diligência acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo, no qual Domingo de Pascoela mataram mais de quinhentas pessoas. A esta turma de maus homens, e dos frades, que sem temor de Deus andavam pelas ruas concitando o povo a esta tamanha crueldade, se ajuntaram mais de mil homens da terra, da qualidade dos outros, que todos juntos segunda-feira continuaram nesta maldade com maior crueza, e por já nas ruas não acharem cristãos-novos, foram cometer com vaivéns e escadas as casas em que viviam, ou onde sabiam que estavam, e tirando-os delas de arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres, e filhas, os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade, e era tamanha a crueza que até nos meninos, e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços, e esborrachando-os de arremesso nas paredes. Nas quais cruezas não se esqueceram de meter a saque as casas, e roubar todo o ouro, prata, e enxovais que nelas acharam, vindo o negócio a tanta dissolução que das igrejas tiraram muitos homens, mulheres, moços, moças, destes inocentes, despegando-os dos Sacrários, e das imagens de nosso Senhor, e de nossa Senhora, e outros Santos, com que o medo da morte os tinha abraçado, e dali os tiraram, matando e queimando sem nenhum temor a Deus assim a elas como a eles. Neste dia pereceram mais de mil almas, sem que na cidade alguém ousasse de resistir, pela pouca gente de sorte que nela havia por estarem os mais dos honrados fora, por causa da peste. E se os alcaides, e outras justiças, queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência, que eram forçados a se recolher a parte onde estivessem seguros, de não acontecer o mesmo que aos cristãos-novos. (…) Passado este dia, que era o segundo desta perseguição, tornaram terça-feira este danados homens a prosseguir a sua crueza, mas não tanto quanto nos outros dias porque já não achavam quem matar, pois todos os cristãos-novos que escaparam desta tamanha fúria, serem postos a salvo por pessoas honradas, e piedosas que nisto trabalharam tudo o que neles foi.”

Damião de Góis (1502-1574), in “Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória”, escrito em Lisboa entre 1566 e 1567. Historiador e humanista, Guarda-Mor dos Arquivos Reais da Torre do Tombo, figura central do Renascimento em Portugal – ele próprio acusado mais tarde de “heresia” pela Inquisição por causa das suas simpatias luteranas e da amizade com Erasmo –, Damião de Góis relata com sentida e genuína indignação o massacre de 1506, ao contrário de outros cronistas “cristãos-velhos” que se limitaram posteriormente a fazer um relato desapaixonado e quase burocrático da matança, optando por “branquear” os detalhes mais macabros testemunhados nos escritos de Góis.

domingo, novembro 21, 2010

As Amantes de D. João V

“Quando em 1742 D. João V sofreu o primeiro ataque de paralisia, o físico Bernardes teve este dito de espírito, que brigava com as conveniências palacianas:
- Cure-o João Jaques, que sabe o que lhe fez, e Manuel da Costa, que sabe o que ele fez.
Não obstante o Rei negá-lo aos médicos, toda a gente sabia até que ponto D. João V abusava dos excitantes.
Lord Freeman, que viajou em Portugal de 1778 a 1779, diz numa das suas cartas que «D. João V dissipou a sua vida com clérigos e mulheres; que depois de ter introduzido a Patriarcal, deixou reduzir a tropa a nada, e que decaído pela idade, para gozar mais tempo das damas, tomou cantáridas, as quais o reduziram a uma suma frouxidão; que tendo vivido como sultão, fez as pazes com o Céu, e acabou como santo, segundo as vozes dos lisonjeiros padres que lhe assistiram.»
Costigan e outros falam pela mesma boca.
Depauperado, exangue, o Rei vira chegar a paralisia complicada com reverdecimentos de antiga luxúria asiática, por me servir da linguagem de Santo Agostinho.
Não vampirizou, para robustecer-se, o sangue das crianças, como de Luís XI conta a lenda, nem chuchurreou no peito das mulheres, para alimentar-se a leite, como o cardeal D. Henrique.
Voltou-se para Deus e para as Caldas da Rainha.”

[Página 199 - As Amantes de D. João V, Alberto Pimentel, Bonecos Rebeldes, 3.ª Edição, Fevereiro de 2009]
fonte net

quinta-feira, novembro 18, 2010

A ADORAÇÃO DA "VITA CHRISTI" (1495)
"Xilogravura impressa em Portugal, em 1495, a ilustrar a "Vita Christi", livro custeado pela Rainha D. Leonor e impresso por Valentim Fernandes e Nicolau da Saxónia, artistas de origem germânica estabelecidos em Portugal. É provável que tenha sido aberta em Portugal, com a intenção de representar D. João II e a sua mulher, acompanhados por figuras da Corte.



Cada soberano tem diante de si um livro aberto. A presença dos livros funciona como elemento actuante na criação de uma atmosfera de recolhimento espiritual, propícia à leitura da obra que vai seguir-se (a gravura foi inserida no verso da folha-de-rosto, precedendo imediatamente o início da obra). Em segundo plano aparece um globo, que dá, juntamento com os livros, a medida universalizante da cultura."


"Vita Christi" é a primeira obra em língua portuguesa que se executou em Lisboa pelo processo tipográfico."
in: História da Edição em Portugal - Volume I - Das origens até 1536
Artur Anselmo
Lello & Irmãos, Editores - Porto, 1991

terça-feira, novembro 16, 2010

D. JOÃO V O HOMEM E A SUA ÉPOCA

“Havia uma secreta intenção de suborno, por parte do soberano, na liberalidade com que distribuía riquezas por igrejas, por conventos, por imagens. Tratava-se do mesmo equívoco em que ainda hoje vivem muitos crentes, de que basta adular os santos ou o próprio Criador com valiosas prendas para se obter uma protecção muitas vezes imerecida. D. João V julgava enganar a Deus, esquecendo-se de que, pela sua própria doutrina, Deus lê claro em todas as consciências e não há possibilidade de ludibriá-lo nem com basílicas de Mafra, nem com esmolas de pedrarias raras e ouro do Brasil.
As Caldas da Rainha também sacaram algum proveito da enfermidade do Magnânimo, só porque os médicos lhe recomendaram os afamados banhos daquela estância, que ele passou a frequentar todos os anos, pousando ali uma temporada com a família real e toda a corte. Estas deslocações periódicas de uma verdadeira multidão de luxo, seguida de uma numerosa comitiva de criados, custavam rios de dinheiro, ninharias a que o monarca se mostrava indiferente, como de costume. Além disso, aproveitava sempre o ensejo de para insistir na prática das suas liberalidades, conforme nos conta o seu admirador frei Cláudio da Conceição: «Foram muitas as esmolas que D. João V deu no tempo que se demorou nas Caldas, não só aos pobres particulares que de todos aqueles contornos acorriam a ele, com petições abonadas pelos párocos, mas aos conventos circunvizinhos e mais igrejas […]. Deu ricos ornamentos para a igreja das Caldas e mandou renovar os altares, deu-lhe também uma banqueta de prata sobredoirada e castiçais da mesma para todos os altares, turíbulo e naveta, e um sino.»"(Páginas 291 e 292)
Mário Domingues. D. João V O Homem e a sua Época. Prefácio – Edição de Livros e Revistas Lda. s/data (2005?) Sem indicação de edição.]

domingo, outubro 24, 2010

Homem moderno já produzia pão há 30 mil anos na Europa

fonte:PUBLICO
Os ingredientes eram só dois: farinha e água. Há 30 mil anos não havia sal nem fermento na culinária. Por isso, o pão em forma de bolacha era crocante e sem sabor. Uma equipa de investigadores encontrou vestígios em vários sítios arqueológicos na Europa que mostram que este alimento tinha um lugar importante na dieta dos caçadores-recoletores muito antes da existência de agricultura.
“É como um pão achatado, como uma panqueca feita só de água e de farinha”, disse citada pela Reuters Laura Longo, da Universidade de Siena, em Itália, uma dos dez autores do artigo com a descoberta, publicado esta semana na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. “Faz-se uma espécie de pita e cozinha-se numa pedra quente”, disse. O resultado é um alimento “crocante como uma bolacha, mas sem grande sabor”.
Os investigadores encontraram grãos de amido em pedras com 30 mil anos que serviriam para moer vegetais, na Itália, na Rússia e na República Checa. Antes, tinham sido encontradas pedras de moagem com 20 mil anos em Israel.
As pedras tinham restos de pequenos grãos de vegetais que os cientistas identificaram como sendo de raízes de fetos, e de uma erva chamada de Brachypodium e grãos do género da Thyfa, que são tão nutritivos como os cereais utilizados hoje. Só durante o neolítico, há cerca de dez mil anos, é que o homem começou a plantar cereais para a alimentação, iniciando a agricultura. Mas os investigadores defendem que a abundância destas plantas seria suficiente para os alimentos fazerem parte da dieta regular 20 mil anos antes. 
Um factor importante para a descoberta destes grãos, foi o facto de os investigadores não lavarem as pedras encontradas. A lavagem das pedras dificultou durante muito tempo a descoberta de vestígios vegetais da alimentação, o que fez pensar que a dieta destas populações era feita à base de carne.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Povo saharauí luta para derrubar o muro da opressão

Os muros são coisas doidas, símbolo de separação. Há quem diga que eles servem para proteger. Mas há que perguntar. Proteger a quem? Se a gente parar para pensar vai ver que os muros têm suas origens no poder. Desde muito tempo eles são erguidos para que aqueles que têm muita riqueza se protejam de quem não tem. A lógica da propriedade privada, da acumulação privada da riqueza e da terra. Valeria pensar: mas por que é assim? Por que uns têm muito e outros nada? Ah, essa é a pergunta que ninguém se faz. Contam que um dos primeiros grandes muros da história foi a muralha da China, idealizada no século VII a.C pelos imperadores da dinastia Zhou, dispostos a dividir a terra em dois pedaços. O deles e o dos outros. O trabalho começou em 221 a.C e terminou dois milênios depois. Mas, é bem possível que antes dele outros já tivessem sido erguidos. Relatos nos Vedas ou na Torá - livros sagrados de povos muito antigos - falam de castelos e muralhas, erguidas para proteger cidades e reinos de possíveis invasores. Os muros são sempre muito usados para separar povos, como, por exemplo, o Muro de Adriano, construído em 122 d.C, para dividir o mundo romano (civilizado) do mundo dos bárbaros. Parece que sempre foi muito difícil aos seres humanos uma vida em comunhão, sem o medo do "outro".
Mesmo em Abya Yala, onde as comunidades tinham por princípio básico a idéia de vida coletiva, é possível encontrar registro de grandes muralhas protetoras como o forte Pucará de Quitor, no deserto de Atacama, Chile, erguido pelo povo likan-antay para enfrentar o avanço de tribos inimigas. Nos tempos modernos, o muro mais famoso foi o Muro de Berlin, criado pelos soviéticos em 1961, materializando a cortina de ferro a separar o mundo comunista do capitalista. Durante anos ele foi uma espécie de símbolo da separação, da exclusão, da prisão e do ódio. Não havia quem, no chamado "mundo livre", não clamasse pela queda daquele muro. Quando ele finalmente foi derrubado em 1989, as gentes em todo planeta saudaram esta vitória da "democracia e da liberdade". A impressão que se tinha é que ali se encerrava uma triste etapa da vida humana, que nunca mais iria se repetir. E esta é uma coisa estranha de se pensar, se levarmos em conta que anos depois, em 1994, os Estados Unidos iniciavam um programa anti-imigração, chamado de Operação Guardião, que principiava a construção do odioso muro que separa o país ianque do México. Naqueles dias, ninguém se levantou para falar em ódios, exclusão ou falta de liberdade. Desde então, ali, naquela cerca, morrem milhares de pessoas tentando passar para o lado dos EUA, buscando viver a promessa do sonho americano. Raras pessoas no mundo falam desse muro ou se importam com as vidas que se perdem ali.
Depois, em 2002, o artificial estado de Israel, amigo e parceiro dos EUA, deu início ao seu muro, segregando o povo palestino em seu próprio território. Quilômetros e quilômetros de concreto dividem famílias e transformam um povo inteiro em prisioneiro, dando vazão a levas e levas de violência, dor e morte. Também são muito poucos os que se importam com isso. A mídia, como sempre do lado do poder, se encarrega de disseminar pelo mundo o preconceito e a mentira, atribuindo aos palestinos o rótulo de terroristas e bandidos. Raros são os que gritam pela queda deste muro. Ele aparece como algo necessário, para proteger o povo de Israel, embora nunca ninguém tenha cogitado que o Muro de Berlim existisse proteger o povo comunista da sanha do capital.
Pois não bastassem as excrescências dos EUA e Israel há um outro muro do qual muito pouco se fala. É o que separa o povo saharauí de seu território original no norte da África, região que permanece obscura e desconhecida para todos na América Latina.
O massacre do povo Saharauí: um pouco de história
O povo que vive no território reivindicado pelos Saharauí é muito antigo e habita aquela área desde quando os berberes brancos avançaram pelo norte do Sahara, no século VII, premidos pelas invasões árabes. Assim, eles foram jogados para a parte sul de onde hoje é o Marrocos, quando passaram a viver de forma autónoma. Os berberes são originários do norte da África e formam a gênese do povo do Marrocos. Na verdade, esse termo "berbere", significa "bárbaro" e por isso é repudiado pelos seus descendentes que gostam de ser chamados de "amazigh" (homens livres). Mas, é parte deste povo de "homens livres" que hoje está sendo responsável pela desgraça do povo Saharauí.
O reino do Marrocos foi criado por volta do ano 470 a.C. e sempre esteve com os olhos mais voltados para a Europa que para seu interior. Ocupado pelos árabes no século VII, a região foi porta de entrada dos mouros para a península ibérica, onde reinaram por anos. Bem mais tarde, foi a vez do Império Romano anexar o Marrocos como colónia e foi só no século XI que os berberes reconquistaram seu território. Mas, a briga interna de vários clãs pelo controle do Marrocos o enfraqueceu e deu chance para a invasão de Portugal que, no século XV, no auge da expansão colonial, abocanhou algumas cidades. Foram muitos os anos de lutas para recompor o território. Na metade do século XIX, a Espanha e a França estenderam seus domínios pelo norte da África, ocuparam a área, e o espaço daquelas terras foi dividido. Em 1912 a parte do Marrocos ficou com os franceses, e a Espanha se apropriou da região norte e do Sahara ocidental, onde então viviam os saharauí.
Como em todas as colónias africanas, a ocupação não se deu sem luta. São históricos os massacres de revoltosos em batalhas nas quais Espanha e França se ajudavam contra os povos locais. O advento da segunda guerra mundial abriu caminho para novos movimentos de libertação e seguidos conflitos aconteceram. Em 1956, o Marrocos finalmente conquistou sua independência dos franceses, instituindo uma monarquia, mas a parte que estava nas mãos da Espanha não conseguiu o mesmo feito. Permaneceu colónia e, a exemplo dos marroquinos, as populações continuaram buscando a libertação. Por conta disso, em 1973 foi criada a Frente Popular de Libertação de Saguia-El-Hamra e Rio de Ouro (POLISARIO), que passou a liderar a luta na região ocidental.
Com a independência reconhecida, o Marrocos se organizou e começou a sonhar com novos voos. Ambicionava anexar a parte espanhola da região, sem reconhecer que ali viviam povos autónomos, com cultura própria e igualmente sedentos de liberdade. Nos anos 60 e 70 vieram as vitoriosas lutas de libertação nacional em todo o mundo e, em particular na África, com várias colónias saindo do jugo de Portugal. Essa conjuntura leva a Espanha franquista a aceitar o princípio da autodeterminação nas regiões ocupadas, mas ainda sem se dispor a "largar o osso". Então, no ano de 1975 quando o Marrocos, já livre da França, começa uma investida bélica na região ocidental do Sahara, a Espanha, igualmente ignorando as reivindicações do povo saharauí, assina um acordo entregando a região ao Marrocos e à Mauritânia. Com esta atitude vergonhosa, a Espanha cede ao rei Hassan II as riquezas naturais do Sahara ocidental, e com elas, o povo que ali vivia.
Ainda assim, o povo saharaui não se entregou. Tão logo as tropas espanholas saíram do território, em 27 de  Fevereiro de 1976, a Frente POLISARIO proclamou a República Árabe Saharauí Democrática (RASD). Segundo eles, ali estava um povo real e não seria um invasor que os colocaria na condição de "ninguém". A própria Mauritânia reconheceu esse direito.
Mas, assim que viu garantida a soberania sobre o território até então espanhol, o governo do Marrocos, sem fazer caso da proclamação de independência saharauí, organizou uma grande marcha, conhecida como a "marcha verde" (na verdade um processo de colonização), na qual mais de 350 mil pessoas migraram para a região do Sahara ocidental, tendo a frente uma unidade de infantaria repleta de blindados, numa clara demonstração de força. Como as terras estavam tradicionalmente ocupadas pelo povo saharauí, as tropas marroquinas não hesitaram em iniciar uma campanha brutal de desalojo. Chegaram ao ponto de utilizar bombas de fósforo e napal, causando terríveis sofrimentos aos povos que ali viviam e obrigando-os a uma retirada em massa. Grande parte buscou abrigo na Argélia e outra parte seguiu lutando.
Desde então, múltiplas resoluções das Nações Unidas, da União Africana e um acórdão do Tribunal Internacional de Justiça de Haia reconhecem o direito à autodeterminação do povo saharauí, entendendo que não há registro jurídico nem histórico de vínculo de soberania por parte do Marrocos naquele local.  Mais de 80 países do mundo reconhecem a RASD, mas isso fica só no papel.
A luta do povo saharauí não deu trégua este tempo todo, e no final dos anos 80, com a intermediação da ONU, o governo do Marrocos e a POLISARIO aceitaram um acordo, no qual o Marrocos retiraria suas tropas da região e realizaria um plebiscito com o povo para que este escolhesse entre a independência ou a anexação ao Marrocos. Mas, o certo é que isso nunca se concretizou e o governo marroquino se recusa a aceitar a autodeterminação dos saharauí.
Já são mais de 35 anos de luta, e a Frente Popular de Libertação tem cedido muito mais do que o Marrocos, se dispondo inclusive a depor as armas e libertar prisioneiros, mas não encontra eco no governo marroquino.
A situação hoje
É nesse contexto de intransigência que o Marrocos deu início a construção de um muro, dividindo a região do Sahara ocidental, visando segregar ainda mais as gentes saharauí, impedindo-as de viverem em paz no seu território. Hoje, parte do povo, sem poder ocupar seu território original, vive em terras cedidas pela Argélia, na condição de refugiados, em acampamentos desprovidos de qualquer condição de dignidade.
O muro da vergonha do Sahara Ocidental tem mais de dois mil quilômetros e divide de norte a sul o território. Vigiado por mais de 150 mil soldados marroquinos o percursos ainda apresenta uma infinidade de minas que, vez ou outra, provocam mortes entre os saharauí ou mesmo entre militantes internacionalistas que fazem periódicas marchas e manifestações no muro. Segundo a ONU há um cessar-fogo vigiado por uma missão de cascos-azuis, mas isso não impede que o Marrocos siga acossando a gente saharauí.
O fato é que o regime monárquico, ainda em vigor no Marrocos, se recusa abrir mão das inúmeras riquezas do Sahara ocidental. Entre elas está a magnífica costa Saharauí, que toma parte do Mediterrâneo e parte do Oceano Atlântico. Ali está um dos bancos de pesca mais ricos do mundo, hoje ocupado pelo Marrocos. Também se fala de grandes reservas de petróleo, com algumas áreas já sendo exploradas na parte que está sob o domínio do Marrocos.  Igualmente fazem parte do pano de fundo da disputa de território as abundantes minas de fosfato que estão na parte ocidental do Sahara, portanto, devendo pertencer à República Saharaui, mas que seguem sendo exploradas pelo Marrocos.
Numa visita às páginas da Internet ou ao Youtube qualquer pessoa pode ver as terríveis condições de vida da gente saharauí nos acampamentos em meio ao deserto. É por isso que a Frente de Libertação insiste na busca de solidariedade mundial e no reconhecimento da República Árabe Saharauí Democrática como um Estado independente. As gentes do deserto da áfrica ocidental estão aí, a provar que os muros continuam sendo fortes mecanismos de opressão e segregação por parte daqueles que detém poder militar e político.  Mas o povo saharauí também mostra, a exemplo dos palestinos e dos milhões de imigrantes, fugitivos do capitalismo, que não há canhão capaz de frear a luta por vida digna, por território e por liberdade. Como bem mostra a história, os muros acabam caindo. Sempre!
Viva a luta do povo saharauí!
Elaine Tavares, jornalista- in: ADITAL

segunda-feira, julho 12, 2010

O Santo Graal mais perto: apareceu a Távola Redonda

fonte: JORNAL i
Pode estar a pouco tempo do reconhecimento público: investigadores britânicos especializados na lenda do mais famoso cavaleiro da Grã-Bretanha afirmam ter encontrado a estrutrura que poderá ser a mítica távola redonda, a mesa em torno da qual se reuniam o Rei Artur e os seus cavaleiros.
De acordo com as investigações, à volta da mesa - construída com uma base de madeira e pedra e que juntava os cavaleiros antes de todas as batalhas para receberem orientações do Rei - poderiam estar sentadas mil pessoas. A "mesa" foi encontrada no anfiteatro romano de Chester, em Inglaterra e pode ser apenas um dos elementos da mobília que fazia parte do local das reuniões.
As semelhanças históricas comprovam que o Rei Artur esteve perto deste local, o que leva os investigadores a acreditarem que possa mesmo tratar-se da mesa que juntava os cavaleiros nas reuniões.

terça-feira, abril 27, 2010

Exploradores anunciam descoberta da Arca de Noé

por FILOMENA NAVES, DN Hoje

Exploradores evangélicos identificaram estrutura de madeira com 4800 anos, no monte Ararat
É uma velha estrutura de madeira, com compartimentos interiores dotados de barras, como se fossem jaulas. A sua localização, no monte Ararat, na Turquia (o pico mais alto em toda a região), e a sua idade - 4800 anos, verificados pelo método do carbono 14, um dos mais rigorosos que se conhece -, batem certas com uma extraordinária conclusão: aqueles poderão ser os tão procurados (e até agora nunca encontrados) restos da famosa Arca de Noé. É pelo menos essa a convicção do grupo de exploradores chineses evangélicos que fez o achado.
"Não temos cem por cento de certeza de que se trata da arca [de Noé], mas temos 99,9 por cento", declarou Yeun Wing Cheung, realizador de documentário em Hong Kong e um dos 15 elementos chineses e turcos do grupo Noah's Ark Ministries International, que empreendeu a missão.
O achado foi feito a quatro mil metros de altitude no monte Ararat, na Turquia, que é o ponto mais elevado em toda em região e que, por isso mesmo tem sido apontado por investigadores bíblicos como o local mais provável onde a arca terá tocado a terra firme, após a descida das águas diluvianas.
Os participantes na expedição excluíram a hipótese de a estrutura de madeira ser um indício de uma antiga ocupação humana, já que nunca até hoje se encontraram sinais de povoamento acima dos 3500 metros de altitude naquela zona.
A construção tem um formato em arco e no seu interior os exploradores identificaram vários compartimentos, alguns com barras de madeira, que poderiam ter abrigado animais, segundo explicou Yeun Wing Cheung. A sua datação por carbono 14 estabeleceu que tem 4800 anos, o que é compatível com a época estimada pelos especialistas para a salvadora navegação da arca.
A equipa vai fazer escavações no local, para investigar e fundamentar a sua hipótese, e as autoridades turcas locais já decidiram que vão solicitar à UNESCO a classificação do sítio como património mundial, para garantir a sua preservação durante as escavações, adiantou o realizador chinês e participante na missão.


 

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Tutankamon não era filho de Nefertiti

Análises ao ADN demonstram que o faraó Akenaton era pai de Tutankamon, mas a sua mulher, Nefertiti, não é a mãe de Tutankamon, disse hoje o responsável do Conselho de Antiguidades egípcio.
Zahi Hawass, responsável do Conselho de Antiguidades Egípcias do Museu do Cairo, apresentou à imprensa os resultados das análises genéticas à múmia do jovem rei, morto há mais de 3000 anos, e de outras múmias alegadamente suas familiares, destinadas a clarificar a morte e filiação de Tutankamon.
As análises foram realizadas no Egipto e confirmadas por laboratórios alemães, indicou Hawass. Os resultados do estudo foram publicados na revista científica americana JAMA (Journal of the American Medical Association).
O chefe do Conselho de Antiguidades do Egipto confirmou que os estudos permitiram determinar que o corpo do pai jovem rei era o da múmia encontrada no Vale dos reis que os arqueólogos atribuíam já ao faraó Akenaton (ou Amenohtep IV).
De acordo com Zahi Hawass, o corpo da mãe de Tutankamon está identificado com o código KV35YL, conhecido como a "Jovem Senhora". Os estudos permitem, contudo, eliminar a hipótese, frequentemente avançada, que possa tratar-se de Nefertiti, mulher de Akenaton, acrescentou.
"Não sabemos o seu nome, mas o mais importante é que esta senhora é a filha de Amenohtep III e da rainha Tye", avós de Tutankamon, assegurou, acrescentando não ser possível que se trate de Nefertiti.
A causa de morte de Tutankamon, não totalmente esclarecida até ao momento, terá sido malária aliada a um problema ósseo e a uma " constituição física frágil ", concluiu.
A determinação da causa da morte de Tutankamon resulta de uma investigação que envolveu testes de ADN aos restos mortais da múmia iniciados em Novembro de 2009.
Nascido a 1345 a. C., Tutankamon foi o 11.º rei da XVIII dinastia do Novo Império e a sua múmia foi descoberta em 1922 por um arqueólogo inglês.(fonte: DN, Lisboa)
 

domingo, fevereiro 14, 2010

Egípcios anunciam segredos da realeza

As autoridades do Egipto vão anunciar na quarta-feira a filiação do faraó Tutankhamon, com base na análise de ADN. O responsável pelas antiguidades egípcias, o arqueólogo Zahi Hawass, explicou que os exames científicos da múmia permitiram "revelar segredos" da família real.
Até agora, foi mantido silêncio sobre o achado e os egípcios querem prolongar o suspense . O objectivo é capitalizar no interesse pela egiptologia e transformar o anúncio oficial, previsto para decorrer no Museu Arqueológico do Cairo, num evento mediático.
O drama familiar que pode ter custado a vida ao faraó Tutankhamon ocorreu há mais de 3 mil anos, concretamente em 1333 antes de Cristo, ano da ascensão ao trono, quando o monarca tinha nove anos.
O enigma é discutido há décadas, desde que este obscuro rei conquistou a imaginação do mundo ocidental, devido a um extraordinário acaso: a tumba do faraó, que foi enterrado aos 18 anos no Vale dos Reis, foi descoberta intacta em 1922 pelo britânico Howard Carter, causando enorme sensação na época. Ao lado da múmia, estava um tesouro assombroso.
As causas da morte de Tutankhamon são desconhecidas e, até agora, ignorava-se a sua posição na família real, em que se adensavam perigosas intrigas políticas. Os protectores do faraó eram o sumo sacerdote Ay e o general Horemheb, o seu sucessor. O pai poderia ser Akhenaton, que tentara anos antes uma revolução religiosa fracassada. Quarta-feira deveremos saber mais sobre esta incrível história.
fonte DN

quarta-feira, janeiro 06, 2010

afinal, também somos...árabes - parte I


Há quem se chame Almeida sem saber que o seu verdadeiro nome é "toalha de mesa", que era o que o arábico Al-Maydan queria dizer...
Também há quem seja de Almancil e não saiba que nasceu numa terra que, em arábico, quer dizer "ponto de paragem": Al-Manzil.
Quando vai a Alfama sabemos que estamos num bairro onde, há muitos anos, se falava lajamia - do árabe Al-Ajamia, para a língua corrupta falada pelos mouros da Península, por oposição à algarvia, Al-Arabya, o árabe genuíno?
Quando come uma almôndega, sabe que está a comer uma coisa parecida com outra que os árabes já comiam, e que se chamava Al-Bunduq?
E se o nome científico para hemorróidas vem do grego haimorrhoides, não deixa de ser evidente que o popular "almorreimas" ou "almorróidas" passou pelo menos pela leitura árabe do termo grego!
Os alentejanos que apreciam aquela espécie de sopa que se faz com o soro do requeijão, o almece, comem uma coisa que já vem dos tempos mouriscos chamada Al-Meiz.
Isto tudo e muito mais, claro, ao nível da chamada cultura popular, ao nível da ciência, da filosofia, das viagens, da jurisprudência, da pintura e da musica.
É justo recordar que quando nós andavamos a ver quem tinha a barba mais comprida para ser preferido por Deus, já eles nos devolviam Aristóteles, nos ofereciam a Química, o xadrez, o astrolábio, o telescópio e a verdadeira forma e dimensão do Mundo. 
Já irrigavam a Andaluzia, que tornaram verdejante e armazenavam água no Alentejo...E não será exagerado afirmar que, se não fossem eles, nunca teríamos tido um Renascimento, muito menos a civilização actual.
tem seguimento

terça-feira, dezembro 01, 2009

A causa do nosso feriado de hoje -01 Dezembro 1640



Restauração da Independência de Portugal
A Restauração foi um movimento histórico que levou Portugal à independência no 1 de Dezembro de 1640.
A morte de D. Sebastião (1557-1578) em Alcácer-Quibir, apesar da sucessão do Cardeal D. Henrique I (1578-1580), deu origem a uma crise dinástica. Nas Cortes de Tomar de 1580, Filipe II de Espanha é aclamado rei de Portugal (Filipe I de Portugal).


Filipe I e os seus sucessores, Filipe II e Filipe III, não respeitaram o que tinha ficado combinado nas Cortes de Tomar.
Os impostos aumentavam; a população empobrecia; os burgueses ficavam afectados nos seus interesses comerciais; a nobreza estava preocupada com a perda dos seus postos e rendimentos; o império português era ameaçado por Ingleses e Holandeses e os reis filipinos nada faziam.

Durante sessenta anos Portugal sofreu o domínio filipino. No dia 1 de Dezembro de 1640, os Portugueses restauraram a sua independência e D. João IV foi aclamado rei de Portugal.
 Assim se iniciou a 4.ª Dinastia.



domingo, novembro 29, 2009

o mundo hoje



Solidariedade com o Povo Palestiniano





As bombas deixaram de cair na Faixa de Gaza mas a actual situação de cessar-fogo é frágil. As declarações e discursos políticos de Israel não dão qualquer garantia de que novos massacres não voltem a acontecer. O espectro da reocupação de Gaza permanece actual, o criminoso bloqueio ao território mantém-se, tal como permanece a ocupação da Palestina, a construção dos colonatos, o muro de separação e o autêntico genocídio do povo palestiniano.


As bombas deixaram de cair mas a Paz não chegou ao Médio Oriente. Essa só terá lugar com o reconhecimento dos direitos nacionais do povo palestiniano, com o estabelecimento do Estado da Palestina nas fronteiras anteriores à guerra de ocupação de 1967, com capital em Jerusalém Leste. A luta continua por uma Palestina livre e independente!


Pelo Fim dos massacres do Povo Palestiniano
Pela investigação e processamento dos responsáveis israelitas pelos crimes de guerra e contra a Humanidade
Pelo Fim ao Bloqueio a Gaza – Pelo Fim à Ocupação da Palestina
Por uma Paz Justa e duradoura no Médio Oriente

fonte:Plataforma Portuguesa das Organizações não Governamentais para o Desenvolvimento


quinta-feira, outubro 22, 2009

...em nome de ideais e liberdade....

Quem era, afinal, esse homem que três vezes nos invadiu sem cá ter posto os pés? E o que era, para ele, Portugal? Napoleão Bonaparte, jovem pouco promissor de uma família da pequena aristocracia, fascinou, espezinhou, dominou. Em nome de ideais que, como tantas vezes sucede, são em boa parte o pretexto para materializar ambições de grandeza. Numa vida balizada por ilhas, da Córsega onde nasceu à recôndita Santa Helena onde foi escondido até à morte, foi no velho continente europeu que o génio militar dele fez imperador.
Começando pela segunda das perguntas atrás formuladas, podemos dizer que Portugal, para Napoleão, mais não era do que um despojo de guerra a partilhar, no esquema de vassalidades imperiais em que queria redesenhar a Europa, além de ser uma porta que importava fechar ao inimigo inglês. Como conceito, Portugal era nada, e mesmo o império luso era inatingível, porquanto a tricolor pouco valia no mar.
Já a outra questão – quem era esse homem? – reveste-se da complexidade evidente que impede resposta adequada em tão pouco espaço. Era um génio militar, não duvidemos, mas não pelo que tenha inovado, antes pela agilidade estratégica que revelava no campo de batalha. Pelo pragmatismo, pela rapidez de acção, pela capacidade de surpreender. Construiu uma máquina de guerra total e, mesmo quando quereria a paz, teve de centrar no combate militar toda a sua política e todo o seu reinado: o reinado de um imperador republicano, isto é, um enorme paradoxo.
Essa dualidade desconcertante pode, na forma resumida a que aqui nos obrigamos, ser facilmente descrita: sob a mesma pele vivia um homem que, em simultâneo, queria tornar universais os valores saídos da Revolução Francesa (na realidade, um processo mais longo, que durou até meados de oitocentos) e ser senhor do mundo.
Estudante mediano ou até medíocre – não faltam na História exemplos de grandeza, boa ou má, saída da pequenez -, Bonaparte foi, diz-se, um jovem excluído, menosprezado pelos colegas, fosse pela baixa estatura, pelo sotaque tosco e pelos pontapés na gramática, pelo temperamento egoísta e ensimesmado. Mas foi nesses mesmos tempos de exclusão que – passe a dedução quiçá abusiva – preparou a vingança, bebendo-a dos clássicos. Cícero ou Tito Lívio desenvolveram nele o fascínio pela grandeza imperial, mas foi sobretudo Plutarco, com as “Vidas de homens ilustres”, quem nele fez germinar ao longo da vida o ideal em que se reconstruiu.
Alexandre Magno foi a maior de todas as referências de Bonaparte, até pelo forma como este imitou aquele ao preparar a campanha do Egipto, fazendo acompanhar os exércitos de sábios e da instrumentação científica da época. Falhou, porém, a conquista do Mundo e cingiu-se ao domínio da Europa (nas palavras de Patrick Rambaud, “quis ser Alexandre, mas contentou-se em ser Carlos Magno”).
Governou ambiguamente. Enquanto usava mão de ferro para suster os desmandos da Revolução, transpunha para os códigos legislativos os ideais revolucionários. Com base na vontade popular (aprovação por plebiscito), construiu um poder de natureza monárquica. Partindo da liberdade, buscou a submissão dos restantes. Perdeu-se, pois, na ambição da hegemonia francesa, obtida através de conquistas ou assegurando a submissão dos restantes. Como os imperadores e reis medievos, quis repartir a Europa por vassalos (assim foi, por exemplo, com a colocação do irmão José Bonaparte no trono de Espanha; assim seria em Portugal, se os termos de Fontainbleu tivessem sido aplicados). Só os ingleses tinham capacidade de conter essa ambição. Contiveram-na.
Jornal de Notícias, 11 de Dezembro de 2007

segunda-feira, setembro 07, 2009

A Capela dos Ossos - Évora, Portugal

Era um antigo dormitório dos frades franciscanos, no Convento de S. Francisco de Évora. No século XVII foi readaptado e tornou-se na Capela dos Ossos. Actualmente é uma atracção turística, com mais de 140 mil visitantes por ano. De facto, ninguém fica indiferente ao este monumento franciscano. Foi construído com ossadas humanas encontradas nas igrejas da cidade de Évora. Na capela há 5 mil crânios. Enquanto local de culto religioso a capela serviu para a meditação sobre a vida e a morte. Hoje, já não é um local de culto, mas ninguém sai indiferente deste espaço único. Por isso, logo à entrada os visitantes são recebidos com a mensagem: "nós que aqui estamos pelos vossos esperamos..." No tempo em que este espaço foi criado havia um certo gosto pelo macabro e pela necrofilia. Hoje apenas uma minoria alimenta este tipo de culto. O que está a dar é a celebração constante da eterna juventude e da longa vida.

in: net

domingo, julho 26, 2009

Torre de S. Vicente de Belém - Lisboa


A Torre de Belém foi construída em homenagem ao santo patrono de Lisboa, S. Vicente, no local onde se encontrava ancorada a Grande Nau, que cruzava fogo com a fortaleza de S. Sebastião.

O novo baluarte perpetuou assim, e em pedra, essa estrutura de madeira. O arquitecto da obra foi Francisco de Arruda, que iniciou a construção em 1514 e a finalizou em 1520, ao que tudo indica sob a orientação de Boitaca. Como símbolo de prestígio real, a decoração ostenta a iconologia própria do Manuelino, conjugada com elementos naturalistas.

Ao longo dos tempos foram efectuadas algumas intervenções que finalizaram com os restauros oitocentistas nas ameadas, no varandim do baluarte, no nicho da Virgem virada para o rio, e no próprio claustrim onde assenta.

Funcionalmente a Torre de Belém revela o ecletismo que caracteriza as obras em que D. Manuel interveio pessoalmente e lhe estavam mais próximas. Assim, a função militar está reservada ao baluarte propriamente dito, que avança sobre as águas do rio em três pisos (andar subterrâneo, nave do baluarte e terraço). Os registos da torre são reservados a outras funções, como as de carácter administrativo (sala do Governador e Sala das Audiências), palatino (Sala dos Reis) e mesmo cultual (capela no último piso).

Texto: Sílvia Leite / IPPAR

sexta-feira, julho 24, 2009

Heróis Medievais - O Alcaide-mor de Faria, Nuno Gonçalves



A breve distância da vila de Barcelos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longe um convento de franciscanos. Aprazível é o sítio, sombreado de velhas árvores. Sentem-se ali o murmurar das águas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o silêncio daquela solidão — a qual, para nos servirmos de uma expressão de Frei Bernardo de Brito — com a saudade de seus horizontes parece encaminhar e chamar o espírito à contemplação das coisas celestes.
O monte que se alevanta ao pé do humilde convento é formoso, mas áspero e severo, como quase todos os montes do Minho. Da sua coroa descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra. O espectador colocado no cimo daquela eminência volta-se para um e outro lado, e as povoações e os rios, os prados e as fragas, os soutos e os pinhais apresentam-lhe o panorama variadíssimo que se descobre de qualquer ponto elevado da província de Entre-Douro e Minho.
Este monte, ora ermo, silencioso, e esquecido, já se viu regado de sangue; já sobre ele se ouvira
m gritos de combatentes, ânsias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas e estrondo de máquinas de guerra. Claros sinais de que aí viveram homens, porque é com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os sítios que escolheram para habitar na terra.
O Castelo de Faria, com suas torres e ameias, com sua barbacã e fosso, com seus postigos e alçapões ferrados, campeou aí como dominador dos vales vizinhos. Castelo real da Idade Média, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que já lá vão há muito. Mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de mármore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alcácer das eras dos reis de Leão desmoronou-se e caiu.
Ainda no século XVII parte da sua ossada estava dispersa por aquelas encostas. No século seguinte já nenhuns vestígios dele restavam, segundo o testemunho de um historiador nosso. Um eremitério, fundado pelo célebre Egas Moniz, era o único eco do passado que aí restava. Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro duque de Braga
nça, dom Afonso. Era esta lájea a mesa em que costumava comer Salat-ibn-Salat, último senhor de Ceuta. Dom Afonso, que seguira seu pai dom João I na conquista daquela cidade, trouxe esta pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a consigo para a vila de Barcelos, cujo conde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa pedra em ara do cristianismo. Se ainda existe, quem sabe qual será o seu futuro destino?
Serviram os fragmentos do Castelo de Faria para se construir o convento edificado ao sopé do monte. Assim se converteram em dormitórios as salas de armas, as ameias das torres em bordas
de sepulturas, os umbrais das balhesteiras e postigos em janelas claustrais. O ruído dos combates calou no alto do monte, e nas faldas dele alevantaram-se a harmonia dos salmos e o sussurro das orações.
Este antigo castelo tinha recordações de glória. Os nossos maiores, porém, curavam mais de praticar façanhas do que de conservar os monumentos delas. Deixaram, por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um dos mais heróicos feitos de corações portugueses.
Reinava entre nós dom Fernando. Este príncipe, que tanto degenerava de seus antepassados em valor e
prudência, fora obrigado a fazer paz com os castelhanos, depois de uma guerra infeliz, intentada sem justificados motivos, e em que se esgotaram inteiramente os tesouros do Estado. A condição principal, com que se pôs termo a esta luta desastrosa, foi que dom Fernando casasse com a filha d’el-Rei de Castela. Mas brevemente a guerra se acendeu de novo; porque dom Fernando, namorado de dona Leonor Teles, sem lhe importar o contrato de que dependia o repouso dos seus vassalos, a recebeu por mulher, com afronta da princesa castelhana. Resolveu-se o pai a tomar vingança da injúria, ao que o aconselhavam ainda outros motivos. Entrou em Portugal com um exército e, recusando dom Fernando aceitar-lhe batalha, veio sobre Lisboa e cercou-a. Não sendo o nosso propósito narrar os sucessos deste sítio, volveremos o fio do discurso para o que sucedeu no Minho.
O adiantado de Galiza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela província de Entre-Douro e Minho co
m um grosso corpo de gente de pé e de cavalo, enquanto a maior parte do pequeno exército português trabalhava inutilmente ou por defender ou por descercar Lisboa. Prendendo, matando e saqueando, veio o adiantado até às imediações de Barcelos, sem achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porém, saiu-lhe ao encontro dom Henrique Manuel, conde de Seia e tio d’el Rei dom Fernando, com a gente que pôde ajuntar. Foi terrível o conflito; mas, por fim, foram desbaratados os portugueses, caindo alguns nas mãos dos adversários.
Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mor do Castelo de Faria, Nuno Gonçalves. Saíra este com alguns soldados para socorrer o conde de Seia, vindo, assim, a ser companheiro na comum desgraça. Cativo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castelo d’el-Rei seu senhor das mãos dos inimigos. Governava-o em sua ausência um seu filho, e era de crer que, vendo o pai em ferros, de bom grado desse a fortaleza para o libertar, muito mais quando os meios de defesa escasseavam. Estas considerações sugeriram um ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao adiantado que o mandasse conduzir ao pé dos muros do castelo, porque ele, com suas exortações, faria com que o filho o entregasse, sem derramamento de sangue.
Um troço de besteiros e de homens de armas subia a encosta do monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonçalves. O adiantado de Galiza seguia atrás com o grosso d
a hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por João Rodriguez de Viedma, estendia-se, rodeando os muros pelo outro lado. O exército vitorioso ia tomar posse do Castelo de Faria, que lhe prometera dar nas mãos o seu cativo alcaide.
De roda da barbacã alvejavam as casinhas da pequena povoação de Faria, mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas ao vento, e viram o refulgir cintilante das armas inimigas, abandonando os seus la
res, foram acolher-se no terreiro que se estendia entre os muros negros do castelo e a cerca exterior ou barbacã.
Nas torres, os atalaias vigiavam atentamente a campanha, e os almocadéns corriam com a rolda pelas quadrelas do muro e subiam aos cubelos colocados nos ângulos das muralhas. O terreiro onde se haviam acolhido os habitantes da povoação estava coberto de choupanas colmadas, nas quais se abrigava a turba dos velhos, das mulheres e das crianças, que ali se julgava
m seguros da violência de inimigos desapiedados.
Quando o troço dos homens de armas que levavam preso Nuno Gonçalves vinha já a pouca distância da barbacã, os besteiros que coroavam as ameias encurvaram as bestas, os homens dos engenhos prepararam-se para arrojar sobre os contrários as suas quadrelas e virotões, enquanto o clamor e o choro se alevantavam no terreiro, onde o povo inerme estava apinhado.
Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a
barbacã, todas as bestas se inclinaram para o chão, e o ranger das máquinas converteu-se num silêncio profundo.
— Moço alcaide, moço alcaide! — bradou o arauto — teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, adiantado de Galiza pelo mui excelente e temido dom Henrique de Castela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo.
Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro, e chegando à barbacã, disse ao arauto:
— A Virgem proteja meu pai. Dizei-lhe que eu o espero.
O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e depois de breve demora o tropel aproximou-se da barbacã. Chegados ao pé dela, o velho guerreiro saiu dentre seus guardadores e falou com o filho:
— Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castelo que, segundo regimento de guerra, entreguei à tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforçado conde de Seia?
— É — respondeu Gonçalo Nunes — de nosso rei e senhor dom Fernando de Portugal, a quem por ele fizest
e preito e menagem.
— Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele?
— Sei, ó meu pai! — prosseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar.
— Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistência?
Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então:
— Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do Castelo de Faria! Maldito por mim, sepulta
do sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo, sem tropeçarem no teu cadáver.
— Morra! — gritou o almocadén castelhano.
— Morra o que nos atraiçoou.
E Nuno Gonçalves caiu no chão, atravessado de muitas espadas e lanças.
— Defende-te, alcaide! — foram as últimas palavras que ele murmurou.
Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.
Os castelh
anos acometeram o castelo; no primeiro dia de combate o terreiro da barbacã ficou alastrado de cadáveres tisnados e de colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chuça um colmeiro incendiado para dentro da cerva; o vento suão soprava nesse dia com violência, e em breve os habitantes da povoação, que haviam buscado o amparo do castelo, pereceram juntamente com as suas frágeis moradas.
Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldição de seu pai. Lembrava-se de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos os momentos o último grito do bom Nuno Gonçalves: "Defende-te, alcaide!"
O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do Castelo de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exército castelhano foi constrangido a levantar o cerco.
Gonçalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso procedimento e pelas façanhas que obrara na defesa da fortaleza cuja guarda lhe fora encomendada por seu pai no último transe da vida. Mas a lembrança do horrível sucesso estava sempre presente no espírito do moço alcaide. Pedindo a el-Rei o desonerasse do cargo que tão bem desempanhara, foi depor ao pé dos altares a cervilheira e o saio de cavaleiro, para se cobrir com as
vestes pacíficas do sacerdócio. Ministro do santuário, era com lágrimas e preces que ele podia pagar a seu pai o ter coberto de perpétua glória o nome dos alcaides de Faria.
Mas e
sta glória, não há hoje aí uma única pedra que a ateste. As relações dos historiadores foram mais duradouras que o mármore.

(Alexandre Herculano, "Lendas e Narrativas")