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quinta-feira, novembro 17, 2011


Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno sacrifício
De trinta contos só! por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.

José Régio

quarta-feira, novembro 16, 2011

O nome parece a infância


O nome parece a infância.
Quando na velhice é termos vindo
Sem pressa

Para dentro
Do nome se esvazia o corpo quando o corpo cai
É um fruto.

O nome é ainda
O modo como chamas.

O nome é a arma contra mim. O maior perigo.
Com os teus lábios podes destruir-me.



Daniel Faria

domingo, novembro 13, 2011

Assassinando a saudade

Há quanto tempo, amor
não te sentas no sofá
diante do ecrã
para deliciar
os versos meus
que com todo
o carinho
concebi
só para te amar
há quanto tempo, amor
não me espreitas
navegando aqui
contigo
por ti e para ti...
Ah!
Há quem defenda
um desaparecimento
momentâneo
para criar
saudade
e quando esse
instante passa
há um prazer
enorme
em assassinar
a saudade...
Não sei se acredito
nisso,
mas cá estou
assassinando
lentamente
a saudade.

Domi Chirongo

in:Moçambicanto

segunda-feira, outubro 31, 2011

EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo o que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreenderam, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?




Carlos Drummond de Andrade
(de Brejo das Almas, 1934)

quarta-feira, outubro 26, 2011

soneto

Olha o espelho: a minha boca arde.
Trago o corpo à beira de todos os perigos.
Já não ouço os passos, já não tenho amigos.
Meu coração parou mesmo ao cair da tarde.

Faço com as mãos o tamanho do medo.

Pago bilhete. Dão-me um lugar sentado.
Mas quero ir para qualquer lado
embora me digam que ainda seja cedo.

A alma suja deixo-a como está.

Limpo-me apenas por baixo dos sovacos
e não visto afinal nenhum dos casacos

exactamente porque talvez não vá

para nenhuma parte e sem nenhum sentido,
como um cão já farto de andar perdido.

António Aragão

(Do livro 30 Sonetos, in O escritor N.º 4, Associação Portuguesa de Escritores, Dezembro de 1994)

sábado, outubro 15, 2011

Transparência


Morrer é só não ser visto,
é sair de ao pé de ti,
apagar-me em tudo isto,
deixar de ver o que vi.

Morrer é não estar em ti,
e mais do que não te ver,
é não ser visto por ti,
no deserto do não ser.

Morrer é como apagar-se
a chama que houve em nós,
é uma espécie de ficar-se
vazio da própria voz.

Vive o amor da atenção
que se tem por quem se ama.
Mas a morte atiça em vão
o fio que não dá chama.

Morrer é só não ser visto,
é passar a pertencer
a um livro de registo
que guarda o nosso não-ser.

Eugénio Lisboa

sexta-feira, outubro 14, 2011

Ode à Paz


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
                               deixa passar a Vida!

Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"

terça-feira, outubro 11, 2011

Outonos

Outonos de folhas fáceis,
           
                           Caídas, inertes,

Pintadas de cobres e ouros baços

(espalhadas na morte do chão)

                           em que verdes se esbatem,

                           criando ilusão.



Também tu tens outono,

                            Calado e sem dono,

                              No teu coração.

Maria Teresa Góis

segunda-feira, outubro 03, 2011

VIII

quando a terra adormece
ouve-se o canto nómada dos pássaros
no silêncio da primavera onde te abracei,
nos umbrais deste poema que não escrevo.
é urgente calar as palavras embalsamadas
apagar o rasto da sua força.
estou cansado de paisagens mentirosas
dos poemas que inquietam o meu silêncio.
mas continuo a escrever
até à ressurreição do tempo,
até à noite caiada de gritos
e de violinos gemendo
invadirem as horas que intimidam
e se esgotam a conta-gotas.
gostar de ti é um poema que não nego
PAULO EDUARDO CAMPOS, in A CASA DOS ARCHOTES (Lua de Marfim, 2011)

domingo, setembro 25, 2011

Pedra Imortal

As pedras
romperam
o silêncio.

Radioactivo
o movimento
radioactiva-se
de amor.

Hoje
o pó
espargiu-se em ternuras.

Somos alma.


Calane da Silva

sábado, setembro 17, 2011

Quadras - António Aleixo

Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando, a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar. 

Porque o mundo me empurrou,
caí na lama, e então
tomei-lhe a cor, mas não sou
a lama que muitos são.  

Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia. 

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério. 

Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço. 

Eu não sei porque razão  
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.  




Uma mosca sem valor  
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

Gosto do preto no branco,   
como costumam dizer:
antes perder por ser franco
     que ganhar por não ser.

quarta-feira, setembro 14, 2011

de novo meu veleiro...


De novo o meu veleiro sobre os mares.
Lá vai galgando as ondas, à procura,
não de oiro ou de rubis mas de aventura,
deixando para trás a Ilha e palmares.

Ao sabor da fortuna e mil azares,
a vida no veleiro é amarga e dura,
mas eu não quero glória nem ventura
e nem sequer a paz dos deuses lares.

Quero aportar a um novo Continente,
com outras ambições, com outra gente,
ao raiar no horizonte a nova aurora.

Avante, pois! Desdobra as tuas velas
como asas no meio das procelas,
e vamos, meu veleiro, vida em fora!


Fernanda de Castro

sábado, setembro 10, 2011

sorrisos mutilados


No meu país
a (in)competência doentia
mutila-nos o sorriso
e nós teimosamente
arranjamos muletas e sorrimos
deitados à sombra da esperança
esculpida pela nossa paciência
Coragem, gente pois galopa celere o instante
em que sorriremos sem muletas!
Carlos Zimba

terça-feira, setembro 06, 2011

POEMA QUE ACONTECEU


Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.







CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

domingo, setembro 04, 2011

Que cosa es amor

Es amor fuerça tan fuerte
que fuerça toda razón;
una fuerça de tal suerte,
que todo seso convierte
en su fuerça y afición;
una porfía forçosa
que no se puede vencer,
cuya fuerça porfiosa
hacemos más poderosa
queriéndonos defender.

Es un modo de locura
con las mudanças que hace:
una vez pone tristura,
otra vez causa holgura,
como lo quiere y le place;
un deseo que al ausente
trabaja, pena y fatiga;
un recelo que al presente
hace callar lo que siente,
temiendo pena que diga.
Todas estas propiedades
tiene el verdadero amor;
el falso, mil falsedades,
mil mentiras, mil maldades
como fengido traidor;
el toque para tocar
cuál amor es bien forjado,
es sofrir el desamar,
que no puede comportar
el falso sobredorado.

Jorge Manrique

terça-feira, agosto 30, 2011

AGOSTO


Hei-de integrar-me nestas horas cálidas,
neste persuasivo agosto, no passar de seus dias
enquanto decorre o ano e eu decorro,
de almanaque na mão e na minha pele sempre
- e eu, rebelde -, a consumir-me em vão
antes de descobrir que o verão me agosta
e que hei-de deixar esta umbria que começo a sentir erma.




MARÍA VICTORIA ATENCIA


(tradução de José Bento, in Antologia Poética, Assírio & Alvim, 2000 - documenta poetica / original de Las contemplaciones, 1997)

sexta-feira, agosto 26, 2011

quando ela passa


Quando eu me sento à janela
P'los vidros que a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa... passa... passa...

N'esta escuridão tristonha
Duma travessa sombria
Quando aparece risonha
Brilha mais que a luz do dia.

Quando está noite ceifada
E contemplo imagem sua
Que rompe a treva fechada
Como um reflexo da lua,

Penso ver o seu semblante
Com funda melancolia
Que o lábio embriagante
Não conheceu a alegria

E vejo curvado à dor
Todo o seu primeiro encanto
Comunica-mo o palor¹
As faces, aos olhos pranto.

Todos os dias passava
Por aquela estreita rua
E o palor que m'aterrava
Cada vez mais s'acentua

Um dia já não passou
O outro também já não
A sua ausência cavou
Ferida no meu coração

Na manhã do outro dia
Com o olhar amortecido
Fúnebre cortejo via
E o coração dolorido

Lançou-me em pesar profundo
Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser n'este mundo
E mais um anjo no céu.

Depois o carro funério
Esse carro d'amargura
Entrou lá no cemitério
Eis ali a sepultura:

Epitáfio.

Cristãos! Aqui jaz no pó da sepultura
Uma jovem filha da melancolia
O seu viver foi repleto d'amargura
Seu rir foi pranto, dor sua alegria.

Quando eu me sento à janela
P'los vidros que a neve embaça
Julgo ver a doce imagem dela
Que já não passa... não passa...²
 
Fernando Pessoa

NOTA- POEMA ESCRITO EM 1902 QUANDO FERNANDO PESSOA TINHA 14 ANOS

quarta-feira, agosto 24, 2011

EVERNESS


Só uma coisa não há: e esta é o olvido.
Deus, que salva o metal, e salva a escória,
cifra em Sua profética memória
as luas que serão e as que têm sido.
Já tudo fica. A seqüência infinita
de imagens que entre a aurora e o fim do dia
teu rosto nos espelhos deposita
e essas que irá deixando todavia.
E tudo é só uma parte do diverso
cristal desta memória: o universo.
Não têm fim os seus árduos corredores,
e se fecham as portas ao passares;
e só quando na noite penetrares,
do Arquétipo verás os esplendores.


Jorge Luís Borges



O escritor nasceu a 24 de Agosto de 1899 em Buenos Aires, Argentina, e morreu em Genebra, Suíça, a 14 de Junho de 1986.

O LUTADOR


Buscou no amor o bálsamo da vida,
Não encontrou senão veneno e morte.
Levantou no deserto a roca-forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!

Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o mostro de desmedido porte
- A ululante Quimera espavorida!

Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado.

E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!


30 de Setembro – 1.º de Outubro de 1945.
Manuel Bandeira

quinta-feira, agosto 18, 2011

Não posso dizer adeus

(Ao poeta Armando Artur)
Todas as manhãs invento um novo motivo
para permanecer, enquanto lá fora
cruéis as aves me ensinam a partir.
Não posso dizer adeus. Aqui as noites
são menos gélidas, e as madrugadas, cálidas
embalam o meu medo de me aventurar.

Não posso dizer adeus. Nunca ninguém
me ensinou o seu real sentido, mas se este
é realmente o teu desejo, eu irei, sem no entanto,
provar a dor da despida, pois não posso dizer adeus.
O olhar, volvendo compungido, atrás,
meu porto de partida e chegada jaz, fulmina-se
também o calor da primeira habitação.

Em meu peito, tudo está gasto, menos o silencio.
Enfio a mão na algibeira do casaco, e já não
encontro tudo aquilo que outrora tínhamos
um para o outro.

Eusébio Sanjane