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terça-feira, abril 06, 2010

as alegres visitas "pascais"

             É bom ter Amigos, é óptimo revê-los, privar com eles, pondo em dia a bilhardice que a lonjura não permite.
Ontem foram três inesperados "anjinhos barbudos" que muito alegraram o cansaço de um fim de tarde.
Hoje, a minha comadre Gilda Loja,a primeira amizade que fiz quando aportei à Madeira, em 1971. 
Pedro, o mais velho dos filhos era um miúdo gadelhudo, bochechudo e risonho; um falastrão, o que ainda hoje (felizmente) conserva.

E já que em Dezembro não foi possível trazer a filha Pipa, não deixou de hoje, véspera do seu regresso a Lisboa, minha cidade, de vir dar aquele abraço tão especial. Autêntica Aleluia, estas visitas pascais tão especiais.
Oxalá a semana siga assim.

Vídeo mostra ataque americano matando inocentes no Iraque


Um vídeo que está a circular na Internet mostra um ataque norte-americano contra civis em Bagdad, há três anos, em que morreram 11 pessoas incluindo um jornalista da Reuters e o motorista que o acompanhava.

As imagens, disponíveis no "site" Wikileaks.org - especializado na divulgação de conteúdos sensíveis - são acompanhadas pelo áudio das conversas entre os pilotos do helicóptero norte-americano e o controlo em terra, em que os primeiros pedem autorização para disparar contra homens, identificados como rebeldes, que circulam numa rua em Bagdad.

O Wikileaks não esclarece como obteve estas imagens captadas em Julho de 2007.

Nelas se pode ver o referido grupo de homens, alguns dos quais parecem estar armados, e entre os quais estavam dois que trabalhavam para a agência Reuters: Namir Noor-Eldeen e Saeed Chmagh.

Os pilotos do Apache, que parecem ter confundido a máquina fotográfica do jornalista da Reuters com um lança granadas RPG, afirmam ter na mira "cinco ou seis homens armados com AK-47" e pedem autorização para disparar, que lhes é concedida quase instantaneamente.

Depois dos disparos, um dos pilotos admite que ficou "um monte de cadáveres" no local.

Pouco depois, uma camioneta para recuperar os mortos e os feridos e é também alvejada pelas forças norte-americanas.

Duas crianças que seguiam na camioneta ficam feridas e são posteriormente levadas para o hospital por soldados norte-americanos que chegam ao local.

Um responsável do exército dos Estados Unidos comentou na segunda feira à AFP que a divulgação deste vídeo "não traz novas informações, apenas imagens".

" Reconhecemos, desde 2007, tudo o que está no vídeo", disse o militar que pediu para não ser identificado. "Reconhecemos o ataque e que foram mortos dois homens que trabalhavam para a Reuters", declarou.

"Sabemos que duas crianças ficaram feridas, mas o lança granadas RPG é verdadeiro. Havia rebeldes e repórteres numa zona em que as forças norte-americanas iam sofrer uma emboscada", adiantou.

"Naquele momento, não podíamos discernir se (os funcionários da Reuters) levavam câmaras ou armas", insistiu.
Em comunicado, o director da Reuters David Schlesinger afirmou que a morte dos dois trabalhadores da agência "foi trágica e emblemática dos perigos extremos ligados à cobertura em zonas de guerra".
"O vídeo hoje divulgado via Wikileaks é a prova dos perigos associados ao jornalismo de guerra e das tragédias que podem acontecer", acrescentou.
Depois da divulgação do vídeo, a responsável nos Estados Unidos da organização Repórteres sem Fronteiras pediu ao Pentágono para dar provas de maior transparência e à administração Obama para mostrar "respeito pela justiça".
fonte:DN, Lisboa
NOTA DA REDACÇÃO - A saga das armas de destruição maciça mesmo em 2010 ainda não acabou. Até quando?

Mundial Futebol - hino para apoiar selecção portuguesa....LOL

Bento XVI ignora abusos e defende papel dos padres

fonte DN,Lisboa

Vítimas de abusos por parte do clero vão receber indemnizações também na Áustria.
O Papa Bento XVI voltou a ignorar os escândalos de pedofilia na oração Regina Caeli, proferida ontem perante centenas de fiéis na sua residência de Castel Gandolfo, dizendo apenas que os padres devem ser "os mensageiros da vitória sobre o mal". Na Áustria, a Igreja Católica anunciou que indemnizará as vítimas de abusos sexuais, tal como ocorreu nos EUA e na Irlanda, abrindo caminho para que o mesmo aconteça noutros países.(...)
"Como todos os baptizados, recebemos como missão ser anjos, mensageiros de Cristo" mas "os padres, ministros de Cristo, têm uma missão especial", afirmou Bento XVI, acrescentando que estes têm de ser "mensageiros da vitória sobre o mal e sobre a morte". O Papa insistiu assim na importância do papel dos padres, num momento em que a Igreja é atingida pelos escândalos de pedofilia.
Recorde-se que nos EUA, o primeiro país afectado por estes escândalos, a situação só melhorou depois de a conferência episcopal ter posto em prática uma política de tolerância zero, começando a investigar o passado dos padres e a apostar na prevenção. Apesar de tudo, dizem os observadores, a igreja optou por pagar indemnizações em vez de denunciar. O escândalo nos EUA já custou três mil milhões de dólares, mas há poucos culpados nas prisões.
Agora, os responsáveis austríacos admitem também pagar indemnizações às vítimas de abusos, não revelando números. Sabe-se que, só em 2010, foram denunciados 566 casos na Áustria. "É claro que haverá dinheiro. Como indemnização e para terapias", assegurou o presidente da Comissão Independente criada pela Igreja, Waltraud Klasnic.(...)"


Nota da Redacção - Definitivamente o Papa, o seu "fiel" colégio de bispos um pouco por todo o Mundo, continuam a não encarar o problema de frente, omitindo e protegendo criminosos. Seja uma dezena, um centena, um milhar, mas são mais pelo que se vê, são "tarados" mal resolvidos no seu papel de "ANJO" em que agora foram empossados, que marcam pela negativa a vida de inocentes. 
Como resolução, aposta o Vaticano em "pagar" às vítimas a dignidade roubada, o pavor da infância ou adolescência. 
E, como foi revelado em Dezembro se o Vaticano está teso, no sentido das suas finanças pois claro, caberá aos católicos do mundo quotizar as suas esmolas para pagar as indemnizações da pedofilia...É caso para pensar!
Ah, passarei a olhar atentamente os costados dos padres que conheço; se alguma protuberância sobressair já sei, não é verruga, não é quisto...são asas!

provérbios meteo - Abril


Abril, águas mil.
Abril, águas mil coadas por um funil.
Abril, águas mil coadas por um mandil; em Maio, três ou quatro.
Abril águas mil,coadas por um mandril.
Abril, águas mil e em Maio, três ou quatro.
Abril, águas mil coadas peneiradinhas por um mandil.
Abril, águas mil,cabem todas num barril.
Abril molhado, sete vezes trovejado.
Abril, ora chora ora ri.
Abril, tempo de cuco, de manhã molhado e à tarde enxuto.
Água de Abril é a água do cuco, molha quando está enxuto.
Água de Abril, peneirada por um mandil.
Ao princípio e ao fim, Abril costuma ser assim.
Ao princípio e ao fim, Abril costuma ser ruim.
É próprio do mês de Abril as águas serem às mil.
Em Abril, águas mil.
Em Abril, águas mil, canta o carro e o carril.
Em Abril, águas mil, coadas por um funil.
Em Abril, águas mil coadas por um mandil.
Em Abril, águas mil e em Maio, três ou quatro
É próprio do mês de Abril, as águas serem mil.
Não há mês mais irritado que Abril zangado.
No princípio ou no fim, Abril é ruim.
No princípio ou no fim de Abril é sempre ruim.
No princípio ou no fim, Abril é sempre ruim.
No princípio ou no fim costuma Abril é sempre ruim.
Sol de Abril, abre a mão, deixa-o ir.
Sol de Abril, quem no vir, abra a mão e deixe-o ir.

fonte:www.meteoqueluz

Darius: o maior coelho do Mundo

O maior coelho do Mundo não come chocolates, mas vai além das cenouras. Chama-se Darius, pesa quase 13 quilos e mede um metro.
É grande, fofo, tem orelhas grandes e um aspecto balofo como
qualquer coelho. O que o distingue dos irmãos e primos láparos é o simples facto de ser considerado o maior coelho do Mundo: Darius vive em Inglaterra e pesa duas "stones", o equivalente a 13,7 quilos, e mede 109 centímetros, da ponta do nariz à cauda.
Em época pascal, propícia a confusões entre coelhos e ovos de chocolate, pode pensar-se que há algo de errado na dieta alimentar de Darius. Dito pela dona, Annette Edwards, de 59 anos, é garantido que o coelho faz uma dieta estritamente vegetariana, como é comum e normal entre os coelhos, mesmo os que fogem à normalidade.
"Comi uma cenoura/Com casca e tudo/Ai que ela era tão grande/Que eu fiquei barrigudo". A musiquinha faz parte do reportório de qualquer criança em idade pré-escolar e entra nos pesadelos de muitos pais, mas imagine-se o que seria transformá-la numa ode a Darius, que come 12 cenouras por dia.
Acrescente-se o resto da dieta e a música era outra: três maçãs, uma couve e duas taças de ração para coelhos completam a alimentação habitual de Darius.
"Dou saltos pra frente/Dou saltos pra trás/Eu sou um coelhinho/Que de tudo sou capaz". Aos 13 meses, e com pelo menos mais seis para continuar a crescer, Darius é bem capaz de ficar para a história como o maior coelho de sempre.
Para já, a história diz que é o maior coelho de que há memória. E quando a dona, que é conhecida como uma especialista em criar coelhos gigantes, diz que Darius "é o maior" que já criou está quase tudo dito.
Falta dizer que Darius tem "pedigree". É filho de Alice, mãe gigante agora destronada pelo filho, e neto de Amy, outra coelha de tirar o fôlego.
O crescimento rápido de Darius significa boas notícias para Annette Edwards e más notícias para Alice. A coelha-mãe, que pesa as mesmas duas "stones" mas é um pé (cerca de 30 centímetros) mais curta. Mede cerca de 80 centímetros, do nariz à cauda, e acabou de perder o bilhete para uma viagem à volta do Mundo que vinha associado ao título de maior Coelho, com “cê” maiúsculo do planeta.
Annette Edwards, conta o “Daily Telegraph”, estava à procura de alguém, com braços fortes, presume-se, para levar Alice em exibições mundo fora, mas agora vai precisar de alguém, mais forte ainda, para levar o filho da mãe, agora ex-recordista entre os maiores coelhos do Mundo.   fonte JN

segunda-feira, abril 05, 2010

a compra submarina...

...que os contribuintes portugueses vão ter de pagar, saibam ou não nadar!


















Hotel Amsterdam Zaandam
12 andares - 160 quartos
arquitecto: Van Windem e a obra custou 15 milhões de euros

Maré negra ameaça grande barreira de coral

Petroleiro chinês encalhou num banco de areia junto à ilha de Kepel, Austrália. Está a derramar crude e ameaça um dos mais frágeis ecossistemas do mundo.
A fuga do petróleo de um navio  chinês encalhado na costa australiana está a ameaçar a maior barreira de corais do mundo.  A grande preocupação é que  o petroleiro se parta em dois  e a maré negra fique fora de controlo.
O alerta foi dado ontem ao início da manhã  - hora portuguesa - pelas  autoridades australianas . O Governo e o Estado de Queensland indicaram que o petroleiro Shen Neg 1 encalhou durante a madrugada de  sábado num banco de areia a 70 quilómetros da costa, junto à turística  ilha australiana de Kepel.
As autoridades alertaram para o perigo de fuga do petroleiro, que transporta 950 toneladas de crude. O navio está já a derramar  pequenas quantidades de petróleo.
"A situação é séria e existe um risco muito real de que o barco se parta em dois, fazemos todos os esforços para limitar os danos na grande barreira", sublinhou a governadora de Queensland, Anna Bligh, às diversas agências internacionais.
Anna Bligh afirmou ainda que o navio, de 230 metros de comprimento e que transportava também 65 mil toneladas de carvão, chocou contra a barreira quando navegava à velocidade máxima.
À hora de fecho desta edição, um barco da polícia permanecia junto ao navio para proceder à sua eventual evacuação. E o mar tinha sido pulverizado com um componente químico para estancar o derrame.
A Grande Barreira de Coral é o maior recife de coral do mundo, com uma extensão de cerca de 2.300 quilómetros, situada junto à costa nordeste do estado australiano de Queensland, sendo composta por cerca de 2.900 recifes, 600 ilhas continentais e 300 atóis de coral.
A primeira maré negra de grandes dimensões foi provocada pelo naufrágio do petroleiro Torrey Canyon, no Canal da Mancha, em 1967. Na altura foram derramadas mais de 100 mil toneladas de crude que afectaram cerca de 180 km de praia.
Outra maré negra histórica foi provocada pelo naufrágio do petroleiro Almoco Cadiz, em Março de 1978, que libertou mais de 230 mil toneladas de  petróleo, contaminando 320 km de praias.
O maior desastre com petroleiros na história dos EUA foi o derrame de 40 mil toneladas de crude pelo petroleiro Exxon Valdez que encalhou num recife em Prince William Sound, Alasca, na noite de 24 de Março de 1989. Mais recentemente, Portugal e a Galiza, Golfo do México e ainda o Alasca  foram afectados.
O impacto destas  marés negras  nos ecossistemas é enorme. A  película formada na superfície da água impede a entrada da luz, que reduz a taxa de fotossíntese das plantas o que diminui a quantidade de oxigénio dissolvido na água provocando asfixia dos peixes e a proliferação de bactérias. fonte DN

Melro-preto: Uma ave que gosta de viver na cidade

fonte:DN
Mal-amado pelos agricultores, o melro-preto é uma ave que tem vindo a conquistar as cidades, sendo visita frequente de jardins e canteiros, à cata de alimentos. O seu canto forte enche as manhãs e os fins de tarde, sinal de que o tempo quente está a chegar.
Diz a sabedoria popular que, "quando o melro canta em Janeiro, é tempo de sequeiro o ano inteiro". A razão do ditado é que os machos desta espécie costumam cantar normalmente de Fevereiro a Junho, altura em que fazem os ninhos. "Cantam para atrair as fêmeas, para defender o território", explica Gonçalo Elias, coordenador do portal www.avesdeportugal.info. Quando começam a cantar mais cedo, é sinónimo de que o tempo "está mais solarengo e será uma estação com menos chuvas, logo, piores colheitas".
 O melro-preto (Turdus merula) é uma das espécies de aves mais abundantes em Portugal. Curiosamente, em Lisboa e noutras cidades tem-se tornado cada vez mais comum, sendo observado em jardins, mas também em telhados e antenas de prédios, aproveitando novos oportunidades de alimentação. A ave, dizem os especialistas, tem também maior tole-rância à presença humana do que no campo. Chegam a aproximar-se a menos de cinco metros. No meio rural, tem um comportamento mais nervoso e arisco, fruto, talvez, da pressão cinegética. O melro é uma espécie protegida. No entanto, devido às suas semelhanças morfológicas com outras aves, como os estorninhos (preto e malhado), muitos melros acabam nas mãos de agricultores ou vítima de caçadores. "Os estorninhos são aves com má reputação, que por vezes dão prejuízos em pomares, vinhas e olivais. Pontualmente, o melro pode sofrer da má vontade dos agricultores ", reconhece o biólogo Domingos Leitão, coordenador do Programa Terrestre da Sociedade Portuguesa para Estudo das Aves.
O melro-preto tem uma distribuição abundante por toda a Europa e Ásia. Em Portugal, pode ser encontrado em todo o território, à excepção da ilha de Porto Santo. Estima--se que existam no País entre 200 mil e dois milhões de aves, "apesar de ser uma estimativa pouco precisa", avança o biólogo.
Existem três subespécies em Portugal. No Continente encontramos o Turdus merula merula; nos Açores, o Turdus merula azoriensis (a mais pequena de todas); e na Madeira, o Turdus merula cabrerae. "Todas elas muito semelhantes, tornando difícil a sua distinção a olho nu, mas são diferentes do ponto de vista genético", acrescenta Domingos Leitão.
Além das aves residentes, pensa-se que nos meses de Inverno, haja uma imigração de alguns melros-pretos para a Península Ibérica. Gonçalo Elias salienta: "Este não é um dado muito conhecido, mas que efectivamente se supõe a presença de indivíduos vindos do Norte." Foram já encontrados melros anilhados no Reino Unido, França, Bélgica, Holanda, Alemanha e Dinamarca, o que demonstra terem vindo de outros países. Contudo, "os números são pouco representativos face às populações residentes, presentes em quase todos os habitats", acrescenta.
Apesar do estatuto de "não ameaçado", há algumas ameaças à espécie. "A população de melros, em geral, não está ameaçada, mas pode sofrer algumas perturbações, como a caça, a predação doméstica ou de animais selvagens", diz Gonçalo Elias. Domingos Leitão lembra que "a proliferação de gatos assilvestrados tem também um efeito negativo. A diferença é que o impacto na globalidade das aves não é tão acentuado como noutras espécies mais ameaçadas.
"Melro-de-bico-amarelo come a semente e o farelo." Apesar da má-fama junto dos agricultores, o melro é uma das aves mais enraizadas na cultura popular. E que está agora a conquistar as cidades.
Nota da Redacção - Com o aquecimento do tempo, os meus vizinhos melros, todo o ano por aqui andam. Adoram a ração da minha gata, aproveitam as migalhas de pão ou bolo e mesmo alguma fatia de pão que lhes deixamos. Não são esquisitos para restos de arroz ou massa e até cascas de fruta picadas agradecem. Retribuem-me com cânticos divinais, ainda o sol não rompe e assim continuam até ao cair da noite.Quando abro a porta de casa voam para o limoeiro onde esperam que os chame e lhes dê a refeição facilitada...

Abril



Gosto das manhãs de Abril de crepúsculos ensanguentados de encontro às janelas e habitadas pelo fim de sono dos pássaros.

As casas, íntimas de calores familiares, são despertares respeitosos.
O céu, puxado do lustro da noite, acende-se de claros.
A esperança toda se renova em intenções.
Vale a pena acordar nas manhãs de Abril conquistado.

  Maria Teresa Góis 


domingo, abril 04, 2010

Páscoa na Aldeia


Minha aldeia na Páscoa...
Infância, mês de Abril!
Manhã primaveril!
A velha igreja.
Entre as árvores alveja,
Alegre e rumorosa
De povo, luzes, flores...
E, na penumbra dos altares cor-de-rosa .
Rasgados pelo sol os negros véus.
Parece até sorrir a Virgem-Mãe das Dores.
Ressurreição de Deus! (...)
Em pleno azul, erguida
Entre a verde folhagem das uveiras.
Rebrilha a cruz de prata florescida...
Na igreja antiga a rir seu branco riso de cal.
Ébrias de cor, tremulam as bandeiras...
Vede! Jesus lá vai, ao sol de Portugal!
Ei-lo que entra contente nos casais;
E, com amor, visita as rústicas choupanas.
É ele, esse que trouxe aos míseros mortais
As grandes alegrias sobre-humanas.
Lá vai, lá vai, por íngremes caminhos!
Linda manhã, canções de passarinhos!
A campainha toca: Aleluia! Aleluia! (...)
Velhos trabalhadores, por quem sofreu Jesus.
E mães, acalentando os filhos no regaço.
Esperam o COMPASSO...
E, ajoelhando com séria devoção.
Beijam os pés da Cruz.

Teixeira de Pascoais

sábado, abril 03, 2010

RÁDONITZA (Anúncio da Páscoa aos mortos)



Vento de primavera
translúcido como espada:
afasta do sépalo afiado
a corola carmesim que ainda treme,
como na alma o espírito,
o sangue da veia.
O inverno, oculta haste
que balouçou os desejos, assombrou as mortais hesitações,
decepada sem um grito;
a velhice interior decepa
da terrível vida.
Páscoa da incorrupção!
No vento de primavera
a antiga igreja indivisa
anuncia aos mortos que indivisa é a vida:
sobre as lápides dos túmulos
pousa os sépalos que ainda tremem
e no centro, no plexo, no coração,
lá onde está sepultado o Sol,
lá onde está sepultado o Dom,
o pequeno ovo carmesim do perene retorno,
do humilde, irreconhecível
transfigurado retorno.
Páscoa que libertas todas as culpas!
Paradoxal deserto
de um cemitério metropolitano
entre suavíssimas asas
de andorinhas e véus: quinto tom,
gritos de boiardos sem postura, a espada exposta
na celeste Cidade tomada,
que se cruza e enrola, oitavo tom,
- como à vivificante, venerável Cruz
do Arqueiro a rosa que ainda treme -
naquele tão terno lamento fúnebre:
Páscoa, memória eterna!

Patética, patrícia
morte da morte metropolitana
testemunhada por escassas e imóveis bonecas
da Corte asiática: carmesim, prata e ouro.
Pálpebras escavadas,
pálpebras afiadas,
olhares fixos, parados, empedrados
sobre os túmulos de cada lugar, cada memória, cada estirpe,
cada psique que morre.
Lenços enxugam furtivos
os cantos da boca que rega como sangue
o divino grito, as raízes carbonizadas da água
inexaurível da notícia tremenda:
Páscoa, memória eterna!


(de Poemas Dispersos, in O Passo do Adeus, tradução de José Tolentino Mendonça, Assírio & Alvim, 2002 – documenta poetica)

Dia do Judeu

fonte: O Jumento
"Na minha infância o sábado da Semana Santa era o dia de Judas ou, mais genericamente, o dia do Judeu, a tradição popular deste dia consistia em fazer bonecos, os judeus, que eram depois queimados. Esta tradição não era exclusiva da mina terra, aqui e acolá vão sendo feitas reconstituições desta prática.
Foram necessários vinte séculos para que a Igreja Católica considerasse que o povo judeu não foi o culpado da morte de Cristo e pusesse fim à perseguição aos judeus que promoveu durante séculos e que conduziu a chacinas sucessivas.
A Igreja Católica tem um longo historial de não aceitação das suas responsabilidades e ainda maior quanto a aceitar as consequências dos crimes praticados pelos seus responsáveis, Galileu também teve de esperar até ao século XX para a Igreja lhe reconhecer uma razão que há muito a ciência já lhe tinha dado. Entre reconhecer e pedir perdão às suas vítimas ou colocar os seus interesses acima das vítimas a Igreja Católica nunca hesita, opta sempre pela segunda solução.
Só que já estamos em pleno século XXI e não é possível manter o encobrimento dos crimes praticados por alguns dos seus padres da mesma forma que se manteve a condenação de Galileu. A crise em que a Igreja Católica se está a envolver não se deve a um fenómeno novo, nada do que sucedeu nos últimos meses foi novidade, o que mudou foi o mundo e uma boa parte da Igreja Católica, incluindo o papa, ainda não o percebeu.
Os direitos dos cidadãos estão acima dos interesses da Igreja, os seus padres não estão acima da lei para defesa do bom nome da Igreja, foi isto que o papa e um bom número de bispos não perceberam a tempo. Não perceberam que não podiam exigir que a lei contemple a prisão das mulheres que abortam ao mesmo tempo que os seus crimes se resolviam com meia dúzia de ave-marias e uma oportuna mudança de paróquia.
O problema da Igreja não é saber como fazer esquecer o assunto mas sim como aceitar e assumir as culpas. D. José Policarpo, cardeal patriarca de Lisboa, soube fazê-lo ainda que saiba que as vítimas do padre Frederico foram esquecidas e ainda não receberam a indemnização a que o padre Frederico foi condenado. Mas D. José Policarpo foi a única voz inteligente que ouvi, todos os outros parecem estar mais preocupados em tentar abafar e desvalorizar as culpas do que em assumi-las, estão mais preocupados em proteger-se do que em proteger as vítimas.
Uma boa parte da hierarquia da Igreja Católica parece não perceber que os judeus, Galileu ou as vítimas dos cruzados são coisa do passado, quem em pleno século XXI ou a Igreja Católica assume responsabilidades e reconhece os direitos das vítimas ou será ela própria vítima dos seus próprios pecados."

Há uma nova imagem do rosto de Jesus Cristo em 3D

Uma nova imagem daquele que seria o rosto de Jesus Cristo foi agora desenvolvida por especialistas em computação gráfica, que utilizaram técnicas inovadoras de criação de imagens em 3D, com base no Santo Sudário. Os especialistas tiveram acesso à peça de linho que muitos cristãos acreditam ter servido para cobrir o corpo de Jesus Cristo, depois de ter sido retirado da cruz.
John Jackson, físico da universidade americana do Colorado que estuda o Santo Sudário desde 1978, diz que a relíquia é "singular" e contém dados em três dimensões sobre o corpo da pessoa que foi enterrada.
"A presença de dados em três dimensões é bastante inesperada e também é única", diz Ray Downing, outro dos estudiosos. "É como se a imagem contivesse um manual de instruções sobre como se construir uma escultura." Ray Downing e John Jackson.fonte: jornal i

sexta-feira, abril 02, 2010

Semana Maior

Chega a manhã vestida de anil,
Com laivos róseos que se sobrepõem.

Desperta a esperança no dia de Páscoa,
Mas hoje acontece o silêncio.

Há rostos fechados, vazios,
Parece que ninguém habita mais.

Ao fim da tarde saem,
Foram ao templo lembrar a morte de Cristo.

Acompanhar-Lhe a tristeza,
No breve sepultamento.


Maria Teresa Góis 

na foto: Cristo, por Dali

quinta-feira, abril 01, 2010

PASSEIO DE DOMINGO

Por Alice Vieira
OLHOU para o espelho.
Às vezes pensava no que lhe aconteceria se fosse a outra, a do tempo da infância, a que se metia pelo espelho dentro, a que se deixava cair pelo poço, a que seguia lebres e chapeleiros malucos, a que pedia “dêem-me histórias com muita loucura por dentro” .
Ela sempre gostara de histórias e de pessoas com muita loucura por dentro.
Pessoas iguais a ela.
Pessoas iguais a ele.
O risco sobre a pálpebra direita está meio esborratado, foi da pressa, claro, mas está no céu quem inventou os cottonettes, pensa, enquanto rapidamente tudo se recompõe.
Escolhe os brincos, tem quatro caixas cheias deles, diferentes para cada estação do ano, mais compridos para quando é verão e tem o cabelo curto, mais curtos para quando é inverno, e não dá jeito andar a correr à chuva com aquela coisa toda a chocalhar e a prender-se no cachecol ou nas golas altas das camisolas.
Ele deve estar a chegar.
De repente lembra-se que lhe devia ter pedido que não trouxesse a mota.
Por uma vez na vida, que viesse de carro.
Claro que ela também gosta da mota, não há melhor sensação do que apanhar o vento pela cara, agarrada a ele pelas estradas a não sei quantos à hora, mas o seu espírito motard não é tão furioso como o dele e, de vez em quando, sabe-lhe bem vestir saia rodada, daquelas até aos pés, daquele linho indiano enrugado que não é preciso engomar e se torce todo na secagem.
Mas saias e mota é que não jogam mesmo nada.
Por isso se calhar o melhor é jogar pelo seguro e optar pelas calças, jeans desbotados que já viram melhores dias, mas agora são todos assim, nem se nota quando são novos ou velhos.
Ainda não chegou ao cúmulo de pegar numas tesouras e fazer cortes pelas pernas abaixo, e deixar aquilo a desfiar-se, apesar de tudo ainda lhe faz alguma confusão pagar uma pipa de massa para ficar com ar de sem-abrigo.
Escolhe a t-shirt apropriada, de manga comprida porque ainda não faz muito calor, e em cima da mota a não sei quantos à hora, o frio é sempre de acautelar.
Esteve para vestir a que diz “Aleluia! Encontrei Jesus! Estava no balneário do Benfica!”, que encomendou pela net num dia em que o Sporting levara uma goleada — mas desiste, sabe lá quem vão encontrar pelo caminho, e as pessoas agora ofendem-se por tudo.
“Andam muito chocadiças”, como lhe diz a empregada.
Opta por uma que não desperta paixões clubísticas, “Não sou grega mas também estou falida”, e que até mostra o seu interesse pela actual conjuntura política. Motards, mas a par do que se passa.
Ouve o ronco do motor a aproximar-se. Ainda bem que se decidira pelas calças.
Pela janela acena-lhe, vê que ele traz o pendura do costume, e fica contente a pensar que sempre é uma boa companhia.
Também fica contente por ele trazer o lenço de riscado vermelho atado à cabeça, uma vez que a sua t-shirt é de fundo vermelho e assim sempre vão ambos a condizer.
Abre a porta ao miúdo, que resmunga uma coisa parecida com bom dia e se enfia pelo corredor.
Deita as chaves de casa para dentro de um bolso das calças, o telemóvel e o cartão multibanco para o outro, de nada mais precisa para a sua liberdade absoluta.
Ele ri-se a ler a t-shirt, ela enfia o capacete, e num momento desaparecem ao fundo da rua.
Em casa, os dois netos só têm um pouco de receio do que os vizinhos possam comentar.

In ‘ACTIVA’ de Abril 2010

Amnistia Internacional e Woman’ Secret lançam colecção contra violência doméstica

‘A violência doméstica não pode ser um segredo’. Este é o lema da campanha lançada hoje pela Amnistia Internacional numa alusão à marca de roupa íntima Woman’ Secret, parceira deste projecto que pretende ser «um grito na luta contra a violência sobre as mulheres»
Nas lojas da marca Woman’ Secret pode encontrar-se peças de uma colecção de roupa assinada pelo ilustrador André Letria. As receitas revertem inteiramente para a Amnistia Internacional - Portugal.
Segundo dados da Direcção Geral da Administração Interna, só no primeiro semestre de 2009 foram apresentadas 14.600 queixas de violência doméstica, o que representa uma média de 81 queixas por dia. Embora nem toda a violência doméstica seja exercida sobre as mulheres, estas representam 85% das vítimas.
Os números tornam-se mais preocupantes, se se pensar que muitas das situações não resultam em queixa. Segundo a Amnistia Internacional, só um trabalho de educação e sensibilização pode mudar consciências.
A campanha ‘A violência doméstica não pode ser um segredo’ visa «dar voz a cada mulher afectada por este tipo de violência em Portugal, assim como sensibilizar a população e a sociedade», lê-se na apresentação da campanha.
Para assinalar o arranque, a Amnistia Internacional organizauma acção de sensibilização sobre o tema nas principais ruas de Lisboa.
A colecção integra três t-shirts e dois calções, para combinar nesta Primavera-Verão.

"Semana Santa" - Alexandre Herculano

"Der Gedanke Gott weckt einen
fürchterlichen Nachhar auf. Sein Name
heisst Richter.

SCHILLER

Tíbio o sol entre as nuvens do ocidente,
Já lá se inclina ao mar. Grave e solene
Vai a hora da tarde! O oeste passa
Mudo nos troncos da alameda antiga,
Que à voz da Primavera os gomos brota:
O oeste passa mudo, e cruza o átrio
Pontiagudo do templo, edificado
Por mãos duras de avós, em monumento
De uma herança de fé que nos legaram,
A nós seus netos, homens de alto esforço,
Que nos rimos da herança, e que insultamos
A Cruz e o templo e a crença de outras eras;
Nós, homens fortes, servos de tiranos,
Que sabemos tão bem rojar seus ferros
Sem nos queixar, menosprezando a Pátria
E a liberdade, e o combater por ela.
Eu não! – eu rujo escravo; eu creio e espero
No Deus das almas generosas, puras,
E os déspotas maldigo. Entendimento
Bronco, lançado em século fundido
Na servidão de gozo ataviada,
Creio que Deus é Deus e os homens livres!

Oh, sim! – rude amador de antigos sonhos,
Irei pedir aos túmulos dos velhos
Religioso entusiasmo; e canto novo
Hei-de tecer, que os homens do futuro
Entenderão; um canto escarnecido
Pelos filhos dest' época mesquinha.
Em que vim peregrino a ver o mundo,
E chegar a meu termo, e reclinar-me
À branda sombra de cipreste amigo.

Passa o vento os do pórtico da igreja
Esculpidos umbrais: correndo as naves
Sussurrou, sussurrou entre as colunas
De gótico lavor: no órgão do coro
Veio, enfim, murmurar e esvaecer-se.

Mas porque sou o vento? Está deserto,
Silencioso ainda o sacro templo:
Nenhuma voz humana ainda recorda
Os hinos do Senhor. A natureza
Foi a primeira em celebrar seu nome
Neste dia de luto e de saudade!
Trevas da quarta-feira, eu vos saúdo!
Negras paredes, mudos monumentos
De todas essas orações de mágoa,
De gratidão, de susto ou de esperança.
Depositadas ante vós nos dias
De fervorosa crença, a vós que enluta
A solidão e o dó, venho eu saudar-vos.
A loucura da Cruz não morreu toda
Após dezoito séculos! Quem chore
Do sofrimento o Herói existe ainda.
Eu chorarei – que as lágrimas são dó homem –
Pelo Amigo do povo, assassinado
Por tiranos, e hipócritas, e turbas
Envilecidas, bárbaras, e servas.

Tu, Anjo do Senhor, que acendes o estro;
Que no espaço entre o abismo e os céus vagueias,
Donde mergulhas no oceano a vista;
Tu que do trovador à mente arrojas
Quanto há nos céus esperançoso e belo,
Quanto há no abismo tenebroso e triste,
Quanto há nos mares majestoso e vago,
Hoje te invoco! – oh, vem! –, lança em minha alma
A harmonia celeste e o fogo e o génio,
Que dêem vida e vigor a um carme pio.

A noite escura desce: o Sol de todo
Nos mares se atufou. A luz dos mortos,
Dos brandões o clarão, fulgura ao longe
No cruzeiro somente e em volta da ara:
E pelas naves começou ruído
De compassado andar. Fiéis acodem
À morada de Deus, a ouvir queixumes
Do vate de Sião. Em breve os monges,
Suspirosas canções aos Céus erguendo,
Sua voz unirão à voz desse órgão,
E os sons e os ecos reboarão no templo.
Mudo o coro depois, neste recinto
Dentro em bem pouco reinará silêncio,
O silêncio dos túmulos, e as trevas
Cobrirão por esta área a luz escassa
Despedida das lâmpadas. que pendem
Ante os altares, bruxuleando frouxas.
Imagem da existência! Enquanto passam
Os dias infantis, as paixões tuas,
Homem, qual então és, são débeis todas.
Cresceste: ei-las torrente, em cujo dorso
Sobrenadam a dor e o pranto e o longo
Gemido do remorso, a qual lançar-se
Vai com rouco estridor no antro da morte,
Lá, onde é tudo horror, silêncio, noite.
Da vida tua instantes florescentes
Foram dois, e não mais: as cãs e rugas,
Logo, rebate de teu fim te deram.
Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,
Murmurou, esqueceu, passou no espaço.
E a casa do Senhor ergueu-se. O ferro
Cortou a penedia; e o canto enorme
Polido alveja ali no espesso pano
Do muro colossal, que era após era,
Como onda e onda ao desdobrar na areia,
Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.
O ulmo e o choupo no cair rangeram
Sob o machado: a trave afeiçoou-se;
Lá no cimo pousou: restruge ao longe
De martelos fragor, e eis ergue o templo,
Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.
Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento
Se esvai, como da cerva a leve pista
No pó se apaga ao respirar da tarde,
Do seio dessa terra em que és estranho,
Sair fazes as moles seculares,
Que por ti, mono, falem; dás na ideia
Eterna duração às obras tuas.
Tua alma é imortal, e a prova a deste!


Anoiteceu. Nos claustros ressoando
As pisadas dos monges ouço: eis entram;
Eis se curvaram paru o chão, beijando
O pavimento, a pedra. Oh, sim, beijai-a!
Igual vos cobrirá a cinza um dia,
Talvez em breve – e a mim. Consolo ao morto
É a pedra do túmulo. Sê-lo-ia
Mais, se do justo só a herança fora;
Mas também ao malvado é dada a campa.
E o criminoso dormirá quieto
Entre os bons soterrado? Oh, não! Enquanto
No templo ondeiam silenciosas turbas,
Exultarão do abismo os moradores,
Vendo o hipócrita vil, mais ímpio que eles,
Que escarnece do Eterno, e a si se engana;
Vendo o que julga que orações apagam
Vícios é crimes. e o motejo e o riso
Dado em resposta às lágrimas do pobre;
Vendo os que nunca ao infeliz disseram
De consolo palavra ou de esperança.
Sim: malvados também hão-de pisar-lhes
Os frios restos que separa a terra,
Um punhado de terra, a qual os ossos
Destes há-de cobrir em tempo breve,
Como cobriu os seus; qual vai sumindo
No segredo da campa a humana raça.

Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos
Do templo na amplidão: só lá no escuro
De afumada capela o justo as preces
Ergue pio ao Senhor, as preces puras
De um coração que espera, e não mentidas
De lábios de impostor, que engana os homens
Com seu meneio hipócrita, calando
Na alma lodosa da blasfémia o grito.
Então exultarão os bons, e o ímpio,
Que passou, tremerá. Enfim, de vivos,
Da voz, do respirar o som confuso
Vem confundir-se no ferver das praças,
E pela galilé só ruge o vento.
Em trevas não, ficou silenciosas
O sagrado recinto: os candeeiros,
No gelado ambiente ardendo a custo,
Espalham débeis raios, que reflectem
Das pedras pela alvura; o negro mocho,
Companheiro do morto, hórrido pio
Solta lã da cornija: pelas fendas
Dos sepulcros desliza fumo espesso;
Ondeia pela nave, e esvai-se. Longo
Suspirar não se ouviu? Olhai!, lá se erguem,
Sacudindo o sudário, em peso os morros!
Mortos, quem vos chamou? O som da tuba
Ainda do Josafat não fere os vales.
Dormi, dormi: deixai passar as eras...

Mas foi uma visão: foi como cena
D' imaginar febril. Criou-se, acaso
Do poeta na mente, ou desvendou-lhe
A mão de Deus o íntimo ver da alma,
Que devassa a existência misteriosa
Do mundo dos espíritos? Quem sabe?
Dos vivos já deserta, a igreja torva
Repovoou-se, para mim ao menos,
Dos extintos, que ao pé das santas aras
Leito comum na sonolência extrema
Buscaram. O terror, que arreda o homem
Do limiar do tempo às horas mortas,
Não vem de crença vã. Se fulgem astros,
Se a luz da Lua estira a sombra eterna
Da cruz gigante (que campeia erguida
No vértice do tímpano, ou no cimo
Do coruchéu do campanário) ao longo
Dos inclinados tectos, afastai-vos!
Afastai-vos daqui, onde se passam
A meia-noite insólitos mistérios;
Daqui, onde desperta a voz do arcanjo
Os dormentes da morte; onde reúne
O que foi forte e o que foi fraco, o pobre
E o opulento, o orgulhoso e o humilde,
O bom e o mau, o ignorante e o sábio,
Quantos, enfim, depositar vieram
!unto do altar o que era seu no mundo,
Um corpo nu, e corrompido e inerte.

E seguia a visão. Cria ainda achar-me,
Alta noite, na igreja solitária
Entre os mortos, que, erectos sobre as campas,
Eram á pouco um fumo que ondeava
Pelas fisgas do vasto pavimento.
Olhei. Do erguido tecto o pano espesso
Rareava; rareava-me ante os olhos,
Como ténue cendal; mais ténue ainda,
Como o vapor de Outono em quarto d'alva,
Que se libra no espaço antes que desça
A consolar as plantas conglobado
Em matutino orvalho. O firmamento
Era profundo e amplo. Envolto em glória,
Sobre vagas de nuvens, rodeado
Das legiões do Céu, o Ancião dos dias,
O Santo, o Deus descia. Ao sumo aceno
Parava o tempo, a imensidade, a vida
Dos mundos a escutar. Era esta a hora
Do julgamento desses que se alçavam,
À voz de cima, sobre as sepulturas?
(...)

Alexandre Herculano


"A Semana Santa"

Nota de Alexandre Herculano ao poema "A Semana Santa": Eis o poema da minha mocidade: são os únicos versos que conservo desse tempo, em que nada neste mundo deixava para mim de respirar poesia. Se hoje me dissessem: faze um poema de quinhentos versos acerca da Semana Santa, eu olharia ao primeiro aspecto esta proposição como um absurdo: entretanto, eu mesmo, há nove anos realizei esse absurdo. Não é esta a primeira das minhas contradições, e espero em Deus, e na minha sincera consciência, que não seja a última.
Alexandre Herculano, "A Harpa do Crente", p. 47, Publicações Europa-América, 1986