Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
Poema de José Gomes Ferreira
Música de Fernando Lopes Graça (in Canções Heróicas)
domingo, abril 25, 2010
sábado, abril 24, 2010
Isabel Allende conta histórias de paixão.
LEIAM POR FAVOR, EM NOME DA LIBERDADE, DA DIGNIDADE, POR UM MUNDO MELHOR
Nesta conversa, a escritora e activista Isabel Allende fala sobre mulheres, criatividade, a definição de feminismo e, claro, sobre paixão.
Nesta conversa, a escritora e activista Isabel Allende fala sobre mulheres, criatividade, a definição de feminismo e, claro, sobre paixão.
Deputado do PND na Madeira leiloa cartão parlamentar
O deputado do PND colocou à venda, em leilão na Internet, o seu cartão parlamentar, como forma de protesto. A base de licitação é de 100 euros. A 20 de Abril, em conferência de imprensa, José Manuel Coelho, anunciou que pelo facto de ter sido arrastado pelos agentes da PSP no cortejo da Festa da Flor, que o impediram de entregar um ramo de cravos ao primeiro ministro "num acto simbólico e de democracia", iria colocar o cartão de livre trânsito de deputado à venda.
Salientou que as autoridades policiais não respeitaram o direito, inscrito no verso do cartão, de "livre-trânsito em locais públicos de acesso condicionado, no exercício das funções ou por causa delas".
Nessa altura declarou: "este é um cartão sem qualquer valor, só se for apenas para um museu, por isso vou vendê-lo porque não tem qualquer interesse".
À venda por um preço inicial de 100 euros, o cartão ainda não foi licitado.(fonte JN, Lisboa)
Nota da Redacção - Sendo o 25 de Abril uma data histórica em que todo o Portugal comemora o fim da ditadura fascista que durante décadas dominou o País, o Governo Regional da Ma(ma)deira é o único que, numa atitude anti democrática e saudosista do antigo regime, a não celebra. Contudo, eles sabem bem recolher as benesses que a Democracia trouxe.
POBRES DOS NOSSOS RICOS
A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados.
Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro, ou que pensa que tem.. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos "ricos". Aquilo que têm, não detêm.
Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas.
Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram.
Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem (...)
MIA COUTO
Rico é quem possui meios de produção.
Rico é quem gera dinheiro e dá emprego.
Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro, ou que pensa que tem.. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
A verdade é esta: são demasiados pobres os nossos "ricos". Aquilo que têm, não detêm.
Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas.
Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram.
Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem (...)
MIA COUTO
O Credo do contador de histórias
Creio no contador, como memória viva do amor e creio em seu filho, e no filho de seu filho, e no filho de seu filho, porque eles são a estirpe da voz, os criadores da terra e do céu das vozes: voz das vozes.
Creio no contador, concebido nos espelhos da água, nascido humilde, tantas vezes negado, tantas vezes crucificado, porém nunca morto, nunca sepultado, porque sempre ressuscitou dos vivos congregando-os a ser: xamã, fabulista, contador de histórias... Creio na magia que na entrada das cavernas acendeu o primeiro fogo que reuniu como estrelas: o assombro, o tremor, a fé. Creio no contador, que desde os tempos tribais a todos antecedeu para alcançar-nos por que é. Creio em suas mentiras fabulosas que escondem fabulosas certezas, no prodígio de sua invenção que vaticina realidades insuspeitas, e também creio na fantasia das verdades e nas verdades da fantasia, por isso creio nas sete léguas das botas, na serpente que antes foi inofensiva galinha, e no gato único no mundo, aquele gato que ao miar lançava moedas de ouro pela boca. Creio nos contos de minha mãe, como minha mãe acreditou nos contos de minha avó, como minha avó acreditou nos contos de minha bisavó e recordo a voz que me contava para afastar a enfermidade e o medo, a voz que recordava os conselhos entesourados pela mãe para passá-los ao filho;— Não te desvies do teu caminho.— Nunca faças de noite o que possas te envergonhar pela manhã. Creio no direito da criança escutar contos; e mais, creio no direito das crianças vivas dentro dos adultos de voltar a escutar os contos que povoaram sua infância; e mais, creio nos direitos dos adultos desde sempre e para sempre de escutar contos, outros novos contos. Creio no gesto que conta, porque em sua mão desnuda, despojadamente desnuda, está o coelho. Creio no tambor que redobra, porque o que haveria sido do mundo se não tivesse sido inventado o tambor, se a poesia não reinventasse o mundo dentro de nós, se o conto, ao improvisar o mundo, não o reordenasse, se o teatro não desvelasse a cerimônia secreta das máscaras e por isso...Por que creio, narro oralmente. Creio que contar é defender a pureza, defender a sabedoria da ingenuidade, defender a força da indagação. Creio que contar é compartilhar a confiança, compartilhar a simplicidade como transparência da profundidade, compartilhar a linguagem comum da beleza. Creio que contar É UMA FORMA DE AMOR!
Garzón Céspedes
fonte: net
sexta-feira, abril 23, 2010
Carnaval 1969
Neste reencontro de Amigas as fotos que estavam em caixas ou álbuns têm visto a luz do dia, e não só. Têm-nos feito recordar bons períodos de sã amizade e camaradagem, têm-nos feito reviver. Hoje a Stella publicou esta,do Carnaval de 1969. Presentes a Milú, a Bé, a Stella e eu, sentada, de touca de banho de plástico enfiada na cabeça pois o meu disfarce era, calculem, de pijama...Um obrigada à Stella, que me emocionou com esta foto. Pena a Lúcia não ter sido apanhada. A todas um abraço atlântico.
Sesimbra, 1969
Germano
Não há passividade carente na dança de um canavial. Há harmonia e a subtileza das leis físicas ordenadas pelo "nordeste". Bailado estremecido e solto num som sempre seco que, interrogado na noite, nem se sabe se é chuva se vento.
Todas as brisas da natureza têm um cúmplice carinho, nesse vai vem, um tombar parecido ,calmo, ingénuo e sereno.
Todas as brisas da natureza têm um cúmplice carinho, nesse vai vem, um tombar parecido ,calmo, ingénuo e sereno.
Germano apreciava a sua terra, vivia e comia dela. De manhã em manhã era por ela que persistia e as suas grandes e ásperas mãos eram meigas no pegar da foice ou da enxada.
Não conhecia outro vocabulário, não sonhava outra vida. A terra, só a terra, era a perfeita felicidade do homem e tê-la, desbravá-la obrigando-a a produzir, possuí-la como bem de raiz, era a cabal missão para que nascera.
A escola ficara-se a meio pois nem as ameaças do pai de Germano conseguiam convencer os professores. Nascido no meio rural, habituado ao servilismo escravo de quem obedece porque nada mais sabe fazer, Germano cresceu menino de trabalho enrijecendo músculos, criando forças impensáveis à sua estatura entroncada e baixa.
Os olhos cresceram-lhe ávidos do saber que a escola negou, escuros como terra arroteada, salientes como bolbos, penetrantes como sol de Agosto sem vergonha, escaldantes.
A terra sorveu-lhe os primeiros acordes machos e ele agradecia-lhe os silêncios deleitado nos cheiros fortes de húmus, na capacidade de quem rasga sulcos e amorosamente os tapa na promessa da fertilidade.
O gado era a outra paixão de Germano.
Tinha prazer nos seus olhares - quase idênticos - de compreensão, à comida e cama seca, a uma leve palmada nos quartos cheios, no grito animal, à ração verde e fresca.
Tinha prazer nos seus olhares - quase idênticos - de compreensão, à comida e cama seca, a uma leve palmada nos quartos cheios, no grito animal, à ração verde e fresca.
O Domingo, dia sagrado e de descanso, Germano gostava de ir à missa, apreciava o colorido das vestes, do entrar pachorrento na igreja, dos cânticos semi- berrados e do acotovelar que a enchente do templo obrigava. A saída era atenta e demorada, mesmo se chovesse, pois a diversidade de pessoas e cheiros só semanalmente acontecia.
E foi num Domingo, gozando a frouxidão do povo, que Germano a viu.
Uma qualquer alquimia se gerou na seiva morena do corpo moreno.
Foi penoso e calado o regresso a casa e nem os afagos do fiel amigo o alegraram.
Uma qualquer alquimia se gerou na seiva morena do corpo moreno.
Foi penoso e calado o regresso a casa e nem os afagos do fiel amigo o alegraram.
Na terra a enxada era o encosto imóvel que o olhar distante acentuava. A semana jamais passaria e Germano arrastava as botas pesadas, pensando esmagar o tempo.
Mas novo Domingo chegou e, com ele, o homem novo bem lavado e bem vestido ansiosa e piedosamente se moveu.
Maiores, os olhos, dissecavam todos os bancos de mulheraça na fé firme de nova aparição.
Ultrapassando-se a si próprio saiu a meio do ofício, invocando qualquer premente necessidade.
Quando reentrou subiu as escadas do coro, vitorioso da sua inteligência e visão. Instalado olhou firme a imagem sagrada que, em frente, também o olhava, invocou pequeno murmúrio de oração e, enfim, reconheceu que amava!
Não deu pelo desenrolar da cerimónia amando, em silêncio, aquela límpida claridade dentro de si.
O "Amém" uníssono despertou-o. Apurou os sentidos e lutou para o lugar de varandim que outros abandonavam.
O "Amém" uníssono despertou-o. Apurou os sentidos e lutou para o lugar de varandim que outros abandonavam.
Viu-a.
Sorridente, apoiada em abandono a mão no braço másculo de quem também lhe sorria. As alianças brilharam nas mãos entrelaçadas num reflexo que cegou Germano.
Agora, sentado e ausente no muro da estrada, anseia que o Domingo passe.
As canas, ao longe, estremecidas e sussurrantes, deixam entrever o seu único amor -a terra.
Maria Teresa S. T. Góis
Imagem: "o lavrador de café" de Cândido Portinari
Maria Teresa S. T. Góis
Imagem: "o lavrador de café" de Cândido Portinari
Este texto foi já publicado, por ocasião da Feira do Livro, na revista cultural "Margem", da Câmara Municipal do Funchal
Dia Mundial do Livro
"O Dia Mundial do Livro é comemorado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de Abril. Trata-se de uma data simbólica para a literatura, já que, segundo os vários calendários, neste dia faleceram importantes escritores como Cervantes e Shakespeare.
A ideia da comemoração teve origem na Catalunha: a 23 de Abril, dia de São Jorge, uma rosa é oferecida a quem comprar um livro. Mais recentemente, a troca de uma rosa por um livro tornou-se uma tradição em vários países do mundo."
Sou de uma geração privilegiada. De muito pequena sempre tive contacto diário com livros e revistas juvenis. Cresci a ler, vivi a ler, estou a ler, quero morrer a ler.
Cada livro é único: pelo autor, pelo conteúdo, pelo toque, o cheiro, a madeira de que foi feito. Não me venham com tretas...um livro é um Amigo - ouve e responde; é um professor - origina debate e ensina; é uma memória, um companheiro de todas as horas, um documento acessível, registado, imortal.
Se eu podia viver sem a Zon, claro que podia! Sem um livro? Claro que não!
Na foto, a pérola que estou a ler, uma edição de 1926.
tukakubana
quinta-feira, abril 22, 2010
quem é que sabe onde foi tirada esta foto?
AO MEU LADO ESTÁ O TELES (?) E O SR. DE IDADE JÁ NÃO ME LEMBRO DO NOME. ERA MUITO ATENCIOSO E SEI QUE ERA POLÍCIA REFORMADO.
O CINZEIRO DA TAP QUE ESTÁ NA SECRETÁRIA TENHO-O COMIGO.
O VW O MEU FILHO TRATOU-LHE DA SAÚDE, UNS BONS ANOS DEPOIS E ACHO QUE ELE ERA A PREMONIÇÃO DE QUE EU ME VIRIA A CASAR COM UM HOMEM "DOIDO" POR CAROCHAS...
AGORA VOCÊS QUE ME EXPLIQUEM O QUE É QUE EU FAZIA COM 2 TELEFONES!
data: 28 de Novembro de 1970
lembrando os Amigos
às minhas Amigas reencontradas, Lucia, Bé, Stella e Milu.
foto l - Eu e a Suzana, com o filhote mais velho dela ao colo.Penso que é de 1970 (eu era um "borracho"...) e creio que esta foto foi tirada no miradouro das Azenhas do Mar (virada para terra)
foto 2 e 3 -
A Suzana e o Angelo, comigo e com Luis, no Pico do Arieiro, Madeira, verão de 1975
Uma igreja capaz de fazer sorrir a Virgem
por Nicholas Kristof,jornal i, hoje
Há dias ouvi uma piada sobre uma alma piedosa que morre, vai para o Céu e é recebida em audiência pela Virgem Maria. O visitante pergunta a Maria por que razão, apesar de todas as suas graças, aparece sempre nos quadros um pouco triste, um pouco melancólica. Estará tudo bem?
Maria tranquiliza o visitante: "Sim, está tudo óptimo. Não há problema nenhum. Só que... bem, só que nós sempre quisemos ter uma filha."
Essa história vem-nos ao espírito na altura em que o Vaticano se debate com as consequências de uma perspectiva patriarcal pré-moderna: escândalo, encobrimento e a pior autodefesa desde Watergate. É o que acontece aos clubes de velhos amigalhaços.
Não era inevitável que a Igreja Católica se deixasse enquistar num regime de domínio dos homens, celibato e rigidez hierárquica. O próprio Jesus preocupava-se mais com os necessitados que com o dogma e esforçou-se activamente por conseguir a adesão das mulheres e por tratá-las com respeito.
A Igreja do século I era inclusiva e democrática, tendo mesmo uma ala e textos protofeministas. O Evangelho de S. Filipe, um texto gnóstico do século III, declara, referindo-se a Maria Madalena: "Ela é quem o Salvador amava acima de todos os discípulos." Do mesmo modo, o Evangelho de Maria (dos princípios do século II) indicia que Jesus confiou a Maria Madalena a tarefa de instruir os discípulos nos seus ensinamentos religiosos.
S. Paulo refere-se, na Epístola aos Romanos (cap. 16), a uma mulher do século I, chamada Júnia, como preeminente entre os primeiros apóstolos, bem como a outra, chamada Febe, que foi diácona. A apóstola Júnia tornou-se cristã antes de S. Paulo (alguns tradutores machistas têm escrito o nome dela na versão masculina, sem qualquer base científica).
Todavia, nos séculos que se seguiram, a Igreja viria a adoptar atitudes fortemente patriarcais, mostrando-se ao mesmo tempo cada vez mais incomodada com a sexualidade. Essa mudança pode ter-se dado com a passagem das igrejas caseiras, onde as mulheres eram naturalmente bem aceites, para as assembleias mais públicas.
O resultado foi os textos protofeministas não terem sido incluídos na Bíblia quando esta foi compilada (ficaram em grande parte perdidos até aos tempos modernos). Tertuliano, um dirigente dos primórdios do cristianismo, apontou as mulheres como "portas do Demónio" e um relato coevo revela que o grande Orígenes de Alexandria levou a religiosidade ao extremo de se castrar.
A Igreja Católica ainda parece estar presa, nos dias de hoje, a esse atavismo. A mesmíssima fé, tão pioneira no seu dealbar que teve Júnia como apóstola no século I, não pode hoje em dia ter uma mulher nem como simples pároca. As diáconas, aceites durante séculos, estão hoje proscritas.
O "clube de velhos amigalhaços" do Vaticano ficou tão centrado em si mesmo como qualquer outro, incluindo o Lehman Brothers, com resultados semelhantes. E é por isso que o Vaticano está hoje a soçobrar.
Mas há mais. Nas minhas viagens pelo mundo deparo-me com duas Igrejas Católicas. Uma é a da hierarquia rígida, exclusivamente masculina, do Vaticano, que parece ter perdido todo o contacto com a realidade quando proíbe os preservativos, mesmo entre casais em que um dos cônjuges é seropositivo. Para mim, pelo menos, esta Igreja - obcecada com o dogma e com regras e que perdeu o norte da justiça social - é um eco moderno dos fariseus que Jesus criticou.
Mas há outra Igreja Católica, que admiro profundamente. É a Igreja Católica das bases, que faz mais pelo mundo do que se imagina. É a Igreja que apoia organizações de assistência como o Catholic Relief Services e a Caritas, salvando vidas todos os dias e gerindo escolas magníficas que proporcionam a muitas crianças necessitadas uma escada para saírem da pobreza. É a Igreja das freiras e dos padres que no Congo laboram no anonimato para alimentar e educar crianças. É a Igreja do padre brasileiro que combate a sida e que me disse que, se fosse Papa, instalava uma fábrica de preservativos no Vaticano para salvar vidas.
É a Igreja das irmãs Maryknoll, na América Central, e das irmãs Cabrini, em África. Existe um estereótipo que pinta as freiras como mulheres tradicionalistas empedernidas, ao estilo vitoriano. Verifiquei que assim não é ao agarrar-me com unhas e dentes ao meu assento, no interior de um jipe guiado por uma freira dos EUA que percorria picadas e vencia linhas de água na Suazilândia para visitar órfãos da sida. Depois de vários encontros desse tipo, passei a acreditar que as pessoas mais fixes que há no mundo de hoje podem bem ser freiras. Por isso, quando lemos notícias dos escândalos, devemos recordar que o Vaticano não é o mesmo que a Igreja Católica. Os vulgares leprosos, prostitutas e habitantes de bairros de lata podem nunca chegar a ver um cardeal, mas todos os dias se deparam com uma Igreja Católica verdadeiramente nobre, corporizada em padres, freiras e voluntários laicos que labutam para marcar a diferença. Já está na altura de o Vaticano se inspirar nessa vertente sublime - eu diria mesmo divina - da Igreja Católica, seguindo o exemplo desses obreiros da Igreja cuja magnificência não está no trajo que usam mas no altruísmo. Bastam, só por si, para fazer sorrir a Virgem Maria.
"Outro dia
Montanhas longe alagadas de rosa pálido. O sol já se pôs aqui, as árvores estão mais escuras, os prédios indecisos parece que vão cair. Em baixo passa uma menina de branco, chapéu e vestido brancos, numa bicicleta. Um chapéu de abas largas. Ali mais para a esquerda os montes estão azuis. Uma tristeza enorme me torna prisioneira solitária de uma ilha e mesmo assim sinto-me senhora do mundo. A minha janela é alta e a beleza deste morrer do dia tamanha. Já a menina deslizou e sumiu-se como uma flor pelo asfalto cinzento a rolar. E eu fui assim como uma gota que de mim inteira resvalasse."
Matilde Rosa Araújo
(in Árvore - folhas de poesia - 1º fascículo, Outono de 1951)
QUICHE - iguarias q. b.
Use uma base de massa quebrada ou folhada, refrigerada (não congelada). Desenrole, aproveitando o papel pois assim não precisa de untar a forma que vai usar.
Bata 2 ovos inteiros com um pacote pequeno de nata e 2 colheres de sopa de farinha de trigo. Tempere de sal e pimenta.Reserve.
Ao preparado anterior pode juntar, azeitonas, salsa, um pouco de cebola picada, alho picado, miolo de camarão ou lascas de bacalhau ou de atum. Se tiver frango, junte frango, chouriço, espinafre, courgette cortada pequenina, enfim...Leve ao forno cerca de 40 minutos. Fica excelente e acompanha com uma boa salada, verdura salteada ou mesmo esparregado. Bom apetite.
quarta-feira, abril 21, 2010

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
"A casa pia baptismal"
fonte: jornal i
"Começo já por dizer que tenho formação católica: sou baptizado, andei na catequese e fiz a primeira comunhão. Perante as recentes revelações de pedofilia na Igreja, acho que me safei de boa. Sinto-me como se tivesse andado com um colete de steward num túnel com o Hulk e tivesse saído de lá sem um arranhão. Pensando bem, se calhar o que me salvou foi não ter voz para cantar, não fui para o coro. No entanto, perante este escândalo de proporções bíblicas, muitos defensores da Igreja vêm com o argumento infantil de que em todas as profissões há pedófilos. Ou seja, para estes católicos, um padre tem tanta probabilidade de ser pedófilo como um motorista da Casa Pia, o dono de uma casa de alterne ou um decorador de interiores. E a criancice argumentativa continua, quando dizem que se atacam demasiado os padres em comparação com os cantores, os realizadores, os apresentadores, os actores ou os poetas, só porque estes são artistas. Mas a malta do espectáculo sempre foi associada a uma vida promíscua: luxúria, drogas, álcool, água com sabores, ou seja, ambientes propícios a comportamentos desviantes. Por isso, e apesar de o crime ser igualmente grave, é natural que a pedofilia num ambiente religioso provoque maior indignação. A não ser que Bertones, Saraivas e companhia também queiram comparar óstias com pastilhas de ecstasy, missas do Galo com rave partys, e sacristias com... sacristias. Antigamente, quando os filhos queriam ir para o mundo artístico eram reprimidos. Agora, se um filho disser aos pais que quer ser padre, arrisca-se a levar um par de estalos."
José de Pina
"Começo já por dizer que tenho formação católica: sou baptizado, andei na catequese e fiz a primeira comunhão. Perante as recentes revelações de pedofilia na Igreja, acho que me safei de boa. Sinto-me como se tivesse andado com um colete de steward num túnel com o Hulk e tivesse saído de lá sem um arranhão. Pensando bem, se calhar o que me salvou foi não ter voz para cantar, não fui para o coro. No entanto, perante este escândalo de proporções bíblicas, muitos defensores da Igreja vêm com o argumento infantil de que em todas as profissões há pedófilos. Ou seja, para estes católicos, um padre tem tanta probabilidade de ser pedófilo como um motorista da Casa Pia, o dono de uma casa de alterne ou um decorador de interiores. E a criancice argumentativa continua, quando dizem que se atacam demasiado os padres em comparação com os cantores, os realizadores, os apresentadores, os actores ou os poetas, só porque estes são artistas. Mas a malta do espectáculo sempre foi associada a uma vida promíscua: luxúria, drogas, álcool, água com sabores, ou seja, ambientes propícios a comportamentos desviantes. Por isso, e apesar de o crime ser igualmente grave, é natural que a pedofilia num ambiente religioso provoque maior indignação. A não ser que Bertones, Saraivas e companhia também queiram comparar óstias com pastilhas de ecstasy, missas do Galo com rave partys, e sacristias com... sacristias. Antigamente, quando os filhos queriam ir para o mundo artístico eram reprimidos. Agora, se um filho disser aos pais que quer ser padre, arrisca-se a levar um par de estalos."José de Pina
Subscrever:
Mensagens (Atom)













