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segunda-feira, setembro 16, 2013

as premonições de Natália Correia...

 
As premonições de Natália 

"A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista".

"A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!"

"Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente".

"Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica".

"Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão".

"Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?"

"As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir"."


Natália Correia

Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993


Todas as citações foram retiradas do livro "O Botequim da Liberdade", de Fernando Dacosta.


"A nossa entrada (na CEE) vai provocar gravíssimos retrocessos no país, a Europa não é solidária com ninguém, explorar-nos-á miseravelmente como grande agiota que nunca deixou de ser. A sua vocação é ser colonialista".

"A sua influência (dos retornados) na sociedade portuguesa não vai sentir-se apenas agora, embora seja imensa. Vai dar-se sobretudo quando os seus filhos, hoje crianças, crescerem e tomarem o poder. Essa será uma geração bem preparada e determinada, sobretudo muito realista devido ao trauma da descolonização, que não compreendeu nem aceitou, nem esqueceu. Os genes de África estão nela para sempre, dando-lhe visões do país diferentes das nossas. Mais largas mas menos profundas. Isso levará os que desempenharem cargos de responsabilidade a cair na tentação de querer modificar-nos, por pulsões inconscientes de, sei lá, talvez vingança!"

"Portugal vai entrar num tempo de subcultura, de retrocesso cultural, como toda a Europa, todo o Ocidente".

"Mais de oitenta por cento do que fazemos não serve para nada. E ainda querem que trabalhemos mais. Para quê? Além disso, a produtividade hoje não depende já do esforço humano, mas da sofisticação tecnológica".

"Os neoliberais vão tentar destruir os sistemas sociais existentes, sobretudo os dirigidos aos idosos. Só me espanta que perante esta realidade ainda haja pessoas a pôr gente neste desgraçado mundo e votos neste reaccionário centrão".

"Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?"

"As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis. Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo. A Comunidade Europeia vai ser um logro. O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de Abril, e Estado Social e a independência nacional sofrerão gravíssimas rupturas. Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e de comida. Espoliada, a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres. A indiferença que se observa ante, por exemplo, o desmoronar das cidades e o incêndio das florestas é uma antecipação disso, de outras derrocadas a vir"."



Natália Correia

Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 — Lisboa, 16 de Março de 1993


Todas as citações foram retiradas do livro "O Botequim da Liberdade", de Fernando Dacosta.

quarta-feira, setembro 12, 2012

João XXIII - opinião de Miguel Torga

"Morreu o Papa.Mas um Papa singular, que usou o nome dignatário de João XXIII e se manteve fiel ao anodino de Ângelo Roncalli, cujo rosto de via primeiro que o esplendor da tiara, por quem neste momento os crentes e os ateus do mundo inteiro. Um Papa que apontava o céu e mostrava a terra, que falava de Deus a pensar no Homem, que carregava a cruz da infalibilidade com a bonomia dum céptico, que semeava na alma dos próprios laicos o trigo da santidade, que abençoou todas as revoluções justas da História, cheio de saber que as injustas não são revoluções... Bom, daquela bondade que o instinto colectivo adivinha e nenhum artifício imita, antes que nas suas palavras brilhasse a inteligência que continham, reluzia nela a sinceridade que as ditava. Os impulsos afectivos saíam-lhe do coração tão espontâneos e certeiros, tão justos e oportunos, tão puros e amplos, que dá vontade de escrever que ele foi o amor ecuménico dos Evangelhoa ao natural."
 
Coimbra, 3 de Junho de 1963

Miguel Torga

Nota da Redacção - Miguel Torga era ateu....

domingo, setembro 09, 2012

"qual o papel da juventude no Mundo?"

" Quanto ao papel da juventude no mundo, igualmente teríamos de saber de que juventude se trata e de que mundo. A interrogação refere-se à juventude universitária? À proletária?À rural? E qualquer delas actua em que sector da terra?Aqui?Ali?Acolá?Claramente que um jovem pastor que guarda ovelhas na serra não pode exercer uma acção semelhante à do moço que estuda filosofia e se manifesta no seu jornal académico. E também não será igual à de outras, em melhores condições sociais, o papel desempenhado pela juventude nada e criada em territórios menos desenvolvidos material e culturalmente. Etc., etc.
    Mas talvez que possamos meter o mar numa concha e dizer, em síntese, que, rica ou pobre, letrada ou analfabeta, pelo simples facto de existir, toda a juventude é como que a consciência alarmada da velhice.
   E acrescentar mais isto:que o presente apenas se justifica na esperança do futuro. E que a juventude é precisamente o futuro, na medida em que só ela o tem nas mãos."

in: "Diário IX" , de Miguel Torga
texto escrito com data de 21 de Fevereiro de 1962

domingo, julho 29, 2012

lendo....Miguel Torga


Pitões das Júnias, Barroso, 8 de Setembro de 1983 - Só vistas, a aspereza deste ermo e a pobreza do mosteiro desmantelado. Mas canta dia e noite, a correr encostado às fundações do velho cenóbio beneditino, um ribeiro lustral. E o asceta e o poeta que se degladiam em mim, de há muitos peregrinos desta solidão, mais uma vez se conciliam no mesmo impulso purificador, a invejar os monges felizes que aqui humildemente penitenciaram o corpo rebelde e pacificaram a alma atormentada. O corpo a magoar-se contrito no cilício quotidiano da realidade e a alma a ouvir de antemão, enlevada, a música da eternidade.

MIGUEL TORGA, in "Diário XIV"

quarta-feira, julho 11, 2012

lendo....



...."Leiam um jornal. O jornal condensa todo o drama.Pelo jornal reconstituir-se-á mais tarde a nossa época inteira.
Nada mais doloroso do que este noticiário da Vida, que enche todos os dias as colunas dos periódicos. Esta folha de papel amachucada, cheirando a tinta de impressão, traz consigo saburras de desgraça, risos, lodos, gritos, a alma humana estateladsa e a sangrar. O jornal é um drama bem mais vivo e doloroso, do que os que se arrastam para o tablado. Desde a última coluna dos anúncios até ao primeiro artigo, toda ela grita misérias, ambições, sonhos, raivas e torturas. É a alma humana contada numa forma gelada e banal, - como quem diz a  tragédia balbuciada.
O homem indiferente lê e passa para a luta, bem cheio da sua própria desgraça, para se importar com a desgraça dos outros. Egoísta, agarrado ao sonho, mal entrevê, através da tinta negra, quantos gritos, quanta aflição contém aquela folha ainda húmida que amarrota no bolso.
É que a vida moderna é exasperada e feroz. Para a frente!para a frente!Parar é morrer;parar é a gente sentir-se calcado pelos que vêm atrás, ofegantes,de unhas afiadas, prontos a despedaçar, contanto que cheguem mais depressa aos seus fins. É uma correria de seres borrados de ambição, agatanhando-se, metendo os ombros, com as mãos suadas, cerrados os dentes, prestes a tudo, até a matar, desde que consigam deitar os gadanhos ao que desejam. O céu agora é a terra, rapaziada!...
Neste áspero combate da vida é preciso dormir-se, não como os antigos cavaleiros, de armadura vestida, mas, o que é pior, com cérebro afiado-e, sobretudo, não ter coração. Endurecê-lo, emp+ederni-lo, torná-lo mais seco que a secura, e mais duro que o aço. Parar, para ouvir gritos dos que tombam, é ser esmagado; ter piedade do sofrimento alheio, dos pobres, dos fracos, dos sonhadores, é arriscar-se a gente a ficar sob os pés dos que caminham e calcam furiosamente."....

in: "O Padre", Raul Brandão

domingo, julho 01, 2012

lendo: "Trás-os-Montes"

"...Teodoro mantinha o fascínio pela luz eléctrica, desde a altura em que instalaram os postes de iluminação no Largo da Lameira. Em casa dele também já havia luz, mas o avô mantinha ainda várias lanternas de bolso, para se orientar no caminho do estábulo ou do celeiro, nas tardes curtas de Inverno.
Por vezes, Oscar conseguia esgueirar-se de casa com a espingarda de pressão do avô e Teodoro ficava encarregue de levar a lanterna. Edgar aparecia mais tarde, para acertar nos pássaros que dormiam nas tílias ao fundo do Largo.Oscar apontava a lanterna para o alto e um disparo fazia estremecer as folhas até à queda de um corpo morto.
   Quando regressava a casa, com a lanterna do avô, Teodoro tinha uma vontade terrível de experimentar o brilho dessa lâmpada directamente nos olhos. Uma noite encostou a boca da lanterna ao olho direito e depois carregou no botão e accionou a luz que o iluminou por dentro. Mal desligou a lanterna entrou em pânico porque não conseguia ver nada, mas aquele terror de cegueira temporária passou e aos poucos recuperou a visão. Quando se preparava para entrar em casa percebeu que não alcançava como dantes o puxador da porta, porque havia um desiquilíbrio entre o olho esquerdo e o olho lesionado.Pore isso decidiu  aplicar a mesma dose de luz sobre o olho esquerdo para calibrar a visão e depois dirigiu-se a cambalear até ao burro encostado à manjedoura.Apontou o foco para aqueles olhos grandes e castanhos do animal, enquanto recuperava do efeito daquela espécie de mutilação. O burro assustou-se e começou a roçar-se contra a parede e a tentar resistir ao feixe de luz que lhe apontavam. Teodoro levou um empurrão do burro e depois correu pelas escadas até ao quarto, arrumou o foco no lugar e deitou-se vestido.À sua volta pequenos fogos rebentavam e impediam-no de adormecer, a pulsação não baixava e começou a contar os batimentos com uma preocupação crescente. A mãe e a avó estavam no balcão com as outras vizinhas, a aproveitar o freso da noite, mas não podia ir pedir ajuda ou queixar-se que o seu coração ia rebentar, por isso resistiu entre os pensamentos malignos e o receio de uma escuridão futura."....

TIAGO PATRÍCIO nasceu no Funchal em 1979 e viveu em Carviçais, Torre de Moncorvo.Licenciado em Ciências Farmac~euticas e estuda Literatura e Filosofia na Universidade de Lisboa.Venceu vários prémios de poesia e teatro."Tras-os-Montes" é o seu primeiro romance e foi Prémio Literário Agustina Bessa-Luís 2011


sexta-feira, junho 15, 2012

Desiderata


” Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

Tanto quanto possível, sem humilhar-se, viva em harmonia com todos os que o cercam.

Fale a sua verdade mansa e claramente, e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes: eles também têm a sua própria história.

Evite as pessoas agressivas e transtornadas: elas afligem o nosso espírito.

Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você.

Viva intensamente o que já pode realizar, mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde: ele é o que de real existe ao longo de todo o tempo.

Seja cauteloso nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia, mas não caia na descrença. A virtude existirá sempre.

Muita gente luta por altos ideais, em toda parte a vida está cheia de heroísmo.

Seja você mesmo. Não simule afeição nem seja descrente do amor, porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto ele é tão perene quanto a relva.

Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas, seja compreensivo aos impulsos inovadores da juventude.

Alimente a força do espírito que o protegerá no infortúnio inesperado e não se desespere com perigos imaginários: muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

À despeito de uma disciplina rigorosa seja gentil consigo mesmo.

Assim como as estrelas e as árvores, você é filho do Universo, merece estar aqui, e, mesmo que você não possa perceber, o Universo segue cumprindo o seu destino.

Esteja em paz com Deus, como quer que você o conceba. Quaisquer que sejam os seus trabalhos e aspirações, da fatigante jornada pela vida, mantenha-se em paz com sua própria alma.

Acima da falsidade, do desencanto e das agruras, o mundo ainda é bonito.

Seja prudente e faça tudo para ser feliz!

Max Ehrmann (1872-1945)

quarta-feira, junho 13, 2012

lendo....

"-É artista?pintor?poeta?
-Não;sou simplesmente um atónito.
Ergui a cabeça e olhei-o sem responder.
-Para mim, continuou ele, o facto essencial e pasmoso das coisas é elas realmente serem.O facto de qualquer coisa ser é milagroso. O outro facto milagroso é estar eu aqui, a ter a consciência que elas são. Gozo este horror com todas as formas da minha alma. Conheço bem que nem as coisas são o que parecem, nem eu o que me sinto ser.A natureza transcende-se a si próprioa.Eu sou muito mais do que sou.Se isto lhe parece um paradoxo, a culpa é do Universo, que é paradoxal.-A Natureza é espírito, porque é uma ideia minha. Mas é uma ideia minha de uma realidade de que essa ideia é uma ideia.Por mais ligeira que seja à vista, só vê o lado da realidade que está criado para ela.
     Para mim, a Natureza é alma. A aurora, a tarde, a noite-o próprio dia-são para mim fenómenos espirituais.Olho-os como coisas minhas.Se na minha vista parcial dela é tão bela a natureza, como não será em solidez espiritual?
     Cada hora é para mim uma revelação.Dou cada minuto grças a Deus de ter esse minuto por meu."....

in:"O Mendigo e Outros Contos", Fernando Pessoa

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Charles Dickens nasceu há 200 anos

Texto: Charles Dickens
“…Neste mundo nunca somos mais bem enganados do que por nós mesmos. Que aceitemos de outros, ingenuamente, uma moeda falsa, já é bastante inconcebível à luz do bom senso; mas que em perfeito conhecimento de causa tomemos por dinheiro bom as moedas falsas fabricadas por nós mesmos, é sem dúvida um fenômeno psicológico dos mais curiosos! Se um amável desconhecido, sob pretextos de pôr em segurança o nosso dinheiro, consegue que lho demos, e nos fornece como garantia um punhado de cascas de nozes, certamente ficaremos muito surpreendidos quando vimos que fomos ludibriados. No entanto, o que é uma falcatrua em comparação com o que fazemos quando guardamos cascas de nozes como se fossem moedas de ouro?…”
 
(Trecho do livro GRANDES ESPERANÇAS)

terça-feira, novembro 08, 2011

Caridade

"Toda a virtude que entre os homens se manifesta, logo lhes arranca uma admiração, é mais cheia de perigos do que um aroma muito sensual, ou um canto muito amoroso. A mais humilde esmola,a chaga de um mendigo que se lava, uma simples consolação, desde que se mencionem, são perigos terríveis para a alma, porque a persuadem da sua caridade e excelência. Pelo bem que semeamos nos outros, só colhemos dentro em nós orgulho - e cada obra da nossa caridade desmancha a obra da nossa humildade."

Eça de Queirós, in Últimas páginas

domingo, novembro 06, 2011

Coerência

Não me preocupa a originalidade nem a coerência

Não me preocupa no que penso em a originalidade ne a coerência. Quanto à primeira, tudo aquilo com que concordo passa a ser meu - ou já meu era e ainda não se me tinha revelado. A minha originalidade está só, porventura, na digestão que faço. Pelo que respeita à coerência, bem me rala; o que penso ou escrevo hoje é do eu de hoje; o de amanhã é livre de, a partir de hoje, ter sua trajectória própria e sua meta particular.Mas, se quiserem pôr-me assinatura que notário reconheça, dirão que tenho a coerência do incoerente e a originalidade de não me importar nada com isso.

AGOSTINHO DA SILVA  in:Pensamento em Farmácia de Província

terça-feira, outubro 25, 2011

excerto de O MEU DIÁRIO - 9 de Outubro de 1910

"Oh meu Deus; nestas ocasiões é que eu queria ver por dentro estes homens lívidos e com um sorriso estampado na cara, que sobem e descem as escadas dos ministérios, para aderirem à República! É este e aquele, os que estão ameaçados de perderem os seus lugares, as altas situações, o poder. Os tipos não importam - o que importa é o fantasma que transparece atrás da figura; o que importa é o monólogo interior, as verdadeiras palavras que não se pronunciam, o debate que não tem fim, o que nestas ocasiões ruge lá dentro sem cessar. Escutá-los a todos! possuir o Dom mágico de ouvir através das paredes e dos corpos!... Toda a noite, toda a noite de Cinco de Outubro quantos perguntaram ansiosos: - Quem vai vencer? onde é o meu lugar?... Bem me importam a mim as tragédias e as mortes!... Interesses, ambição, medo, tantos fantasmas que nem eu supunha existir e que levantam a cabeça!...
Não há nada que chegue a estes momentos históricos em que o fundo dos fundos se agita e remexe, para cada um se avaliar e saber o que vale uma alma...
E o desfile segue - o desfile dos que sobem as escadarias dos ministérios, dos que descem as escadarias dos ministérios, uns já com o olhar de donos, mas vacilantes ainda, sem poderem acreditar na realidade, outros com um sorriso estampado que lhes dói. Estamos todos lívidos por fora e por dentro..."

Raul Brandão
(incluído no "Tomo II" de Memórias - edição de José Carlos Seabra Pereira, Relógio d'Água, 1999 - Obras Clássicas da Literatura Portuguesa / Séc. XX)

domingo, outubro 23, 2011

estou a ler....

 


...."Voltei ao sítio,já o Sol se pusera,
lancei o anzol e esperei.
Não creio que exista no mundo
um silêncio mais profundo que o silêncio da água.
Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci."


José Saramago
"O Silêncio da Água"
/Janeiro 2011)

quarta-feira, outubro 19, 2011

Lisboa


"...Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, ressona, soluça e cachimba. E se algumas lágrimas em ti caírem, vae-as enxugar depressa ao sol! Fica-te em paz! Os que têm alma não querem a luz dos teus olhos; pódes conumil-a a contemplar o ceu e os universos; por causa do teu olhar, sempre erguido para lá, ninguém terá ciumes do ceu!
     Os que têm coração, não querem as caricias das tuas mãos; pódes emmagrecel-as a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas para elle, ninguém terá ciumes de Deus!
      Tu tens a belleza, a força, a luz, a graça, a plastica, a agua resplandecente, a linha magnifica! resigna-te, oh Lisboa querida, oh clara cidade bem amada, oh casta graça silenciosa, resigna-te, oh doce Lisboa, coroada de ceu, resigna-te - a não ter alma!"

In: "Prosas Barbaras", Eça de Queiroz
2ª edição, 1909, Lello & Irmão, Porto

Nota da Redacção - O "tukakubana" faz hoje três anos. A todos os meus visitantes ou seguidores, o meu obrigada.

segunda-feira, outubro 17, 2011

A Ignorância Propaga-se Mais Rápidamente Que a Inteligência

Voltaire preferia a monarquia à democracia; na primeira basta educar um homem, na segunda há necessidade de educar milhões - e o coveiro leva-os a todos antes que dez por cento concluam o curso. Raro percebemos as partidas que a limitação da natalidade prega aos nossos argumentos. A minoria que consegue educar-se reduz o tamanho da família; a maioria sem tempo para se educar procria com abundância; quase todos os componentes das novas gerações provêm de famílias cujas rendas não permitiram a educação da prole. Daí a perpétua futilidade do liberalismo político; a propagação da inteligência não está em compasso com a propagação dos ignorantes. Daí ainda a decadência do protestantismo; uma religião, do mesmo modo que um povo, não vinga em consequência das guerras que vence, senão que dos filhos que gera.

Will Durant, in "Filosofia da Vida"

quarta-feira, agosto 17, 2011

A questão do melro

ISAAC FOI BUSCAR UMA GARRAFA DE UÍSQUE e beberam aos mortos. Depois adormeceram no sofá.
De repente, Isaac Dresner acordou e agarrou-se ao vestido de Adele.
- O melro.
- Que é isso do melro?
- Preciso de um uísque. Eu, quando era miúdo, fui apenas uma voz, uma coisa sem corpo debaixo da terra. Esqueci-me da claridade e do mundo e um dia saí daquela caverna e vi a luz do dia, a mesma de que Platão fala. Estava no meio de uma loja de pássaros. De canários que eram pardais pintados de amarelo, desbotados; de bengalins mosqueados, de conures e de cabeças-de-ameixa. E lá fora estavam os restos do mundo, o que sobra da guerra, e em cima do que restava do mundo estava um melro. Dei a mão ao Sr. Vogel e, enquanto olhava para o melro, um soldado veio falar comigo. Já não era um homem, aquele soldado, era mais um despojo do mundo, como um resto de comida. Via-se bem nos olhos dele que lá dentro, dentro dele, estava um vazio aberto com bombas. Sabe, menina Varga, quando um homem vive faz assim: conhece todas as assoalhadas da sua casa. Todas. Vai abrindo porta atrás de porta até somente restar uma. E pensa que já só falta aquela assoalhada. Por isso é que há aqueles cientistas que dizem que basta explicar não sei quê para saber tudo. É a assoalhada deles. Todos nós conhecemos a casa onde habitamos, porta atrás de porta. Quer mais uísque? E, dizia eu, que falta apenas uma porta. Um dia, cheios de coragem, resolvemos abri-la. Só falta uma assoalhada. E então deparamo-nos com algo insólito: a porta não dá para assoalhada nenhuma, a porta dá para a rua. Está a ver? Para a rua! E essa rua está cheia de casas cheias, por sua vez, de assoalhadas. Eu, no outro dia, abri essa porta e fiquei ali parado durante minutos. Foi como quando abri o alçapão e subi para a loja de pássaros e depois para a rua. Aquilo era um novo mundo. Como é que nunca tinha visto aquilo? Um mundo inteiro com árvores e tudo, um lugar onde se voa fora de gaiolas. As minhas pernas começaram a tremer e até cheguei a vomitar. Fechei a porta com força, mas tinha entrado um melro. O mesmo melro que tinha visto em miúdo. Este que você não vê.
- Não vejo.
- Está mesmo aqui - apontava para o ombro esquerdo. - Isto é aquele mundo. Se um dia perceber este pássaro, percebo aquela paisagem. É a maior assoalhada que um homem pode desejar, com campos verdes e árvores. Quando era miúdo aquilo era um mundo devastado, mas no outro dia, quando abri a porta, era um sítio bonito como aquelas gravuras das revistas dos jeovás. A única porta que nos falta abrir no nosso apartamento é a da rua. Lembre-se disso, menina Adele, lembre-se disso. Agora vou contar-lhe como foram as últimas palavras do seu avô. Ou melhor, não foram bem as últimas, mas andaram lá perto.
Afonso Cruz

(in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010)