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domingo, julho 05, 2015

Entre aflitos e aliviados

“Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coacção, ou por devoção.”
Miguel Torga, Diários 1948
Poucos foram os que não reagiram aos “alívios” de um magistrado da Nação,
sobre a privatização da TAP. O que para a maioria é sinal de discórdia e aflição é assim um lenitivo para outros. Mas não foi o único alívio ou invocação já que em Maio de 2013 atribuía a Nossa Senhora de Fátima o bom termo da 7ª avaliação da troika para em Abril passado agradecer a Deus a rede de instituições de solidariedade e cantinas take-away sociais que possuímos, graças a pobreza gerada por políticas cegas.
Neste país é moda aliviar os serviços públicos a favor dos privados, a preço da pataca, fazendo o eco um vice que corre mundo, graças aos contribuintes, falando no nome de Portugal e gritando “vender, vender, vender”. Outro personagem que se sentiu aliviado em Fevereiro de 2003 atribuindo à Senhora de Fátima o facto da maré negra do “Prestige” ter escolhido as costas espanholas em vez das portuguesas.
Também a ministra da agricultura num período de seca invocou poderes divinos esperando que chovesse; mas logo acrescentou de que persistiria na sua fé apesar da canícula.
Podemos então concluir que a maioria da classe política não acredita nas suas aptidões de simples humanos e, quando mais lhe convém, banaliza o que deve ser de foro íntimo.

- Em Espanha vigora desde o dia 01 deste mês a lei que os nuestros hermanos apelidam de “lei da mordaça” e que consiste numa série de restrições. Não se pode fotografar polícias (lembram-se de Guimarães, no futebol?), não há manifestações em frente ao parlamento, não se pode impedir um despejo selvagem de uma família infeliz a quem o Estado tira a habitação coercivamente, não se pode protestar em varandas de prédios ou terraços, não se pode opor resistência às forças policiais sentando-se pacificamente no chão e também não se pode incitar, nas redes sociais, ao protesto ou à manifestação. Deve haver mais alíneas de certeza pois o instinto fascista-liberal não se contenta com meias dúzias.
   Será que dará tempo, até ao fim da legislatura, que se aprove em Portugal lei similar?

- Não sei qual será o resultado do referendo na Grécia. Sei que me sinto mais grega que portuguesa, neste momento.
   Dos 240 mil milhões que a Grécia recebeu ao longo de anos de intervenção, apenas pôde aplicar 10% nas suas reformas internas e dinamização económica porque o restante capital alimentou bancos estrangeiros e pagou juros usurários a instituições.
Hoje, e ainda que digam que o governo grego recuou, é a Europa que se aflige, que treme, que faz contas, são os dirigentes europeus que temem dizer nos seus países o quanto custará a capitulação da Grécia. Chamar recuo à salvaguarda dos direitos de um povo, é vergonhoso.
E nas notícias diárias vemos quem cede e recua, oferendo prolongamentos, perdões, taxas acessíveis, mudando a voz grossa da infantilidade para uma voz mais serena de maturidade.
Lá como cá, os povos não devem estar de joelhos perante políticas que não servem a democracia ou o voto. Não é possível deitar um país abaixo em quatro meses ou em seis anos.
É preciso desenrolar a História e reconhecer os erros.

Maria Teresa Góis


domingo, junho 07, 2015

Cortesias e chapeladas

      “Nunca se mente tanto como em vésperas  de eleições,  durante a guerra e depois da caça.”

Otto Bismarck




 Ao fim de quase quatro anos e a escassos meses de eleições, o primeiro ministro de Portugal descobriu a Madeira.
Com o amigo Miguel no poder e fora dos venenos de Alberto João Jardim, sentiu-se em segurança para visitar uma parte do país que, década a década, tem sido a sala de chutos do seu partido. Só assim se chega às verbas astronómicas regionais de sinal menos que são do conhecimento público. E, sem qualquer pejo, diz nunca ter sido convidado. E desde quando um político consciente precisa de convite para visitar o país? Convites são para as queijarias…
Mas ei-lo, bem-disposto, cheio de consensos, de novidades. A Madeira tremeu? Não, os sismos tinham-se verificado dias antes lá para as bandas das Desertas e nem sequer os sentimos!
Começo pelos transportes. Por mar: comissão de análise para lançar um concurso público internacional. Não tem o Governo Regional capacidade de diálogo e de o fazer poupando uns bons milhares à Madeira? Enquanto o pau vai e volta, podemos esquecer o curto, talvez mesmo o médio prazo. Por ar: tarifas de ida e volta inferiores a 90 €. Compreendem as taxas, as bagagens, a futura privatizada TAP será obrigada com a mesma frequência a este serviço público? Será o Governo Regional a suportar, tal como nos Açores, o diferencial de custo? Ninguém sabe, mesmo que todos os Madeirenses sonhem. Ou seja, todas estas decisões poderão cair de bandeja no regaço de um próximo governo que poderá não ser do mesmo quadrante político. Assim é fácil, é como o crente que faz as promessas à espera de primeiro ver realizado o pedido e só depois o paga.
O Hospital tão necessário, tão prioritário, apesar dos cofres cheios, é mais um assunto para a futura legislatura que há-de, depois, conhecer outros argumentos adiáveis.
Os juros da dívida regional mantêm-se sem apelo nem agravo, apesar das taxas correntes serem bem mais baixas. E que dizer do IVA, que tanto onerou a vida de todos os madeirenses? Do subsídio de insularidade, vigente nos Açores, que aqui caiu em buraco fundo?
Mas, apesar de tudo, vamos ter “casório” com direito a fraque e chapéu alto. Tudo o que o CDS tem vindo a defender, a apontar, a criticar, ao longo dos últimos anos, virou acordo pré-nupcial. Talvez seja essa a única maneira de certas figuras ambiciosas e contestadas, terem lugar na Assembleia da República.
E o líder do CDS ainda hoje (dia 04) afirmou “não querer regressar ao passado da dívida do governo Sócrates e dos governos Socialistas.” Será que a dívida do país é menor, será que os portugueses estão melhor, será que a canga da austeridade virá a ser menor? E aconselho, a quem tenha dúvidas, pesquisar como nasceu e aumentou essa dívida rolante, mesmo antes do último governo.
Portugal perdeu todas as empresas chave, toda a economia independente. Hoje estamos na mão de estrangeiros e há várias gerações obrigadas a ir para o estrangeiro. Os que cá ficaram sujeitos às leis liberais aprovadas, sofrem a incerteza da condição digna de vida, da certeza de continuidade de um emprego. Os que o têm.
O país não está melhor não. A classe política reinante talvez, ainda que o PR e a ministra das Finanças se queixem dos magros e esticados salários auferidos.

Maria Teresa Góis

 

domingo, maio 10, 2015

Pessimismo

“Há campanhas que podem ser poesia mas governar
é uma prosa.”                                                                         



José Sócrates



Não sou pessimista de formação ou por opção, costumo racionalizar e interiorizar as realidades procurando a famosa “ponta por onde se lhe pegue”. Mas há dias que não pode ser assim…
Portugal é o 4º país com mais desemprego jovem (OCDE 13/04/15) – gerações comprometidas, futuro civil do país comprometido. É o 11º com maiores impostos sobre o trabalho (idem 15/04/15), é o 3º com mais mortes por pneumonia (idem 05/05/15). O Observatório sobre Crises Alternativas (27/03/15) estima que a taxa de desemprego real teria chegado aos 29% no caso de não ter acontecido a emigração recente. Do governo, todos os dias, salta a palavra competitividade e esta semana foi abanada a bandeira da criação de cento e trinta mil empregos (precários, diga-se em abono da verdade) esquecendo virar a folha do apontamento para referir os quase 464 mil postos de trabalho destruídos em três anos.
São datas muito próximas que nos dão a clareza do estado péssimo e pessimista do país.
Mais, somos o 11º país do mundo com mais idosos em percentagem de população, idosos a quem minguam a pensão, o acesso à saúde, à qualidade de vida e agora, se internados num lar (IPSS) terão de pagar mais. Não tendo posses o mesmo pagamento terá de ser suportado pelos netos, sobrinhos, enfim, talvez até à 5ª geração. E são já quarenta mil, segundo os dados desta semana da GNR, os que em território do Continente vivem sós, milhares deles completamente isolados.
A crise é tão grande que “Quina”, a carteirista mais antiga do Porto, de 85 anos, assaltou outra idosa de 92  aproveitando a confusão da queima das fitas. De certeza que não tem meios ou razões para se reformar, continuando em plena actividade.
Pois se a maioria da população não crê na honestidade política e é confrontada com casos todos os meses, todas as semanas, que exemplos têm as “Quinas” deste país?
A meses de eleições gostava que o povo que resta se mobilizasse e fosse espremer e exprimir a sua preferência. Estou pessimista quanto à cobertura dos tempos de antena vários pois o governo já aproveita para aparecer, diariamente, em comunicados, festas de aniversários, visitas e feiras. Como sabemos as tendências patronais dos diversos órgãos de informação eu, pessoalmente, não acredito nessa isenção. É tal qual o Jornal da Madeira que, preso por um contracto blindado nos vai levar bem perto de mais dois milhões de euros este ano. Se não podem alterar o preço de capa, alterem o preço do miolo! Não percebo como o JM tem, em média, tiragem de 15 mil exemplares (enquanto o DN tem 10 mil) e vejo pelos cafés, às resmas e muitas vezes ainda em atados, todos os dias serem jogados no lixo. Não podem descontar o desperdício e fazer tiragens mais pequenas, reduzindo os custos? E, afinal, quem “tramou” o JM? A própria Diocese e o Presidente do Governo Regional cessante.
“É a vida”…

Maria Teresa Góis

 

domingo, abril 12, 2015

Ai Abril, Abril

“ De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse


e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.”  


José Carlos Ary dos Santos


 Reza a informação que o nome “Abril” deriva do Latim Aprilis que significa “abrir” numa referência à germinação das culturas em época primaveril.
Abril lembra-me um povo que se sacudiu, que se libertou, que veio para a rua exorcizando os medos acumulados, que acabou com uma guerra que nos levava a juventude para o número de mortos ou para a emigração. Lembra-me que os livros, a música e até a simples Coca-cola tiveram alforria de pleno consumo, lembra-me que o singelo cravo vermelho ganhou outra importância, outro significado e novos apaixonados. Abril lembra-me que a Escola, a Saúde, o direito ao voto cívico, lembra-me a igualdade adquirida em tantos casos …
Quarenta e um anos depois quanto já nos foi retirado deste “25 de Abril” em nome de uma política que agride a própria Constituição? E, o pior, em actos cometidos por indivíduos insignificantes.
Pagam-se caro os gestos incompetentes e insensatos e o povo português sente bem na pele esta frieza suicida. Feita a experiência do erro podemos reencontrar caminhos, serenidades e estabilidades possíveis. Foi-nos prometida uma “campanha alegre” mas o procedimento triste tem de nos levar à escolha: recusa ou aceitação na continuidade.
São precisas mudanças e renovações com toda a força do significado que as palavras encerram; nada de paredes caiadas onde se desenhem grafitis com a assinatura dos mesmos autores.
É preciso que os mais novos conheçam a realidade do país antes de Abril de 1974, um país isolado e atrasado que muito recuperou três décadas depois, para que os “jotinhas” de vida facilitada tenham a noção do quanto as gerações anteriores sofreram e lutaram.
Quero ABRIL de volta; na alegria, na esperança, no convívio sem medos, na Liberdade!
E lembro alguns dos que em Abril de 2015 nos deixaram e contribuíram para essa Liberdade: Herberto Hélder, Manoel de Oliveira, Silva Lopes, Tolentino Nóbrega. Todos foram construtores reconhecidos que nem atraiçoaram a sua personalidade ou o seu povo, nem o grito de Abril.


Maria Teresa Góis

 

domingo, março 15, 2015

O canto da sereia e o canto do cisne

“Os verdadeiros democratas não são aqueles histéricos que exigem isto e reivindicam aquilo, que dizem que precisamos de não sei quê e que vamos todos morrer estúpidos se não fizermos não sei que mais. São os que vivem e deixam viver. São os que respeitam as opiniões, as excentricidades e as manias dos outros, sem ceder à tentação de os desconvencer à força” 
Miguel Esteves Cardoso   


Estamos a caminho das urnas! Tétricamente falando é este o termo certo que nos levará ao dia 29 de Março próximo.
E já ouvimos o canto da sereia que embeleza a realidade, promete futuros novos mais leves e navegáveis.
E há-de haver os que encantados, sem um Ulisses que os aconselhe, não porão cera ou silicone a tapar os ouvidos, para que não percam a tramontana. 
Ninguém será fielmente amarrado a qualquer mastro (poderia ser do ARMAS, não?) a fim de não sucumbir a tal encanto.
Os figurantes, na história pretensamente democrática da Madeira, são exactamente os mesmos. Uns terão mais experiência política (ou politiqueira) outros, se agora afastados, em breve reocuparão espaços porque, “há sempre lugar para mais um”…
De cantilena em cantilena, chegamos ao IVA mais elevado de Portugal, ao custo de vida mais elevado de Portugal numa pequena região onde o desemprego é o maior, malgrado as obras faraónicas cimentadas no terreno regional sendo que muitas delas inúteis.
Mas também temos o canto do cisne.
Hoje sabemos que a metáfora não significa a morte do artista mas a expressão derradeira de um gesto, de um esforço final de um desempenho que, à partida, poderá correr mal.
Saramago, sabiamente, deixou escrito que “o trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.”
Por isso, num processo eleitoral, muito gostaria que os eleitores pensassem nos últimos anos, ouvissem os avisos de que a “austeridade é para manter”, não na contenção das despesas do governo mas nos bolsos dos contribuintes, analisassem porque não há trabalho para uns mas há emprego para outros, porque demora um exame médico, porque, porque, porque…
Quem levantou a voz a favor dos mais desfavorecidos ou quem denunciou compadrios que só beneficiaram alguns, terá com certeza menos votação porque não tem jackpots de euros para propaganda dominical, mas terá a consciência mais tranquila porque sempre defendeu e protegeu o mais desfavorecido. Na habitação, transportes ou coisas tão simples como ter água potável na sua residência.
Já é tempo de atingir a maturidade quarenta anos depois do direito sagrado de escolha através do voto. A cidadania é também arcar com a consciência e consequência de uma escolha. A bem da Região! 

Maria Teresa Góis 


domingo, fevereiro 15, 2015

Por falar em mudanças....

     


Fevereiro tem tido dias particularmente frios, de brisas cortantes, humidades impiedosas, que nos chegam aos ossos. Todos reclamam e “cramam”. Até a Natureza parece cansada desta falta de sol e calor que faça medrar as sementes já lançadas à terra. É necessário que o tempo mude e que se mudem os tempos!
      Um é mandado pela batuta de S. Pedro segundo dizem, os outros devem ser obra de homens de pés bem assentes na terra.
      Uma obra pensada, planeada, equacionada, transmitida e admitida, para ser concretizada. É assim que eu entendo as mudanças.
      Os próximos dias, sobretudo nos fins de semanas, serão palcos, parlatórios de promessas, de ataques, jogos de empurra, de propostas desonestas porque ou são irrealizáveis ou têm os mesmos interlocutores. Claro que me refiro às eleições na Madeira mas, se olharmos ao país ou à Europa, tudo está em convulsão, em mudança.
      Na nação, segundo se apregoa, está melhor o país e a sua população. Mas depois, depois chegam os relatórios internacionais, as estatísticas nacionais e vemos os rácios, as curvas sinuosas, as percentagens, as comparações com outros anos e chegamos à conclusão de que estamos a ser ludibriados. Começa a ser banal a confissão pública de economistas enganados!
      O sentimento europeu fracassou junto dos povos da Europa, fomentou radicalismos, acentuou desigualdades. Morre o ideal europeu, a paz e regressa a noção de ter fronteiras.
      A UE funciona em função de tratados (e de tratantes) e o custo social destas políticas liberais ficará na história e, segundo estudos, estamos bem pior do que em 2008.
      Mas hoje há um país que ousa demonstrar liderança em vez de subserviência, que tem orgulho da sua nação e honra, sem se separar do continente europeu, da sua identidade. Quão diferente da governação lusa, sem anéis nem dedos, sem brios e patriotismos…
      Subscrevo Eça quando dizia: “Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o estado não tem – e homens não os há ou os que há são postos na sombra pela política.” (“Correspondência”, 1891).
      Sou descrente, portanto, em relação às mudanças regionais. Vejo continuidade na política dominante, com raras e boas alterações e não entendo a insegurança de não ver um PS concorrer só.
     No plano nacional é urgente uma mudança de mentalidade antes que o país desapareça e não me admiraria se, antes das legislativas, víssemos um bazar chinês instalado na Torre de Belém.
      Já quanto à Europa algo há-de mudar pela força da envolvência e diversidade internacionais. Aproximam-se tempos inquietos.



Maria Teresa Góis


domingo, janeiro 18, 2015

A palavra eleita em 2014

“Não há como a vox populi que tanto brada contra os ladrões, para depois ser profundamente indiferente à corrupção concreta.”  
Pacheco Pereira, in “Público”



 1 - O honroso 31º lugar que Portugal ocupa entre 175 países, segundo os dados da organização Transparency International de Dezembro passado, não leva em conta os casos dos vistos Gold, Sócrates, Duarte Lima, a PT, o BES e associadas. Talvez nem pondere as consequências BPN ou BPP, os Submarinos e o Cuba Livre arquivados e tantos outros processos que por aí proliferam sem culpas nem culpados, sem justiça ou jurisdição.
A escolha desta palavra só demonstra o contentamento luso em relação a quem governa. Ao “Público” disse um dia José Manuel Fernandes: “é o poder excessivo do Estado que alimenta a corrupção”.
Num ano em que somos, por obrigação cívica e até moral, solicitados a escolher quem nos governa, será óptimo não ser indiferente ou abstencionista. Verdade que é no quotidiano que encontramos as comparações e é nessas comparações que encontramos as afirmações na corda bamba da contrariedade.
Corrupção vem do latim “corruptus” (conforme pesquisei) que significa partido em pedaços e cuja forma verbal em si quer dizer “tornar pútrido”. Não admira as vagas de maus cheiros que assolam este pequeno país…
É na saúde, na educação, é na justiça, na fiscalidade, na arrogância ou moralidade com que nos falam ou nos arranjos partidários que sinto viva e ameaçadora essa corrupção.

 2 – Os acontecimentos regionais recentes não me entusiasmaram. A saída do Dr. Alberto João teria de acontecer mais cedo ou mais tarde. Mas sempre pensei que uma renovação de quadros iria ao encontro da “batalha” de há dois anos para cá, justificando um triunfo. Mas não, vejo os mesmos, os que bateram palmas, os que bateram palmadas, os que comeram e beberam juntos, os que amuaram ou ameaçaram, sentados nas mesmas cadeiras sem o respeito pela vassalagem outrora prestada, como se tivessem regressado da Diáspora 40 anos depois.
Estranho que o actual líder do PSD se lembrasse de celebrar o 01 de Julho com todos os partidos e esquecesse a celebração do 25 de Abril, razão que lhe dá, a si e aos seus pares, a legalidade de eleição.
Como não me entusiasma, e até me desgosta, ver uma oposição anémica, impreparada, que não tem em consideração o quanto pesam estes quarenta anos de “Jardinismo” na Madeira, sobretudo pelo impacto que teve e talvez ainda tenha, a nível de preenchimento de lugares e empregos.
Março ou Abril estão já aí – medeia apenas o tempo de fazer as malassadas…


Maria Teresa Góis

in:

domingo, dezembro 21, 2014

Ó meu Menino Jesus

Ó meu Menino Jesus

Boquinha de requeijão
Dai-me da Vossa merenda
Que a minha mãe não tem pão.
Ó meu Menino Jesus
Boquinha de marmelada,
Dai-me da Vossa merenda
Que a minha mãe não tem nada. 

                                                                                        Cântico tradicional Natal, Beira Baixa    


Nunca como nos dias de hoje estes versos singelos tiveram tanto peso, tanto significado.
Nos dados do INE relativos a 2012 a pobreza aumentou 19% tendo Portugal dois milhões e meio de habitantes pobres e mais 23% em taxa de risco de pobreza. Referente a 2012 pois, de lá para cá, a União Europeia baixou o marcador, sendo menor o índice com que se mede o rendimento médio das famílias mais baixo (409€).
 Que dados teremos até 2014?
Há oito mil crianças em instituições, crianças que bem podem cantar estas estrofes ao Menino Jesus, apesar da solidariedade portuguesa ser constante, consciente e activa. Apesar de tudo…
Se a pobreza infantil aumentou de 2012 para 2013 em 30%, que futuro teremos para esses pré-adolescentes, esses jovens, esses futuros adultos? Enquanto o povo partilha, o corte de prestações sociais no Orçamento para 2015 é de 272 milhões podendo chegar aos 372, aos 400. Reduz-se 2,8milhões no RSI, 6,7 milhões no complemento a idosos, 6,5 milhões no abono de família, 243 milhões no subsídio de desemprego e as apregoadas cantinas “take-away” ficaram no pregão, no show de tv.
São dados frios, calculistas mas são dados reais. São os dados que nos envergonham, que nos fazem regressar a décadas passadas que não podendo ser apagadas bem podiam ser esquecidas.
O contraste é o despesismo deste governo pelos dados que os próprios e o Tribunal de Contas, publicam.
Arrogantes, frios, incompetentes, hão-de ditar votos de boas festas, prosperidade para o novo ano, quiçá com lareiras ardentes em pano de fundo, esquecendo os aumentos de luz, de transportes, de impostos que nos destinaram, esquecendo o Espírito de Esperança de Natal porque votaram metade da população portuguesa a um empobrecimento determinado, sem que nada no país tenha melhorado.
Eu não os esqueço nem os perdoo, mesmo nesta quadra!
Do orgulho e da indiferença com que tratam os mais desfavorecidos não poderão sentir a Humildade, a Pobreza, a simplicidade, mas também a grandeza, o calor fraterno e universal, a mensagem de igualdade que emana do Presépio.
Que estes amargos de boca sejam breves como seja breve esta legislatura antes que o país desapareça do mapa com a nacionalidade lusa em leilão.
E porque não é repetitivo desejar Boas Festas, assim as desejo – com partilha, harmonia, saúde e muito poder de encaixe e de luta.


Maria Teresa Góis

domingo, novembro 16, 2014

A Praça do Povo

“A praça é do povo! como o céu é do condor”.
É o antro onde a liberdade
cria águias em seu calor.
Senhor, pois quereis a praça?
Desgraçada a população!
Só tem a rua de seu...
Ninguém vós rouba os castelos,
Tende palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
Mas embalde...que o direito
Não é pasto de punhal
Nem a patas de cavalo
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos Setembros!
Da plebe doem-se os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensanguentado
Diz: já não posso sofrer.
Castro Alves
(1847-1871)

Começam a rarear as inaugurações fulgurantes; já não se vê o vinho seco e a espetada em doses avulsas.
A democracia madeirense elegeu, por décadas, um líder querido que, segundo nos anunciou, em breve se despede. Na festa, em Dezembro próximo, não faltará uma queima de artifício de precisamente 1.046.679,48 € para encher de cor, barulho e fumo a festa da despedida.
Nessa noite os sem-abrigo da cidade do Funchal serão uns entre tantos, sem nada a celebrar e, quem sabe, incomodados com a invasão da “sua” nocturna propriedade.
A recém inaugurada Praça do Povo estará cheia de cor, alegria, promessas de amor, votos de prosperidade numa Babel de sentimentos.
Sob as lajes e os detritos de um temporal (porque a memória e a história não podem ser apagadas) muitos recordarão a tragédia de um dia de Fevereiro que parece já esquecido, a menos que a Natureza dê sinal de vida e no-lo recorde. Na praça 20 de Fevereiro!
“O governo assenta em duas coisas; refrear e enganar” diz Fernando Pessoa no seu desassossego lúcido.
Por cá engana-se sem refrear. As últimas notícias são férteis quer em providentes proponentes a queridos líderes quer em actos de alçada judicial. É um massacre noticioso e quotidiano de personagens que depressa esqueceram os trabalhos ciclópicos destas décadas e surgem hoje, como pitonisas, com carradas de soluções e projectos sistematizados, fadados a usar as moradias dos antecessores, com os mesmos vícios, as mesmas mobílias.
A praça enchesse-se sem o preito de uma sagração ou uma vontade una de mudança que abale as cenas carnavalescas com que somos brindados e convidados, sem opção de voluntarismo, a contribuir.
À beira mar sabe bem a brisa, o horizonte desconhecido prenhe de luz. Velhos e novos desfrutam o sol, o cheiro aromático de ervas, a novidade do espaço, a silhueta dos navios e o beijo violento do oceano; o chão frio, branco, irregular em tudo, atrai a multidão em festa.
E que um poeta não lembre, esquecendo o povo em festa, o som da praça vazia.

Maria Teresa Góis

foto: Danilo Matos

http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/481259-a-praca-do-povo

domingo, outubro 19, 2014

Cada vez mais pobres…

“A ironia fúnebre que há no sorriso de certos governantes! Dir-se-ia que se defendem já do juízo da História com a carapaça escarninha de uma náusea que abrange os próprios historiadores futuros.” Miguel Torga
In: Diário VII, 02 de Maio de 1954





Escrevo no dia mundial para a erradicação da Pobreza.

São doentios e muito preocupantes os números revelados. Não me referirei ao estado mundial pois bastam-me, tão só, os dados que o INE revela para o nosso país.

29,3% da população infantil encontrava-se, em 2013, em privação material ou seja, dos nove bens essenciais têm acesso a três. A Pobreza num agregado de um adulto com uma criança atinge 33,1% e se considerarmos dois adultos com três crianças os valores são de 40,4%

É nesta semana que foi parido um orçamento dito “pró família “por quem o elaborou. Assim sendo temos inscrito um corte de mais de 700 milhões no que respeita às verbas para a escolaridade obrigatória, um corte nos subsídios sociais sabendo que mais de metade dos desempregados não recebe qualquer subsídio de desemprego e que em 2015 menores serão as hipóteses de receber o RSI ou obterem trabalho.

As taxas ditas verdes em nada beneficiam à preservação do ambiente e servem para agravar no bolso de todos os portugueses custos do quotidiano, como os combustíveis, mas adejam como financiadoras das famílias com filhos. Quem os teve, já os criou e dado o estado do país os continua a criar neste conceito, já não será Família. São só 148 milhões a sacar…

Diz a Caritas e todas as outras organizações congéneres que há cada vez mais pedidos de auxílio. Pudera! Se um em cada quatro portugueses está em risco de Pobreza e, mesmo o salário mínimo e paupérrimo de hoje comparado a 1974, descontada a inflação, é inferior em 12 euros.

Mas também sabemos que este governo “pró família” entre 2012 e 2014 na despesa dos 56 membros que o compõem, gastou “apenas” mais 4,3 milhões de euros. Para quem queria ser poupadinho, é obra.

O PR acordou do seu mutismo e disse que o espectro político no país estava em risco de implodir. Crato já implodiu o ministério da educação e a meio do 1º período lectivo ainda há escolas sem professores; na Justiça a implosão não chegou a acontecer mas, segundo averiguações em curso, rolarão mais cabeças.

Por cá, no dia 08, a mega-super-notícia de que o processo “Cuba Livre” tinha sido arquivado.

Por feitio ou por defeito não me surpreendi. Revoltei-me, simplesmente, considerei ser obsceno. Quando declarações públicas de governantes ou de políticos encheram jornais acerca do caso, confirmando verbas escondidas, danças ocultas e manigâncias diversas, quando o desemprego, a emigração, a Pobreza e até os assaltos e roubos, a violência, se instalaram na Região por força consequente, assistimos ao arquivamento do processo. Volto a dar razão ao PR e, afinal, a Justiça também implodiu. É assim que acontece o 3º perdão da dívida fiscal da Madeira!

Há neste país uma casta de políticos transgénicos que merecem toda a repulsa. Não fazem bem à saúde e esgotam a terra onde semeiam. Nem o “delfinário” da sucessão consegue aprender com os erros cometidos e dá gozo ver as “virgens impolutas” a derramar virtudes nos “media”. Quando haverá limite de decência e responsabilização política?

E porque nem tudo é “reles” na nossa vida, assinalar os 138 anos do Diário de Notícias da Madeira. Há 43 anos que filio a máxima de que “dia sem Diário não é dia”.

Apesar de pressões e perseguições, boicotes e da crise económica que também o afecta, lá vai singrando, dependente dos seus leitores, de emigrantes, da publicidade, do empenho diário da sua equipa, dando ao quotidiano a paleta de cores informativa da Região e do Mundo, sem tiques esclavagistas. Bem hajam!

Maria Teresa Góis

domingo, setembro 21, 2014

Referendar

“Sabiá de Setembro tem orvalho na voz. De manhã ele recita o sol.”
Manoel de Barros

        Setembro referenda o Outono.

     Nos frios ainda pequenos, nas nuvens brancas, nos pingos grossos que adivinham chuvadas rápidas e vigorosas, no Sol que baixa e nos reduz os dias. Após um Verão recente, demasiado quente, demasiado seco, sabe bem voltar ao frescor das manhãs e dos fins de tarde.

     No mundo dos bípedes vivos há electricidades do mesmo nome que se repelem, sem nada deverem às leis da física, com ditos e atitudes que demonstram e bem, as respectivas personalidades.
Torga afirma que “a lusitana raça é barroca até no espaço pedagógico” e se analisarmos as polémicas actuais, políticas e nacionais, vemos que há um vazio irremediável feito de arrogâncias. Quem os acredita?
     Tudo, no nosso dia-a-dia, é efémero, incalculável ou promíscuo. Vemos uma correria de políticos, borrados de ambição, indiferentes ao povo, correndo em busca do palanque que antecipadamente reservaram.
    Moderno, agora, é pedir desculpa usando-a como um antinódoas público.
     Projecta-se, inventa-se, imagina-se sem pensar nas consequências, olhando às “poupanças” de um Estado que tem a mão larga para as elites, numa complicada e secreta alquimia.
      Talvez daqui a uns anos, se não prescreverem, as possamos perceber.
    Moderno, agora, é referendar, agitar as massas em nome de uma autonomia fiscal ou política. Referendar, aqui,  só se for em apneia!
    Por mim referendava a dívida da Região (quer a conhecida quer a oculta), referendava as obras inúteis que todos pagamos, o desemprego, a fome e a miséria, a emigração, a atribuição de subsídios e da sua necessidade, a eficácia da saúde e da educação.
     Referendava porque subiram os impostos na Madeira, porque é maior o custo de vida, as passagens aéreas, tendo o termo comparativo na Região Autónoma dos Açores que tem nove ilhas, terá oito ou nove aeroportos, vários hospitais, vários barcos de inter- ligações, mas que tem produção de lacticínios brilhante, de chás, de frutos, de vinhos e licores, de bordados e outras artes e dívida pública reduzida.
    Referendava ainda o horizonte de vida dos jovens, a solidão dos velhinhos, o desânimo dos que teimam em lutar!
    Também faria um referendo sobre a possibilidade de auferir, em simultâneo, mais do que um vencimento acumulativo ou pensão em tempo de vacas magras.

Nota - Não referendava o humor ou a estupidez natural porque são indispensáveis à boa relação humana…


Maria Teresa Góis

 http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/470426-referendar

domingo, agosto 24, 2014

A gosto ou talvez não...

“Se o desonesto conhecesse as vantagens de ser honesto, seria honesto ao menos por desonestidade.”
Sócrates, filósofo grego, séc. V,  a.C.


Um mês atípico em que as altas temperaturas e um céu azul puxado de lustro se alternou com cinzentas nortadas feitas de poeiras e arrepios.
Compensado por situações estranhas acabou por abanar um país adormecido, indiferente que em certos dias terá feito zapping na hora das novelas para ver telejornais. Externamente, as guerras de Gaza e Ucrânia dividem opiniões e escondem verdades que, recuando séculos na História, merecem uma análise aos factos e aos interesses vários das potências instaladas e obreiras de conflitos.
Internamente o caso GES é o mais preocupante. Depois da incredulidade e surpresa vivo certa revolta de como se pode brincar com milhares de postos de trabalho, com a média e pequena economia já tão débil, com as poupanças das pessoas e com o risco sistémico que a situação representa para a banca em geral e contribuintes. Que houve laxismo, compadrio, fugas de informação parece evidente pelas notícias que nos chegam, diariamente.
Entretanto temos em estudo e no horizonte próximo (para além da alienação total dos CTT) mais vendas de património global a estrangeiros, “a bem da nação” e perdemos o vínculo da portugalidade a uma velocidade espantosa! Destrói-se em poucos anos trabalhos de décadas!
Em Agosto todo o Portugal pula, bebe, “curte”, às dezenas de milhares, em festivais de Verão: gostaria de os poder ver “curtir” numa manifestação a bem da estabilidade dos próprios, dos progenitores e dos restantes habitantes do país.
Já que falei em música li que a Christina Aguilera decidiu chamar à filha recém-nascida Summer Rain (chuva de Verão).Não tarda teremos nascituros com nomes de Nuvem Cinzenta, Pingo de Chuva ou Raio de Sol, a lembrar a boa maneira apache.
Por cá, ou não fosse Agosto de areal a preço da uva mijona, vi um político regional criticar a mediocridade da classe política portuguesa (leia-se “continental”), sobretudo após o 25 de Abril, a tal data por sinal nunca celebrada pelas instaladas autoridades madeirenses, chamando-os de “chulos” e com “educação abandalhada”.
É obra, para a posterior história da Madeira, sobretudo quando em Agosto vem a público um buracão de 100 milhões à Segurança Social regional. Se isto não é mediocridade e chulice decerto será uma situação abandalhada.
Aconteceram as decisões constitucionais e já o governo central se afadiga em reinventar mais leis substitutas mas com o mesmo fim: lixar-nos.
Podemos assim dizer que não foi um Agosto silly mas há-de ser de certeza um ano em crescendo de PIB, de deficits, de impostos a curto prazo, de controvérsias e omissões.
De uma coisa tenho a certeza - da maneira como a saúde trata dos utentes se algum caso de Ébola for no luso território sinalizado, não haverá problema: tratam-lhe logo da saúde!

* por decisão da autora este texto não respeita o novo acordo ortográfico

 http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/465713-a-gosto-ou-talvez-nao%E2%80%A6

domingo, julho 27, 2014

Ponto, parágrafo

1-    Famigerada a prova de avaliação aos professores e a intenção subjectiva que a precede de, sacudindo a culpa própria, conservar no desemprego pessoas aptas e necessárias ao país. Defendo provas de avaliação para o desempenho político. E não querendo ser “incrata” acho também que “o que nasce torto tarde se indireita” como figurava no ponto 25 do enunciado. Só que sou mais pelo verbo de origem: endireitar.
2- O genocídio em Gaza perante um mundo que cruza os braços e umas quantas boas “intenções” sem que nada de concreto se realize. Desde 2007 que um apertado bloqueio oprime a Palestina, sem fronteiras de fuga, ladeada por muros de cimento no seu próprio território.
Aí vive um Povo, um povo a eliminar no dizer e fazer dos opressores, sem recursos hídricos ou energéticos, que vê os hospitais, escolas e mesquitas serem bombardeados, mesmo se acolhidos sob a protecção da ONU.
Tal como no Iraque, os EUA disponibilizam 47 milhões de US$ para a reconstrução, que nunca aconteceu, e em sede das Nações Unidas têm o único voto divergente.
A diferença no número de baixas dá-nos bem o fiel da balança e o motivo de tanto silêncio mundial.
3- A nova CPLP. Em cerimónias insólitas assistimos à eleição da Guiné Equatorial para este organismo. Avento já que se seguirá o assalto aos PALOP.
Um país de pena de morte ou, numa versão “light”, de execuções extrajudiciais, em que não se fala português, sem votação sequer, é eleito.
Falaram mais alto os interesses geoeconómicos, perante a “surpresa” do primeiro-ministro e do presidente da república de Portugal.
Posteriormente, surge a declaração que “Portugal não podia estar só”. Mas já esteve! Para levar Timor à libertação da Indonésia. E custou-me ver um Xanana que não conheço, que já esqueceu o chinelo de plástico que tantas vezes calçou, que tanto lutou pelo seu povo e tão oprimido foi, levar um ditador pela mão.
4- No passado dia 23 os EUA voltaram a executar com uma injecção letal um prisioneiro. Em vez de morrer em 10 minutos dizem que levou 2 horas. Talvez sejam mais “eficientes” na terra de Obiang.
5- Condeno o abatimento do avião civil na Ucrânia. Como todos, aguardo a leitura das caixas negras, espero que se faça justiça internacional e que seja este um ponto de partida para a finalização do conflito, deixando de fora os interesses de quem nem pertence à Europa.
São estas interferências economicistas que fomentam a guerra.
6- Os portugueses são dos cidadãos europeus mais insatisfeitos e pessimistas sendo que 96% considera “má” a situação económica do país e que o pior ainda está para vir. 38% receia cair numa situação de pobreza e 85% manifesta pouca confiança no governo. O estudo é do Eurobarómetro e foi publicado a 25 deste mês.
7- A anedota da imparcialidade do Jornal da Madeira seja em tempo de eleições, de festarolas na herdade, ou na época do Natal.
Ponto final parágrafo.

Maria Teresa Góis

 http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/461393-ponto-paragrafo

domingo, junho 29, 2014

Quanto baste - “q. b.”

Foi através da culinária, nos meus primeiros tempos, que me familiarizei
com esta sigla. Dei-lhe atenção devida, no início, mas a ideia e preocupação foi-se diluindo pelo tempo; a prática, o paladar e a tolerância deixaram-na cair no esquecimento.
Hoje em dia, porém, e pondo a culinária de parte, encontro todo o peso destes dois sinais gráficos nos mínimos momentos quotidianos.
Vejamos o que se passa na comunicação social, os media. Refiro-me à credível e isenta, que tenta trazer ao leitor ou ouvinte a informação “limpa” em cima da hora, sem histerismos. A esta tentam travá-la, despedem profissionais ao abrigo de uma contratação dita moderna e colectiva, descartam-nos por meros interesses políticos ou por grandes interesses económicos. Não usam o “lápis azul”, usam qualquer cor da caixa.
E temos a informação “q. b.”
Esta semana, contrariando o milenário invento da democracia, a fresca porque recente e luminosa ideia de quatro andantes que sempre defenderam e apoiaram o Apocalipse na Madeira, de renovar, anular, suprimir, substituir ou adulterar a Constituição Portuguesa, num sonho antigo de alguém importante, fechando de vez o Tribunal Constitucional.
Já agora, porque não fechar o Tribunal de Contas, porque não despedir com justa causa a Profª. Drª. Teodora Cardoso tão acutilante na crítica de certas opções deste governo?
E temos políticos regionais q. b.
É anunciado ao país o fecho obrigatório de mais de 300 escolas do 1º ciclo, processo nem em todos os casos acordado ou do conhecimento das Autarquias. Teremos crianças entre os 6 e 11 anos deslocadas a 20 km ou mais de casa, sem almoço familiar, com regresso às 19h. Encerramento à custa da desertificação de aldeias, despedimento de professores e de pessoal auxiliar, do sacrifício infantil e parental e em troca de um quadro interactivo ou de um pavilhão fechado numa escola superlotada, tal como as cadeias portuguesas.
Gestão social e educacional do Estado q. b.
Terminado que foi o “épico” passeio da selecção portuguesa à Copa (sem direito a passar na cozinha), numa prestação sem fôlego nem pernas, não sei se serão recolhidas as centenas ou milhares de bandeiras Nacionais “made in China” que neste curto período forraram montras, janelas, voaram em carros, na ponta de canas-vieira nos galinheiros, nas varas de feijão, ou se estarão à mercê do tempo, desbotando e esfarrapando até ao próximo europeu.
Patriotismo q. b.
Enquanto o governo nacional ainda nos surpreende com atitudes anti democráticas, anti sociais e contraditórias entre ministros, no PS tenta-se, perdendo ética, “aclarear” um futuro político para o País, um país até agora passivo e não pacificante.
Política e governo nacional q.b.
E porque é este o período, a todos boas férias, se as têm. Q. b.

Maria Teresa Góis

 

domingo, junho 01, 2014

Os dias temáticos

Os dias temáticos

 
Maria Teresa Góis

 
 
01 de Junho, dia Mundial da Criança - Para além do dia da Mãe, este será dos únicos dias temáticos que relevo
As crianças são os únicos seres divinos que a nossa pobre humanidade conhece. Os outros anjos, os das asas, nunca aparecem. Os Santos, depois de Santos ficam na Bem-Aventurança a preguiçar, ninguém mais os enxerga. E, para concebermos uma ideia das coisas do Céu, só temos realmente as criancinha.”
In: A Ilustre Casa de Ramires
Eça de Queirós
O1 de Junho, dia Mundial da Criança – Para além do dia da Mãe, este será dos únicos dias temáticos que relevo. Não há vida sem Crianças, nossas ou não.
Ingenuidade, inocência, brincar de faz de conta, sorriso aberto, o esfregar dos olhos quando o “João Pestana” chega ou mesmo o espreguiçado acordar, a entrega confiante ou o ser princesa ou cavaleiro num reino encantado.
No seu olhar, digo intelectual, puro, livre, profundo, cresce um mundo novo.  Às vezes as nuvens do medo toldam-no, mas não o apagam.
Neste dia não quero lembrar apenas as crianças felizes ou afortunadas. Lembro as que padecem fome, trabalho forçado, violência e abuso, as que são roubadas à promessa evangélica que Eça, na citação acima, descreve.
Segundo a Procuradoria-Geral de Lisboa e num relatório trimestral relativo ao período de Janeiro a Março deste ano, foram abusadas por dia, sexualmente, duas crianças.
Das vítimas pouco ou nada sabemos; dos abusadores, noutros tempos apelidados de “tarados”, sabemos pela comunicação social que após prisão preventiva, arguidos e julgados, têm penas indemnizatórias, de apresentação regular às autoridades ou pulseira electrónica. Por mim sofreriam imediata castração química! E não sou radical; radical seria se fosse apologista de uma instantânea ablação…
Esta semana, na Índia e uma vez mais, duas pré-adolescentes de 14 e 15 anos foram violadas em grupo e depois enforcadas.
Em que Mundo vivemos? Que responsabilidades temos quando calamos, num crime cúmplice, o conhecimento de qualquer violência infringida?
Porque será que as lágrimas das crianças de cor me parecem maiores, fruto de um choro mais engrossado, mais pungente?
Num dia em que quase todos teremos “anjos” rabinos à nossa volta, partilho esta reflexão convosco.
Outros dias temáticos – Todos os demais


domingo, maio 04, 2014

“Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo”


 
“… mas quando o imposto começa a aparecer vagamente entre as profundidades do deficit, o povo exalta-se, reclama, pede, exige e às vezes deixa a sua cólera varrer os partidos e dispersar os corrilhos.”
Eça de Queiroz, 28 Fevereiro 1867


Perdoai-me, leitores, se hoje pego em citações recentes que quase todos ouvimos, interiorizámos ou não, mas que sentimos fosse na pele ou no íntimo.
Pé ante pé, em passinhos de coelho por portas escusas, com contraditórios posteriormente desmentidos, medidas subvertidas modificaram o país. A conflitualidade é notória e os números não a desmentem.
Em mais de três anos a apregoada reforma do Estado nem em papel vegetal nos foi apresentada. O corte de gorduras não sujou qualquer frigideira ainda que os portugueses se sintam cada vez mais fritos e aflitos. O primeiro-ministro anunciava em 23 de Abril último que “não se deve esfolar um coelho antes de o caçar” (Nem sonha ele a vontadinha que grassa no país!).
Em Fevereiro passado, ao provar bacalhau num salão internacional do sector alimentar, afirmou que era um produto para pessoas abonadas e, referindo-se a ele próprio, confessou-se “pouco abonado”. Lembra o lamento da parca reforma da D. Maria e do gasto de poupanças amealhadas de um Sr. Silva!
Como se não bastasse ouvimos há dias o primeiro-ministro afirmar numa entrevista televisa que “temos de remover os entorses que esta forte progressividade criou”. Perceberam? Eu também não!
E foi finalmente parido um DEO, cuja paternidade total ainda desconheço à data, que aumenta a taxa de IVA e a TSU, onerando reformados, activos e desempregados quando, há pouco mais de quinze dias, não haveria aumento de impostos.
A população prisional aumentou de 2011/2012 de 7,7% (2,5% média europeia) e cada preso custa ao país €47,07 (contra €103,00 na Europa).
Nem quero imaginar a comparação de preços a nível de refeições escolares ou hospitalares entre Portugal e a Europa. Neste momento uma bica ou uma sopa pagarão a curto prazo 23,25% de IVA enquanto os produtos petrolíferos pagam 13%.
Como se não bastasse, aumenta a emigração e o desemprego jovem é em Março pº. pº. de 35,4%.
Prevêem, os que governam, momentos idílicos de equilíbrio para daqui a dez ou vinte anos. Com sustentabilidade e tudo! Haverá, a esse tempo, população em Portugal?
As desculpas da troika, do Tribunal Constitucional, dos Mercados internacionais foram os papões que nem o governo, nem os conselhos de sábios formados e as comissões de estudos, serviram para diminuir a dívida, o deficit, a credibilidade e a dignidade que o país merecem.
Tudo se vende: empresas rentáveis, como os CTT, a energia para que os custos de consumo fossem mantidos mas que já subiram e voltarão a subir por força do preço ou mesmo do IVA, a ANA que já subiu as taxas aeroportuárias, a TAP está na calha e até o Oceanário já está em marcha.
Em nada me admiraria de ver a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos ou o Centro Cultural de Belém a serem concessionados por cinquenta anos…
Passámos os 40 anos de Abril e de um 1º de Maio em liberdade: sem pompas, sem manifestações que acusassem o desgaste que nos atinge o sabugo, sem a lógica da desilusão que transborda. Salvou-se a lembrança que a comunicação social nos recordou em entrevistas, histórias, documentos radiofónicos ou fotográficos, lembrando aos mais velhos o quanto foi importante e ensinando aos mais novos o porquê da liberdade que hoje desfrutam.
Temos, neste mês, mais uma oportunidade: saibamos aproveitá-la defendendo-nos de um centralismo europeu para que possamos ser uma voz clara, mesmo que pequena, mas firme em defesa dos nossos interesses, da nossa portugalidade.


Maria Teresa Góis

DiárioNotícias Madeira, 04 de Maio 2014

domingo, fevereiro 09, 2014

O paradigma

                                                      
                                      
            “A política chegou a tal miséria que nem a polidez instintiva coíbe os homens.”
             Eça de Queirós 

    A palavra mais ouvida nas últimas semanas, pronunciada por políticos e comentadores, a propósito e a despropósito, é a palavra “paradigma”. A curiosidade levou-me a dicionários na busca de um significado diferente ao que conhecia; mas, lá está, “modelo, padrão, norma” ou seja, na actual linguagem política, imposição, ideia já decidida mas não comunicada ou esclarecida.
     A meu ver o paradigma civilizacional está esgotado quando se apuram os índices reais de pobreza, de miséria, de taxa de desemprego, de emigração, de taxas de óbitos por falha de assistência, de suicídios e quando funcionários, pensionistas e reformados são esmifrados a troco de um perdão fiscal a grandes empresas num valor de 7,8% do PIB nacional.
     Falta pão nos lares portugueses mas as sessões de circo são contínuas.
     Vejamos o capítulo do caso “Miró”. Quando pertença do BPN tinham uma avaliação de 150 milhões. Em 2007 a mesma colecção de 85 quadros foi avaliada pela Christies’s em 81,2 milhões de euros e nos dias de hoje o governo de Portugal esperava arrecadar 35 milhões. Se não estivéssemos já avisados pelas frotas de “submarinos” que actuam neste país, pelos avisos da comissão europeia sobre os níveis de corrupção e pelo amadorismo imbecil que não tem emenda, é caso para usar a esquecida expressão tão madeirense “aiaiai que a gatinha quer água”! Se há um mercado que não se desvalorizou, foi o mercado da Arte.
     Mas Arte, Cultura, Educação ou Saúde, são palavras desusadas para esta maioria.
     Os emigrantes, os desempregados ou mesmo os mortos não participam nas sondagens, sequer nas votações e este facto deve ser levado em conta em todos os actos políticos a que somos chamados.
     Se em tempos foram os Descobrimentos e “os feitos valorosos” que nos levaram pelo Mundo, hoje somos o país que mais se curva a interesses estrangeiros em detrimento de valores patrimoniais e patrióticos.
     E noutra sessão circense ouvimos a proclamação da roleta de carros topo de gama, a troco do que deveria de ser obrigação civilizada de cumprimento de deveres.Com o tempo chegaremos aos ferros de engomar, microondas ou até edições de livros de autoria ministerial…   Pura anedota.
     As providências cautelares chovem, até do Ministério Público, os pedidos de fiscalização chovem, até do Provedor da Justiça, e o povo brando, cansado vai rimando “naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna” e a carência não deixarão durar muito.
     E, se não ficarem esclarecidos com os paradigmas deste governo, olhem para a senhora presidente da Assembleia da República e matutem no “conseguimento” e no “inconseguimento frustracional devido à crise”.

Maria Teresa Góis

 http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/opiniao/430089-o-paradigma