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sexta-feira, janeiro 25, 2013

lendo...

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Almeida Garrett, in «Viagens na minha Terra» (1846)

sexta-feira, setembro 30, 2011

o que ando a ler....

"você não é muito lúcido, ó senhor silva, não é mesmo, dizia-me o silva da europa. ai que filho da mãe de homem, o que está você aqui a fazer, perguntava eu.ui, que modos, não me diga que isto vai daqui para uma revolução da malcriadice, acrescentou ele.nas cadeiras do pátio, lá fora ao sol como andávamos nós, os da casa, estava aquele cristiano mendes da silva, o papagaio falante do hospital, o silva parvo. isso não pode ser posto dessa forma, o regime tem muito que se lhe diga, e você é um portista muito fraco, para ter apreciado assim o eusébio, sinceramente. e eu insistia, ó homem, mas você está aqui na conversa há não sei quanto tempo e não me diz o que veio cá fazer. e ele encarou-me com um sorriso insuportável nos lábios e respondeu-me, então, vim para cá como os outros, passa a ser a minha casa, não é normal. e eu afligi-me como se me desse um ataque de coração.ó santos de quem não tem santos, mariazinha da minha vida, digam-me que a minha velhice não vai ficar ainda mais difícil.mas você é um rapaz novo, tem muito para andar.nada disso, já me reformei, e a gente quer mordomias de hotel é quando ainda as aproveita.não vou ficar trancado em casa sozinho a varrer o chão e a fazer sopa, ó senhor silva, pense lá bem.já fiz sessenta e seis anos, pode dizer-se que estou na terceira idade.venho para aqui como hóspede com juízo, para variar, não é. e você é um comunista esquisito, ora confesse lá. ...."

valter hugo mãe in: a máquina de fazer espanhóis

quinta-feira, julho 14, 2011

Descobertos manuscritos inéditos que podem ser de Guerra Junqueiro

Uma caixa com várias centenas de manuscritos, que se acredita possam ser de Guerra Junqueiro (1850-1923), foi descoberta na colecção duma casa privada, no Norte do país. A notícia foi avançada pela Antena 1, que cita e ouve Antero Braga, da Livraria Lello, a quem o espólio foi mostrado e confiado na tarde de ontem.

Depois de analisar os documentos, o livreiro ficou com a firme convicção de que se trata de manuscritos do autor de “A Velhice do Padre Eterno”. “A letra, o tipo de papel, em que se nota a erosão do tempo, mesmo se está em óptimo estado, e também os atilhos usados, além das datas (da década de 1890), apontam todos para que sejam manuscritos de Guerra Junqueiro”, reafirmou hoje ao PÚBLICO Antero Braga. O livreiro lembra, de resto, que a antecessora da Lello, a Chardron, fundada em 1869, foi a primeira editora do escritor. E a livraria tem mesmo actualmente em exposição numa das suas paredes uma carta enviada por Guerra Junqueiro a Ernesto Chardron. “A semelhança da letra é clara”, diz Antero Braga, que, no entanto, nota que a confirmação da autenticidade da autoria só poderá ser feita por especialistas.
O espólio pertence a um cliente da Lello, que quis manter o anonimato. Antero Braga adianta que os documentos deverão ter pertencido ao bisavô do actual proprietário, que terá sido alguém com relações de amizade e de grande proximidade com Guerra Junqueiro.
O espólio é composto por folhas soltas, cartas e outros textos manuscritos, alguns dos quais “parecem ser projectos de livros”, diz o livreiro da Lello. A sua primeira preocupação, em acordo com o proprietário, foi depositar os documentos num banco. Seguir-se-ão contactos com especialistas em Guerra Junqueiro e também com a Biblioteca Nacional, para a definitiva confirmação da autoria.
Antero Braga não sabe ainda que destino é que o proprietário irá depois dar ao espólio. Mas espera que ele possa ser preservado e mantido em Portugal.
Abílio Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada à Cinta, em 1850. Estudou Teologia, mas formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi funcionário público, e enveredou pela vida política, primeiro como deputado do Partido Progressista, depois abraçando a causa republicana. Como escritor e poeta, tornou-se um dos autores mais populares da sua época, com livros como “A Velhice do Padre Eterno”, “Os Simples”, “Pátria” e “Horas de Combate”. Morreu em Lisboa, em 1923, com 72 anos.
in:PUBLICO

sexta-feira, dezembro 24, 2010

"É Deus, assemelha-se a mim"

«A virgem está pálida e olha para o menino.
Seria preciso pintar no seu rosto aquela admiração ansiosa que se viu apenas uma vez num rosto humano.
Porque Cristo é o seu filho, a carne da sua carne e fruto do seu ventre.
Ela teve-o em si própria durante 9 meses e dar-lhe-á o seio e o seu leite tornar-se-á sangue de Deus.
Nalguns momentos a tentação é tão forte que esquece que Ele é Filho de Deus.
Aperta-O nos braços e sussura-lhe:"Meu pequerrucho".
Mas noutros momentos fica perplexa e pensa: "Deus está ali",
e é invadida por um religioso temor por este Deus mudo,
por esta criança que num certo sentido incute medo.
Todas as mães ficam perplexas, por um momento, diante daquele fragmento rebelde da sua carne que é a sua criança,
e sentem-se exiladas perante esta nova vida feita da sua vida,
habitada por pensamentos alheios.
Mas nenhum filho foi arrancado à sua mãe de forma tão cruel e radical, porque Ele é Deus e ultrapassa completamente tudo o que ela poderia imaginar...
Mas penso que houve também outros momentos, rápidos e fugazes,
em que ela sente que Cristo é seu Filho, o seu menino, e que é Deus.
Olha-O e pensa: "Este Deus é meu menino.
Esta carne é a minha carne, é feito de mim, tem os meus olhos
e a forma da sua boca é semelhante à minha, assemelha-se a mim,
é Deus e assemelha-se a mim."
E nenhum homem recebeu da sorte o seu Deus só para si,
um Deus tão pequenino para apertar nos braços e cobrir de beijos,
um Deus quentinho que sorri e respira, um Deus que se pode tocar e que ri.
E é nesses momentos que eu, se fosse pintor, pintaria Maria.»

Jean Paul Sartre
Trecho teatral escrito por ocasião do Natal, enquanto prisioneiro

terça-feira, junho 01, 2010

Prémio Camões para 'resmungão' Ferreira Gullar

Desta vez, o júri do mais importante prémio lusófono faz escolha surpreendente
O poeta e dramaturgo brasileiro Ferreira Gullar é, desde ontem, o mais recente Prémio Camões. O anúncio foi feito pela ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, na presença dos membros do júri, e volta a galardoar a poesia como já acontecera em 1989 com Miguel Torga, o primeiro distinguido.
O autor brasileiro desconhecia a escolha do seu nome à hora de fecho desta edição, mas a sua obra não é totalmente ignorada em Portugal, onde a recém-falida editora Quási publicou a Obra Poética Completa de Ferreira Gullar, além de um livro infantil.
Nascido José Ribamar Ferreira, a 10 de Setembro de 1930, na capital do Estado brasileiro do Maranhão, o quarto de onze filhos tem uma carreira literária e de intervenção social e política que destoa devido à sua intensidade da maioria dos já premiados.
Ainda há meses, Ferreira Gullar voltara a usar o seu site para inscrever críticas ao Governo devido à alteração dos internamentos psiquiátricos. Escrevia: "Depois de algum tempo calado, volto a resmun- gar. Este primeiro resmungo vem a propósito de um problema muito grave que denunciei não faz muito tempo (...)." No mesmo local já colocara outras notas de contestação, mas também sobre a sua arte, a criação literária. Ferreira Gullar foi sempre radical na sua obra e posicionamento político, situação que o levou a ter um importante papel nos movimentos concreto e neo-concreto. Em 1961, no entanto, abandonou esta vanguarda artística para se entregar na arte militante do Centro Popular de Cultura, uma organização da poderosa União Nacional de estudantes que liderou muitas das lutas estudantis sob o regime militar. A primeira encomenda que lhe é feita por Oduvaldo Vianna Filho trata a reforma agrária, é escrita ao estilo da literatura de cordel (género típico nordestino) e intitula-se João Boa Morte, Cabra Marcado para Morrer.
Mesmo com as restrições impostas pelo golpe militar, em 1964, Gullar manter-se-á bastante activo e, a quatro mãos, publicará em 1966 a premiada peça Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come; em 67, a peça "A saída? Onde está a saída? e em 68, Dr. Getúlio, sua vida e sua glória". Com o Acto Institucional n.º 5, é preso e em 1970 entrará na clandestinidade.
O exílio será o passo seguinte, partindo para Moscovo, Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires até ser absolvido e poder regressar. Em 2009, foi considerado uma das cem mais influentes personalidades do Brasil. Ou seja, um "resmungão" social e intelectualmente activo.
O júri do Prémio Camões é presidido por Helena Buescu e composto por Seabra Pereira, Inocência Mata, Luís Carlos Patraquim, António Carlos Secchin e a escritora Edla van Steen. Ferreira Gullar sucede ao escritor cabo-verdiano Arménio Vieira, em 2009, ao brasileiro João Ubaldo Ribeiro, 2008, e António Lobo Antunes, em 2007. O prémio foi criado pelos governos de Portugal e do Brasil em 1989 e é considerado o de maior prestígio da língua portuguesa.

quinta-feira, maio 27, 2010

estou a ler (e a gostar. Recomendo)

..."O senhor de Ardres dá de si uma pobre impressão.A sua armadura vetusta provém, sem dúvida, de uma era juvenil mais musculosa,porque agora dança folgadamente em volta do seu corpo esquelético. A malha de ferro está rota e ferrugenta e quase tão suja como as barbas mal aparadas do guerreiro, que revelam crostas secas de alguma matéria indiscernível, grumos de antigas sopas e pedaços de moncos."....."...Faço um esforço para me acalmar e concentro-me no sermão. As palavras de Frei Angélico caem-me nos ouvidos como chumbo derretido. Palavras sedosas, açucaradas, cantadas, que alternam habilmente com palavras ardentes e afiadas, tão retumbantes como as trompetas de Apocalipse. Sim, frei Angélico aprendeu a pregar nestes anos, mas toda a sua sabedoria de pregador não consegue disfarçar a estridência discordante que emerge da sua prédica, o sabor a falsidade, a agudeza ameaçadora. Fala o doutor Angelical  do pecado, da nossa miséria essencial, da nossa incapacidade para compreender os desígnios divinos....E quanto mais fala, mais me horroriza o que diz, mais odeio a dureza e a limitação do seu pensamento, mais me assombra tê-lo admirado um dia e tê-lo achado inteligente."...."-Falei-te alguma vez do elixir ambarino? Provavelmente não...É um dos saberes mais ocultos.Passei toda a tarde de ontem, toda a noite e toda a manhã a fazer o elixir segundo a fórmula antiquissíma que não pode ser escrita e que se deve guardar apenas de memória.E consegui encher todo este frasco.Levanta um pedaço de veludo escuro que está em cima da mesa e deixa a descoberto uma garrafinha bojuda de vidro opalino e translúcido.Dentro do recipiente leitoso, um líquido alaranjado cintila como fogo....-Para que serve esta poção? Nyneve sorri:-É a salvação.É o caminho que conduz a Avalon."

NOTA DA REDACÇÃO - "Num tumultuoso século XII, uma camponesa adolescente, despe um guerreiro morto num campo de batalha e veste as suas roupas para se proteger sob um disfarce viril.Assim começa o vertiginoso e emocionante relato da sua vida,uma peripécia existencial que não é apenas  de Leola mas também nossa, porque este romance de aventuras com ingredientes de fantástico fala-nos, na verdade, do mundo actual e do que nós somos.Uma insólita viagem a uma Idade Média desconhecida,relatada de uma forma tão vivida que quase se consegue sentir na pele, uma fábula que comove pela sua grandeza épica."

in : HISTÓRIA DO REI TRANSPARENTE - Rosa Montero