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quarta-feira, abril 14, 2010

"Santas declarações?"

"Demonstraram muitos sociólogos, muitos psiquiatras, que não há uma relação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram, e disseram-mo recentemente, que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia"- disse o número dois do Vaticano e relacionou a pedofilia com a homossexualidade, excluindo o celibato. Um absurdo. Nem uma coisa nem outra tem a ver com os abusos sexuais de menores. Esta postura enquadra-se dentro da péssima reacção da Igreja Católica à pedofilia, que sempre que se manifesta ainda se afunda mais e contribui para o reacender a fogueira em todas as frentes. É pena que a honestidade intelectual não seja um bem preservado pela Igreja oficial actualmente.
Esta desonestidade está relacionada com esta questão e com tantas outras que campeiam o mundo de hoje. A título de exemplo, repare-se no branqueamento que se faz quanto à acção de Bento XVI, apresentando-o como primeira referência do pensamento católico dos últimos tempos. Alguém se lembra dos saneamentos, os castigos e as suspensões a teólogos e bispos, levadas a cabo por Joseph Ratzinger, enquanto Prefeito da Doutrina da Fé, porque ousavam pensar além do pensamento institucional da Igreja. E a pressão que a Igreja portuguesa fez junto do Governo para declarar no dia 13 de Maio «tolerância de ponto», e pelo que se sabe resultou. Quem acredita ainda que estamos em crise e que se pedem esforços para resolver as contas do Estado? - Santo sinal que se dá outra vez ao povo português! Agradece a maioria dos portugueses, porque terá mais um dia de descanso em 2010.
Os abusos sexuais de menores, acontecem em todos os meios sociais, por causa de mentes perversas, doentias e por criminosos que não olham a meios para satisfazer os seus impulsos mais primários. Por isso, requer-se um debate sério, sem preconceitos e aberto a todos os níveis sobre este cancro terrível que consome as igrejas, as famílias e os diversos grupos sociais.
Falta à Igreja apresentar uma doutrina saudável, positiva sobre a sexualidade e tudo o que diz respeito à questões sobre a vida. O celibato é um ítem dentro desse tema mais vasto, que quando devidamente purificado, apresentaria o celibato como um valor importante, mas também não secundaria o matrimónio e todas as questões sobre a vida. É preciso a Igreja apresentar o prazer sexual como um valor, um bem e um dom de Deus. E por fim, acabar com a linguagem que apresenta ainda sexualidade como um pecado ou um mal necessário para procriar.
(fonte: O Banquete da Palavra, blogspot)

segunda-feira, abril 12, 2010

Jony, o padre roqueiro que canta o Pai Nosso em versão rap - vídeo

O cenário é uma catedral do século 14 mas, em vez de música sacra, o padre canta rock. A igreja de Nossa Senhora da Consolação, na cidade espanhola de Tortosa, tornou-se pioneira na primeira missa acompanhada ao som de rock, blues e rap.
O sacerdote responsável pela novidade é Joan Enric Reverté, mais conhecido como Padre Jony. A cerimónia foi celebrada, na passada semana, em homenagem à santa padroeira da diocese e contou com um rito de entrada ao estilo blues, um Pai Nosso em versão rap e o clássico do cancioneiro católico, O Pescador de Homens, ao som do rock.
O altar, onde normalmente se alinha o coro vocal e respectivas guitarras, é agora ocupado por guitarras e baixos eléctricos, uma bateria, um teclado e até uma tela gigante com imagens psicadélicas, ao estilo “festa tecno”.
E contra o que seria costume numa igreja, nesta celebração, a plateia de cerca de 500 fiéis acompanhou a música de pé, a cantar e a dançar. A versão rap de “Aleluia”, segundo conta Padre Jony, “foi a mais galvanizante”. O sacerdote explica ainda, que “o objectivo destas missas é criar uma nova linguagem espiritual, que aproxime os jovens da Igreja, já que a grande maioria não se identifica com o discurso habitual”.
Nota da Redacção - Talvez seja esta uma excelente maneira de atrair a Juventude. 
Assim como assim já temos celebrações ditas "carismáticas"  compalminhas e braços no ar, lembrando muito o que se faz pelo mundo em seitas religiosas.
O que interessa é DAR à Assembleia o que ela precisa, instruindo-a, ensinando-a, orientando-a.Se for em rock, vou nessa, eu alinho! Vejam o vídeo, abaixo.fonte: jornal  i

domingo, abril 11, 2010

Santo Sudário exposto em catedral de Turim

fonte:DN, hoje
Um dos artefactos religiosos mais investigados, por causa das dúvidas que suscita, vai estar em exibição até 23 de Maio.
O pano de linho em que Cristo foi embrulhado depois da crucificação ou uma falsificação feita, quem sabe se por Leonardo da Vinci, durante a Idade Média? Fiéis e cépticos têm, a partir de ontem, a oportunidade de ver com os seus próprios olhos o Santo Sudário, um dos artefactos religiosos mais investigados de sempre. Está em exposição até 23 de Maio na Catedral de São João Baptista, em Turim.
Tem 4,36 metros de comprimento por 1,10 metros de largura e foi descoberto em meados do século XIV, no Colégio de Nossa Senhora, em Lirey (França). Na sua superfície surge desenhado um corpo e um rosto com as marcas da crucificação, como se de um negativo de uma fotografia se tratasse.
Para os fiéis, é a imagem de Cristo. Mas os cientistas sempre se interessaram pela sua autenticidade. Em 1988, apoiando-se numa datação por carbono 14, os historiadores estabeleceram que o pano de linho tinha sido fabricado entre 1260 e 1390. Há cinco anos, a revista francesa Science et Vie usou as técnicas da Idade Média para reproduzir o sudário, que alguns acreditam ser uma espécie de fotografia de Da Vinci.
A última vez que o Santo Sudário esteve exposto foi há dez anos, a pedido de João Paulo II. O Vaticano nunca se pronunciou sobre a sua autenticidade, mas Bento XVI será um dos mais de dois milhões de visitantes que são esperados em Turim, viajando até ao Norte de Itália a 2 de Maio.
Sobre a exposição do Santo Sudário, o Papa disse em Junho de 2008 que era "uma ocasião propícia para contemplar este rosto misterioso que fala silenciosamente ao coração dos homens, convidando-os a reconhecer o rosto de Deus".

segunda-feira, março 01, 2010

crise de Fé

Fazer gazeta?Nem pensar. Antes e depois da homilia, o padre polaco Grzegorz Sow recolhe as impressões digitais dos miúdos que prepara para a Confirmação. Os miúdos têm de ir à Missa todos os domingos e nas primeiras sextas-feiras do mês. Têm ainda de participar no terço e tomar parte diariamente nas Missas durante o Advento. A paróquia de Santa Edwige, em Gryfów Slaski está equipada com um leitor óptico que permite identificar "as ovelhas tresmalhadas". Quem participar em 200 missas no espaço de 3 meses pode ir à Confirmação. Os restantes têm de fazer um exame para se apurarem os seus conhecimentos nota a Gazeta Wyborcza.
fonte: Courrier Internacional, Março 2010
NOTA DA REDACÇÃO - Que fazer com esta Igreja? Um notícia tornada pública como esta, não chega aos anais do Vaticano? Escusado será dizer que os miúdos vão porque são obrigados (como tantos nas nossas paróquias) e é legítimo pensar que, uma vez libertos dos "fretes" não mais voltarão a por os pés na igreja. Como se pode permitir métodos que eu digo serem terroristas, como se pode permitir um padre numa paróquia com este tipo de mentalidade. Que fazer com esta "Igreja"...

domingo, fevereiro 14, 2010

Peregrinação de confiança através do Porto

Comunidade Taizé junta seis mil pessoas até terça-feira, num encontro ibérico em busca das "fontes da alegria". Vêm de 25 países e vão viver com famílias de 39 paróquias.
Venta violentamente no ponto de encontro, estádio nas costas, via rápida pela frente, "pão com queijo" pelo ar, montanhas de mochilas pelo chão. Há cruzes em caixotes e mapas do Porto a voar contra faces rosadas. Centenas. As faces. Ou milhares. As contas oficiais misturam números como 3300, 25, 1800, 6000, 39. Inscritos, países, acolhidos em famílias, pessoas envolvidas, paróquias. As contas oficiosas são de horas arrastadas pelo vento. À portuguesa. Sem stresse.
Susana e Pedro exibem ao pescoço folhas A4 com o nome da paróquia que acolhe 50 jovens. Coimbrões. Estão à espera, já a bater na hora limite de levá-los do Dragão às casas que os acolhem até terça-feira. Não sabem quem são, de onde vêem. Sabem só que, como eles, colocam o F de fé acima do de frio, sorrisos na alma.
Lá longe, do lado de lá do rio, Elsa, mãe de Pedro, espera o telefonema que lhe há-de dar luz verde para ir buscar os seus inquilinos. Está tudo atrasado, sem problema. No Dragão, há guitarras. Há círculos de cantigas. Há uma fila para se descobrir onde se vai dormir. Há inquirições. Quem quer trabalhar? Quem quer ser animador? Em Coimbrões, há comida quente. E famílias, à espera. Elsa, fascinada pelo ecumenismo e pela oração contemplativa, descobriu Taizé ainda adolescente, pelas mãos do padre da paróquia. Mas só hoje, já mãe de filhos mais do que adolescentes, vai viver a experiência. Na sua vivenda de Canelas, tem espaço para três dos 1800 jovens da comunidade nascida em França há 70 anos que são acolhidas em famílias. Só tem que lhes proporcionar "dois metros quadrados aquecidos". Chão, portanto. É o que é pedido. E três pequenos-almoços e um almoço. Dá-lhes quarto, porque pode.
Porquê? Já se disse. É fascinada por tudo isto. A oração no silêncio que confronta quem a faz com os seus próprios pensamentos, sem se perder nas entrelinhas das coisas ditas. A reflexão "quase ao estilo oriental", assente na Bíblia. Passou a paixão a Pedro, 19 anos, principiante nos encontros internacionais. Este foi intitulado ibérico, mas a divulgação na internet transformou-o em internacional.
É a primeira vez que a comunidade se reúne no Porto, quatro dias para comungar na reflexão, para estar, silenciosamente, em oração. Com todos. Cristãos, indiferenciados, de mãos dadas na busca das fontes da alegria. No Dragão, nas igrejas do Porto e das 39 paróquias que trocaram o Carnaval pelo espírito Taizé.
O telefonema não chega. Mas já estão no salão paroquial de Coimbrões os primeiros jovens. Vêm de Torres Vedras e vão estacionar em casa de José Duarte. Pai de filhos já casados, admite que nunca ouvira falar na comunidade Taizé. O desafio foi lançado numa homilia, inscreveu a família para acolhimento. "Não sei o que é. Vou descobrir agora". Com Fábio e Carlos, o primeiro já repetente dos encontros, na própria aldeia tornada famosa pelo irmão Roger, em 1940. Sophie e outra jovem ficarão em casa da irmã de José.
Sophie também já esteve em Taizé. Tem 17 anos, diz que a religião é o cerne de tudo isto, está irrequieta de feliz. No dia-a-dia, diz, vive-se com máscaras. Taizé "é o mundo interior. O calor humano". Explica-te. "Aqui, dizemos bom dia a uma pessoa e acontece olharem-nos de lado. Lá, até pode sair um abraço". Em resumo? "Religião e ressurreição de Deus bastante... pronto! Espectacular!" Só indo lá, ou comungando pelo mundo, sempre que a comunidade organiza encontros internacionais. Fábio esclarece. "Telemóvel, televisão, internet... lá não fazem falta".
Ambos conheceram o movimento por um professor do externato católico que frequentam. Viveu em Taizé um ano e trouxe o hábito de uma viagem de alunos a França de dois em dois anos.
Por muito que se pergunte, a quem quer que seja, não sai uma explicação clara, concreta. Apenas o brilho no olhar de gente como toda a gente, que encontrou uma forma de vida em espírito de simplicidade, partilha e acolhimento, resume a organização. Em "peregrinação de confiança através da terra" para ajudar os jovens a "empenhar-se cada vez mais numa vivência cristã da sociedade". A cantar.fonte JN, Lisboa
NOTA DA REDACÇÃO - A ESPERANÇA DA IGREJA, NÃO SÓ A PORTUGUESA, ESTÁ NESTES JOVENS QUE ADEREM À ALEGRIA. MUITOS FICARÃO PELO CAMINHO APÓS OS PRIMEIROS EMBATES MAS, COM CERTEZA E COM O ESPÍRITO DE TAIZÉ ACTUANTE, MUITOS CHEGARÃO AO FIM. É NECESSÁRIO UMA REMODELAÇÃO DE COMUNIDADES, HOJE ENVELHECIDAS, INCULTAS, DESIMPORTADAS, ACOMODADAS AO QUOTIDIANO TRADICIONAL. SÃO PRECISOS - E MUITO - PASTORES EMPENHADOS, DESPROVIDOS DE PENEIRAS E IMPORTÂNCIAS DE ESTATUTO, CULTOS E ACTUANTES, PRÓXIMOS DAS COMUNIDADES E DOS JOVENS.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Os casais homossexuais católicos vão aproveitar a abertura recente da legislação portuguesa para se casarem.

A garantia foi dada ao DN pelo presidente da associação Rumos Novos, grupo de católicos homossexuais, que lamenta as palavras proferidas ontem pelo Papa Bento XVI contra os "projectos" que legalizam o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
"O argumento do Papa é o habitual, não traz nada de novo. E não nos afasta da prossecução do nosso objectivo que é lutar, no seio da igreja, pelos direitos dos homossexuais", disse José Leote. O porta-voz do grupo afirmou ainda que os membros da Rumos Novos vão usufruir do direito de casar civilmente, embora desejassem poder vir a fazê-lo também em termos religiosos.
"Muitos dos nossos membros vão casar. Aí estamos em coincidência com a Igreja, que defende que as relações de amor se devem espelhar numa relação estável", disse José Leote. Os homossexuais católicos sublinham as diferenças entre casamento (civil) e matrimónio (sacramento), e reconhecem que a aspiração a uma união religiosa entre pessoas do mesmo sexo é um objectivo distante, "que só será alcançado daqui a muitos séculos".

Bento XVI classificou ontem os projectos que legalizam o casamento entre pessoas do mesmo sexo como "ataques" ao fundamento biológico que diferencia os sexos. "O homem não é Deus, mas imagem de Deus, sua criatura. Para o homem, o caminho a seguir não pode ser fixado pelo que é arbitrário ou apetecível, mas deve, antes, consistir na correspondência à estrutura querida pelo Criador", afirmou.
No seu discurso anual perante o corpo diplomático - onde falou de questões tão vastas como o ambiente ou a guerra do Afeganistão -, Bento XVI não especificou a legislação portuguesa, citando apenas o caminho seguido por alguns países europeus ou americanos.
A hierarquia da Igreja portuguesa recusa atribuir estas palavras à situação vivida em Portugal e à recém aprovação no Parlamento do projecto de lei do Governo. Até porque, como sublinhou ao DN o porta voz da Conferência Episcopal Portuguesa, Bento XVI fala recorrentemente deste assunto. "Ainda há dias, no encontro das famílias em Espanha, o Papa fez a defesa dos valores do casamento", afirmou ao DN Manuel Morujão. "Acredito que se trata apenas de uma coincidência", acrescentou. Contudo, sublinhou, o Papa está sempre informado sobre o que se passa em Portugal, ainda mais agora, na véspera da sua visita.
Para D. Ilídio Leandro, bispo de Viseu e da comissão episcopal de Laicado e Família, as palavras que chegam do Vaticano espelham a "comunhão existente" na Igreja. "Só prova que defendemos os mesmos valores" disse ao DN.

NOTA DA REDACÇÃO-   A REACÇÃO DE BENTO XVI NÃO NOS ESTRANHA NEM NOS ENTRANHA. 
ENQUANTO O BISPO DE ROMA NÃO ASSUMIR QUE POR CAUSA DO CELIBATO OBRIGATÓRIO (QUE NÃO EXISTIA NO TEMPO DE JESUS...) HÁ SACERDOTES QUE TÊM AS SUAS "ILEGÍTIMAS", HÁ SACERDOTES HOMOSSEXUAIS E, MUITO PIOR, HÁ OS QUE EXERCEM A PEDOFILIA.  
SENDO A LIGAÇÃO HOMOSSEXUAL ASSUMIDA POR DUAS PESSOAS ADULTAS, PENSO QUE A PEDOFILIA QUE A IGREJA QUER IGNORAR, É MUITO MAIS PREOCUPANTE SE SE INVOCA A IMAGEM DE DEUS. 
A DEPRAVAÇÃO EXISTENTE E CONSENTIDA NO SEIO DA IGREJA NÃO É DE HOJE, TEM SÉCULOS DE HISTÓRIA.
CUREMOS AS NOSSAS (DA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA) FERIDAS E PROCUREMOS TERAPÊUTICA ADEQUADA. NÃO PASSARÁ, POR CERTO, NO CONVITE AOS PADRES ANGLICANOS CASADOS PARA INTEGRAREM A IGREJA CATÓLICA...

domingo, janeiro 03, 2010

Epifania (dia de Reis)


Adoração dos Magos: Fra Angélico; 1445 (painel, 1,373m de diâmetro)


Adoração dos Magos: Fra Angélico



03 de Janeiro de 2010 /// Epifania do Senhor /// A Epifania do Senhor (do grego: Ἐπιφάνεια, : "a aparição; um fenómeno miraculoso") é uma festa religiosa cristã que celebrava-se no dia 6 de Janeiro, ou seja, doze dias após o Natal, porém, a partir da reforma do calendário litúrgico em 1969 passou a ser comemorada 2 domingos após o Natal. A Epifania representa a Assunção humana de Jesus Cristo, quando o filho do Criador dá-se a conhecer ao Mundo. Na narração bíblica Jesus deu-se a conhecer a diferentes pessoas e em diferentes momentos, porém o mundo cristão celebra como epifanias três eventos: a Epifania propriamente dita perante os magos do oriente (como está relatado em Mateus 2, 1-12) e que é celebrada no dia 6 de Janeiro; a Epifania a João Baptista no rio Jordão; e a Epifania a seus discípulos e início de sua vida pública com o milagre de Caná quando começa o seu ministério. No sentido literário, a "Epifania" é um momento privilegiado de revelação, quando acontece um evento ou incidente que "ilumina" a vida da personagem. 
texto in: jlrodrigues.blogspot.com

terça-feira, dezembro 22, 2009

A subversão da religião



por Anselmo Borges

No meio da vertigem das compras e das prendas, do consumismo, não sei quantas pessoas se lembrarão ainda de que a festa do Natal está referida ao nascimento de Jesus Cristo. Seja-se cristão ou não, crente ou ateu, impõe-se reconhecer que se trata de uma figura determinante da História. Sem ele, a nossa autocompreensão não seria a mesma.
Nos últimos tempos, a atenção voltou-se para o que não é de modo nenhum central, quando se pensa no que ele é e no seu significado: como e quando nasceu, se a mãe era virgem, se teve irmãos e irmãs... Compreende-se a curiosidade das pessoas, mas estas perguntas não vão ao essencial.
Hoje sabemos que Jesus nasceu alguns anos antes da era cristã (entre 6 e 4) - o erro deveu-se a Dionísio o Pequeno, quando no século VI calculou a data do seu nascimento. Provavelmente nasceu em Nazaré da Galileia, onde se criou. Os relatos dos Evangelhos referentes ao nascimento e à infância servem-se de linguagem simbólica para significar o que mais interessa. Assim, a data de 25 de Dezembro foi adoptada mais tarde pelos cristãos de Roma, para significar que ele é o Sol verdadeiro que a todos ilumina. A presença dos pastores e dos magos anuncia o núcleo da sua mensagem: que Deus se interessa em primeiro lugar pelos mais pobres e que não exclui ninguém.
Hoje ninguém intelectualmente responsável põe em dúvida que Jesus existiu. A sua existência é atestada não apenas por fontes cristãs, pois há também textos de Flávio Josefo, Tácito, Suetónio, Plínio, entre outros. O que é preciso compreender é que os textos cristãos, concretamente os Evangelhos, são textos de crentes, que narram a história de Jesus a partir da fé e convocando à fé.
Na vida de Jesus, há um paradoxo. Por um lado, viveu num recanto obscuro do Império Romano, a sua vida pública pode não ter chegado sequer a dois anos, morreu crucificado - a pena de morte mais ignominiosa, aplicada aos escravos. Por outro lado, a sua influência decisiva atravessa a História e mais de dois mil milhões de homens e mulheres reclamam-se ainda hoje do seu nome e confiam nele na vida e na morte.
Qual foi o núcleo da sua mensagem? A sua revolução consistiu em primeiro lugar numa nova ideia de Deus. Deus não é o Deus longínquo e tenebroso, que quer adoração e submissão, que exclui, que explora e humilha os seres humanos. Pelo contrário, Jesus fez a experiência de Deus como Abbá, paizinho. Embora as crianças se dirigissem com esta palavra ao pai, em Jesus, não se trata, com esta invocação, nem de infantilismo nem de machismo, pois este Deus-Pai tem traços de Mãe.
A partir desta experiência radical, deriva toda a mensagem de Jesus, para quem o decisivo não era a religião, mas a humanidade. Como mostrou recentemente o teólogo José M. Castillo, o centro do interesse de Jesus não foi a religião, mas a saúde, a comida, as relações humanas boas, a liberdade, o bem-estar e a felicidade das pessoas. Com Jesus, revelou-se a humanidade de Deus e que o caminho para Deus é a humanidade. O Deus de Jesus encontra-se, antes de mais, no secular, não no religioso. "O 'sagrado', o 'religioso' e o 'espiritual' são autênticos, aceitáveis e meios para encontrar Deus, na medida, e só na medida, em que nos humanizarem, nos tornarem mais profundamente humanos". Para Jesus, o "sagrado" indubitável neste mundo é o ser humano.
Leia-se os Evangelhos e concretamente aquele passo de São Mateus, referente à verdade última, ao chamado Juízo Final. Nada há aí de religioso, pois tudo é secular: "Destes-me de comer, de beber, de vestir, fostes ver-me ao hospício e à cadeia."
Jesus, que não era sacerdote, mas leigo, teve de enfrentar a religião e os seus dirigentes, num conflito mortal, porque a religião e os seus dirigentes estavam mais interessados na religião do que na vida e porque "a religião pode ser e costuma ser uma ameaça, um perigo muito sério, para a vida e para a felicidade dos seres humanos". Condenaram-no à morte os dirigentes da religião oficial do seu tempo. Mas Jesus foi tão profundamente humano que "se pôs do lado da vida e deu vida, vencendo as forças da morte".

domingo, novembro 01, 2009

01 Novembro - dia de todos os Santos

"Muitas e muitas pessoas se riem e ficam no que lhe parece quando se fala de santidade, da vocação à santidade, de ser santo...
Para grande parte da gente nova e não só, santidade cheira a beatice, a fingimento. Ou então lembra uns seres especiais, esquisitos, que não são bem da "mesma carne e do mesmo sangue" dos restantes mortais. Alguém "que já nasceu assim", como me dizia há dias uma jovem.
Imaginem, por exemplo, o que seria alguém entrar num café ou numa tasca de umas das nossas aldeias onde toda a gente se diz católica e falar de santidade... Estão certamente a ver os sorrisos de gozo, as chaladas laterais e até o desprezo com que a ideia seria acolhida. Parece que o conceito de santidade caiu em desgraça, mais, se tornou desprezível.

Contudo a santidade é vocação universal: "Sede santos como é Santo o Pai que está no Céu." - Jesus Cristo.
O santo é o oposto a beatice.
O Santo é muito homem, a santa é muito mulher.
O santo é exactamente do mesmo corpo e do mesmo sangue de cada um de nós.
O santo faz-se santo, apesar das suas limitações, das suas trapalhadas, das suas inclinações, do seu temperamento, das suas quedas...
O santo é um enamorado de Deus, é um bom condutor, por isso a corrente de Deus passa facilmente por ele para o mundo.
O santo é uma pessoa livre, tão livre que é capaz de abrir à vontade e à graça de Deus.
Por isso, o santo ama o próximo, com um amor esquisitamente belo, com sabor divino.
Os santos inquietam, desinstalam, fomentam a esperança.
Os santos "incendeiam o mundo" com o amor de Deus, pelo que o mundo os procura apagar, para que a luz não ponha a claro as suas podridões.
Ai da Igreja, ai do mundo se não fossem os santos!

Será que tem medo de querer ser santo???"



NOTA DA REDACÇÃO - TENHO A CERTEZA QUE NO SÍTIO ONDE VIVO E POR ESTA TERRA FORA, SÃO INÚMEROS OS SANTOS, ELAS E ELES, ANÓNIMOS E INCÓGNITOS. SOU CONTRA O TERMO DE "SUA SANTIDADE" PORQUE ACHO QUE A SANTIDADE SE CONQUISTA EM VIDA, NÃO OBRIGANDO A PESSOA À PERTENÇA DE QUALQUER CREDO. ("EU VIM PARA TODOS") MAS NÃO HÁ PESSOAS INFALÍVEIS... 
NO DIA DE HOJE  A FESTA É DESSES HUMILDES ANÓNIMOS E INCÓGNITOS.
Esta é uma celebração universal, fixada no século IX, em louvou de todos os santos e tentando assim suprimir qualquer omissão da Igreja.Inicialmente celebrado a 13 de Maio, foi Gregório III que se empenhou na sua celebração e sendo já Gregório IV a fixar a data de 01 de Novembro, a partir do ano de 837.

sábado, outubro 31, 2009

Seria injusto não haver Deus

por Anselmo Borges - DN, hoje 

As nossas sociedades científico-técnicas, comandadas pe-la razão instrumental, pelo progresso, o êxito e o consumo, hedonistas, nas quais a fé se obnubilou, são as primeiras da História a fazer da morte tabu. Este tabu, acompanhado da perda da fé no Além e da eternidade, é essencial para o entendimento do que se passa. Porque já não há eternidade, o tempo não faz texto, ficando reduzido a instantes que se devoram. Como pode então ainda haver valores e futuro num tempo que se dissolve na voragem de instantes?

De qualquer modo, estas nossas sociedades permitem a visita dos mortos dois dias por ano: 1 e 2 de Novembro. Os cemitérios enchem-se e, de forma mais ou menos explícita e funda, num silêncio ao mesmo tempo vazio e opaco, plúmbeo, há o confronto com a ultimidade, aí onde verdadeiramente se é Homem. Afinal, qual é o sentido da existência e de tudo? O que vale verdadeiramente? M. Heidegger chamou a atenção para isso: a diferença entre a existência autêntica e a existência inautêntica dá-se nesse confronto. Se tudo decorre na banalidade rasante e na gritaria oca, a explicação está aqui: no último tabu.
Para onde vão os mortos? Para o Silêncio. O mistério da morte é esse: dizemos que partiram, mas o que abala é não deixarem endereço. Na morte, a evidência é o cadáver. Mas quem se contenta com o cadáver? Por isso, a morte é o impensável que obriga a pensar e, enquanto formos mortais, havemos de perguntar por Deus.
Deus não é "objecto" de ciência, mas uma esperança, sobretudo quando se pensa nas vítimas inocentes. Como escreveu o agnóstico M. Horkheimer, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt, "se tivesse de descrever a razão por que Kant se manteve na fé em Deus, não saberia encontrar melhor referência do que aquele passo de Victor Hugo: uma anciã caminha pela rua. Ela cuidou dos filhos e colheu ingratidão; trabalhou e vive na miséria; amou e vive na solidão. E no entanto está longe de qualquer ódio e rancor, e ajuda onde pode... Alguém vê-a caminhar e diz: Ça doit avoir un lendemain!... Porque não foram capazes de pensar que a injustiça que atravessa a História seja definitiva, Voltaire e Kant postularam Deus - não para eles mesmos".
A curto, a médio, a longo prazo, todos foram estando mortos. A curto, a médio, a longo prazo, todos iremos, todos irão estando mortos, e lá, no final, só há uma alternativa.
Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu L'homme nu: "Ao homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada".
A Bíblia, no último livro, Apocalipse, conclui assim: "Vi então um novo céu e uma nova terra. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: 'Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.'"
No meio da perplexidade, fico com Kant: "A balança do entendimento não é completamente imparcial, e um braço da mesma com o dístico 'esperança do futuro' tem uma vantagem mecânica, que faz com que mesmo razões leves, que caem no seu respectivo prato, levantem o outro braço, que contém especulações em si de maior peso. Esta é a única incorrecção que eu não posso eliminar e que eu na realidade não quero abandonar."

quarta-feira, setembro 02, 2009

"Crescer como pessoas para servir como pastores"


O cardeal-patriarca de Lisboa repreendeu hoje bispos e padres que «se consideram com o direito de decidir pela sua cabeça» em vários domínios da Igreja Católica, considerando que isso fragiliza «a proposta cristã» e cria «divisões»

«Enquanto houver alguns bispos e padres que se consideram com o direito de decidir pela sua cabeça os caminhos de pastoral, o sentido da existência moral, a maneira de celebrar, estamos a fragilizar a proposta cristã, num mundo que saberá aproveitar, com os seus critérios, as nossas divisões», afirmou D. José Policarpo, no VI Simpósio do Clero, que junta em Fátima cerca de mil sacerdotes.

Para o cardeal-patriarca, que não concretizou a que situações se referia, o futuro da Igreja «ultrapassa as capacidades de visão e de decisão de cada um de nós», acrescentando que «a Igreja tem na sua unidade a sua força» e que a comunhão «é muito mais que uma questão de disciplina».

«A comunhão hierárquica exige a humildade da obediência, atitude básica de uma total disponibilidade para o serviço», disse.

Numa intervenção intitulada Crescer como pessoas, para servir como pastores, o cardeal-patriarca considerou que a «total disponibilidade para o serviço define o ministério sacerdotal» e realçou que «o sacerdote é chamado a pôr-se totalmente ao serviço da edificação da Igreja, com tudo o que é e tudo o que tem».

«Muitos sacerdotes dão, neste aspecto, sinais de contradição interior. São generosos no trabalho, desmultiplicam-se em actividades, como diz o povo, trabalham que nem mouros, mas permanecem egocêntricos quando reivindicam autonomia de critérios, na gestão dos afectos, no estabelecer de prioridades, na atitude perante os bens materiais», declarou.

O cardeal-patriarca advertiu mesmo que «muitas vezes o pastor assemelha-se mais a um gestor de empresas do que ao pastor que conhece as pessoas, com os seus problemas próprios e o seu ritmo de caminhada».

D. José Policarpo defendeu a necessidade de “redescobrir o Concílio” Vaticano II.

«É preciso redescobrir o Concílio e o seu desafio de estar atento aos sinais que, apesar de tudo, nos vêm do seio desse mundo que mudou, a sugerirem o verdadeiro rosto da Igreja nesta nova etapa da missão», salientou, referindo que «não se evangeliza esse mundo identificando-nos com ele e cedendo aos seus critérios, nem propondo-lhe formas de ser que já não o interpelam».

«Não queiramos ser como o mundo gostaria que fossemos, procuremos a nossa identidade no seguimento de Jesus Cristo, na fidelidade à Igreja e na santa liberdade dos filhos de Deus», declarou.

Lusa/SOL

NOTA DA REDACÇÃO - AS PALAVRAS NÃO SÃO MINHAS MAS VOU SUBLINHÁ-LAS: "HUMILDADE DE OBEDIÊNCIA", "DISPONIBILIDADE PARA O SERVIÇO", "TOTAL DISPONIBILIDADE", "NÃO SE EVANGELIZA ESSE MUNDO IDENTIFICANDO-NOS COM ELE E CEDENDO AOS SEUS CRITÉRIOS", "SANTA LIBERDADE DE FILHOS DE DEUS"...NÃO ENTEADOS, MUITAS VEZES PREPOTENTES, DOMINANTES, DESEDUCADOS. VÁ LÁ QUE TALVEZ MINORIAS NUMA MAIORIA DE TOTAL DISPONIBILIDADE, LIVRE E FIEL, COOPERANTE, DISPONÍVEL, CIENTE QUE O CONCÍLIO VATICANO II COMEÇOU A ACONTECER NAS DÉCADAS DE 60, 70, 80 E DEPOIS, SIMPLESMENTE, PASSOU...

sábado, agosto 22, 2009

início do Ramadão - os 5 pilares do Islão

"A crença é muito pessoal", defende o xeque David Munir. Este é o o único pilar que não está relacionado com a prática. Os muçulmanos têm de acreditar em seis crenças: Alá, como único Deus, nos anjos criados por Deus, nos livros sagrados, nos vários profetas, dos quais o último é Maomé, no Juízo Final e na predestinação . O imã da Mesquita Central de Lisboa sublinha que não se pergunta aos muçulmanos se estes têm fé. "É algo em que cada um tem de acreditar", considera. Os livros sagrados devem ser estudados e entre eles encontram-se a Tora, os Salmos e o Evangelho. O Alcorão é o principal e mais completo livro sagrado, constituindo a colectânea de todos os ensinamentos revelados por Alá ao profeta Maomé.

O último pilar do islão é a hajj ou a peregrinação a Meca (cidade natal do profeta Maomé), que acontece no último mês do calendário islâmico, Dul - Hijjah. Esta peregrinação é obrigatória pelo menos uma vez na vida, para qualquer muçulmano, homem ou mulher, que for mental, financeira e fisicamente apto. O peregrino tem de ter possibilidades financeiras para cobrir os gastos pessoais e familiares, pagar as suas dívidas ou pelos menos aprovisionar as mesmas, até a peregrinação acabar. Não é permitido ao crente contrair uma dívida para poder cumprir este preceito, pondo em risco a sobrevivência da família. Antes de chegar a Meca os peregrinos vestem-se com uma roupa toda branca, para que todos estejam iguais e não haja diferenças.

Significa abstinência de comer, de beber, de ter relações sexuais e de fumar entre o período antes da alvorada até ao pôr do Sol, durante o mês do Ramadão, que é nono mês do calendário islâmico. Mas a par da abstinência física existe uma vivência espiritual muito específica, em que cada um deve procurar viver de forma mais espiritual, paciente e altruísta. Estão isentos do jejum os idosos, os doentes crónicos (diabéticos, asmáticos, entre outros), as mulheres grávidas ou as que amamentam os filhos, as mulheres durante a menstruação e os viajantes. Também as crianças estão dispensadas de fazer jejum durante o Ramadão. Só a partir da puberdade passa a ser obrigatório o jejum completo para os mais novos.

É um dever prescrito por Deus e cumprido pelos muçulmanos em benefício da sociedade no seu conjunto. A palavra zacát não inclui apenas caridade, esmola, bondade, mas acrescenta a tudo isso a recordação de Deus e motivações tanto espirituais como morais. Zacát designa a quantidade anual em géneros ou quantia que um muçulmano tem de distribuir pelos mais necessitados. Representa um valor equivalente a 2,5% do lucro anual de um muçulmano, depois de deduzidas as despesas pessoais, as da família, os gastos indispensáveis, os impostos e as contribuições fiscais e outros encargos, conforme indica o xeque David Munir. Esta contribuição é considerada como uma forma de purificação e de culto.

Os muçulmanos têm de cumprir cinco orações diárias: a da alvorada, a do meio--dia, a do meio da tarde, a do pôr do Sol e a da noite. A prática da oração é obrigatória para qualquer muçulmano, quer seja homem ou mulher, desde que adulto, são e responsável. No caso das mulheres, estão dispensadas das orações, durante a menstruação ou no parto. O período máximo de ambos os casos é de dez e quarenta dias, respectivamente. Tanto homens com o mulheres devem vestir roupa adequada ao momento da oração, como, por exemplo, evitar roupas transparentes. Os fiéis devem estar voltados para Meca, a cidade santa, enquanto rezam. A oração só é válida se antes forem lavadas as partes do corpo expostas às impurezas.

in: DN, Lisboa

sábado, agosto 01, 2009

O futuro sem futuro



Eles também nascem. E crescem. Também amam e esperam. São seres humanos como nós. Também sorriem, mas tristes: a alma afunda-se na negrura da impotência, da dor e da tristeza. Tentam trabalhar. Sofrem demais. Morrem cedo, demasiado cedo. De desnutrição, de falta de água e de higiene e de remédios. De fome. Faltou-lhes tudo.

Eles são os pobres. Aos milhões, cada vez mais. E é uma vergonha para a Humanidade que, quando há possibilidade do mínimo para todos, tantos morram ao abandono da fome. E Deus a perguntar, como no princípio a Caim: "O que fizeste do teu irmão?" Como se pode tolerar que ao mesmo tempo que aumenta a riqueza mundial seja cada vez maior o fosso entre os ricos e os pobres, cujo número, com a crise, não cessa de crescer?

São homens e mulheres, aos milhões - muitas crianças -, a quem foi negada a dignidade humana. Este é que é o problema maior da Humanidade, que tem de ter uma solução. Esperamos numa boa solução. Porque, se não for a bem, será a mal. De facto, quem julga que o tempo das revoluções acabou está enganado. Vem aí a revolução dos pobres e desesperados.

Na sua última encíclica, Caritas in Veritate (A caridade na verdade), Bento XVI tentou dizê-lo, mas, segundo alguns, sem a força necessária. Daí, a par do merecido aplauso, as justas críticas ao documento. Que é demasiado longo, num amálgama para todos os gostos, o que é verdade. Que, ao falar a partir de um lugar soberano de pureza moral, ignora a necessária autocrítica da Igreja, o que também é verdade. Que a crítica do mercado e do universo financeiro tinha de ser muito mais severa e concreta. Que é equilibrista e tem míngua de análise crítica e denúncia e anúncio proféticos.

Se há desafio gigantesco para a Humanidade, é o de encontrar um modelo económico que alie liberdade e justiça. De facto, com o comunismo, o que se queria era implantar a justiça, mas o resultado foi uma sociedade sem liberdade nem justiça. Com o capitalismo desenfreado, a liberdade é só para alguns e opressora.

Como acaba de escrever o famoso bispo Pedro Casaldáliga, "impõe-se também uma recusa crítica do suposto 'triunfo' do capitalismo neoliberal. Porque nós, pelo menos, não vemos em lado nenhum esse triunfo, se nos referimos à imensa maioria da Humanidade. Acrescendo que o próprio capitalismo neoliberal triunfante não se sente tão seguro de si, frente às suas contradições internas. Mas, mesmo que esse triunfo do egoísmo estrutural se tivesse dado, seria um fracasso ético da família humana, pois estar-se-ia a evidenciar, mais uma vez, a impossibilidade de uma política e uma economia honestamente fraternas; ter-se-ia imposto outra vez, como única possível, a 'ética dos lobos'".

A encíclica, inesperadamente, refere- -se à necessidade de mais Estado, critica o neoliberalismo e diz que urge uma Autoridade política mundial reconhecida por todos. Mas não houve ousadia profética. Continua a inscrever-se, ainda que o seu fio condutor seja o do desenvolvimento humano integral, no horizonte do desenvolvimento aparentemente sem limites. Como escreveu J. Ignacio Calleja, não se colocou a questão do "decrescimento" como forma de mudar os estilos de vida. Eu próprio há muito tempo me pergunto se não continuamos inconscientemente instalados na ideia de um progresso ilimitado. Mas a pergunta é: é possível um desenvolvimento sem limites num mundo limitado? Por outro lado, não é verdade que se torna cada vez mais claro que o "trabalho" se tornou definitivamente um bem escasso e que é preciso partilhá-lo, com todas as consequências? Cá está o tal "decrescimento".

Afinal, a questão é simples. O presente modelo de desenvolvimento não é universalizável. Quem tiver dúvidas pergunte o que acontecerá, quando, por exemplo, os quase três mil milhões de chineses e indianos quiserem e obtiverem os padrões de vida e consumo ocidentais. A contradição é esta: por um lado, impõe-se promover os pobres, que têm direito ao desenvolvimento, mas, por outro, no quadro do nosso modelo, isso é problemático, porque o planeta não aguenta ecologicamente. Então?

Anselmo Borges - DN, Lisboa, hoje


terça-feira, julho 07, 2009

A Net uniu esta Bíblia que estava partida em quatro


Durante séculos, não se soube onde estava a Bíblia mais antiga do mundo
O biblista português Armindo Vaz, professor na Universidade Católica, foi espreitar ao computador mal soube da notícia, dada pelo P2: ontem a British Library colocou na Internet as 800 páginas do Codex Sinaiticus, um dos mais antigos (ou mesmo o mais antigo) dos manuscritos bíblicos existentes, datado do século IV. As folhas estavam dispersas em quatro bibliotecas - Londres, Leipzig, São Petersburgo e Monte Sinai - e estão desde ontem todas reunidas à distância do clique do computador. "É um dos manuscritos mais importantes da Bíblia", comenta o padre Armindo Vaz, que nas suas aulas na Católica já vinha anunciando aos alunos a colocação do códice na Internet. Opinião confirmada pelo director de manuscritos ocidentais da biblioteca britânica, Scot McKendrick: "O Codex Sinaiticus é um dos maiores tesouros escritos do mundo." Tem "uma enorme importância para a história da fixação do cânone bíblico", acrescenta Armindo Vaz. Isto quer dizer que, nos primeiros anos do século IV, o Códice Sinaítico, como pode ser designado em português, já continha todos os livros que viriam a ficar na Bíblia cristã: todos os do Antigo Testamento na versão dos Septuaginta (ou dos Setenta, utilizada pelos judeus da diáspora, em que se incluíam mais sete livros que na utilizada em Israel) e todo o Novo Testamento tal como o conhecemos hoje. Mas o Codex Sinaiticus continha ainda dois outros livros, que acabaram por não ganhar o direito a ficar no cânone bíblico tal como hoje o conhecemos: O Pastor, de Hermes, um livro apocalíptico (do qual existe já uma versão em português, editada pela Universidade Católica/Livraria Alcalá), e a Carta de Barnabé. A inclusão destes dois textos no códice significa que outros livros "andaram por dentro do cânone", até este ser fixado - durante o século IV ele ganha forma quase definitiva, mas só na época da Reforma protestante, há cinco séculos, fica definitivamente estabelecido. A Igreja Católica assumiria os sete deuterocanónicos, assim chamados (Tobias, Judite, Macabeus I e II, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc), os protestantes não os incluiriam, enquanto a Bíblia utilizada pelos ortodoxos contém ainda mais alguns. Uma longa aventura A importância do Codex Sinaiticus traduz-se ainda no facto de ele demonstrar que as comunidades cristãs dos primeiros séculos utilizavam essa versão dos Septuaginta como favorita. A possibilidade de consultar agora na Internet (http://www.codex-sinaiticus.net/en/) o manuscrito deste códice põe fim a uma longa aventura das folhas por vários cantos da Europa. O filólogo e arqueólogo alemão Constantin von Tischendorf descobriu, em 1859, o manuscrito no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai (Egipto). Estando à procura de manuscritos, ao serviço do czar russo, Tischendorf convenceu os monges a deixarem-no levar a Bíblia, para ser copiada em São Petersburgo. O arqueólogo depositou uma parte do manuscrito na Biblioteca de Leipzig (Alemanha) e outra na de São Petersburgo (Rússia). A maior parte do códice seria, já em 1953, adquirida pela British Library. No Egipto, os monges descobriram entretanto, em 1975, mais uma dúzia de fólios, soterrados em escombros de paredes antigas. Há quatro anos, as quatro instituições que guardavam partes do códice resolveram juntar-se para restaurar o manuscrito, digitalizar todas as 800 páginas ainda recuperáveis (entre as 1460 originais) e disponibilizá-las online. O Mosteiro de Santa Catarina ainda hesitou, explica-se no site do manuscrito, mas acabou por aderir ao projecto. O texto foi escrito em grego, por vários escribas, que utilizaram pergaminho de pele de boi, em folhas que medem 40 centímetros por 35. "É um dos mais antigos tesouros escritos do mundo", afirmou ontem Scot McKendrick, citado pela Reuters. O outro códice contemporâneo deste é o Codex Vaticanus, que data da mesma época e está desde 1475 guardado nos arquivos da Santa Sé, e que contém também praticamente os mesmos textos. A British Library tem patente uma exposição sobre o manuscrito, a propósito do lançamento do site, e que inclui vários artefactos históricos relacionados com o códice.
07.07.2009 - 10h13 António Marujo, Público


sexta-feira, julho 03, 2009

O Mundo afasta-se da Igreja?


Sentimos todos que o Homem contemporâneo se mantém religioso. Ainda recentemente, Tony Blair vaticinou que «a fé religiosa poderá ter para o século XXI o mesmo significado que a ideologia teve para o século XX». Atrever-me-ia, contudo, a ir mais longe: não será que o mundo está a dar sinais de ser mais religioso que a própria Igreja?
De facto, há indícios de que a religiosidade cresce no mundo e de que, ao mesmo tempo, a secularização aumenta na Igreja. Estaremos em vias de ter uma Igreja secularizada no meio de um mundo religioso? Há um número crescente de pessoas que prefere manifestar as suas crenças nas ruas ou nos salões a fazê-lo nas igrejas. Será que até para expressar a sua fé as pessoas se vão afastando da Igreja? Se olharmos para as procissões desta época do ano, depressa verificaremos que nelas participam não só muitos dos que vão à Igreja, mas também bastantes dos que lá não vão ou vão muito raramente. Porque é que o costume do povo congrega mais que o apelo dos pastores?
2.O problema não está na religiosidade popular. A relação com o divino está mesmo entranhada no ser humano. O antropólogo Robert Marett já sugeriu que, mais do que homo sapiens, o ser humano devia ser designado homo religiosus. Mircea Eliade reconhece que o sagrado é um elemento da estrutura da consciência humana e não um mero estádio da história da consciência. E Rudolf Otto anota que o sagrado é um a priori inato da mente humana. A esta luz, podemos dizer que a religião não é um mero fenómeno religioso. É um verdadeiro fenómeno humano. É neste sentido que, como assevera José Antonio Marina, «a matriz de todas as culturas foi religiosa». Na verdade e como acrescenta Clyde Kluckkon, «até ao emergir das sociedades comunistas, não conhecemos nenhum grupo humano sem religião». S. Justino sustenta que as sementes do Verbo de Deus estão espalhadas por todos os homens. Tertuliano proclama que «a alma humana é naturalmente cristã». Mais recentemente, Karl Rahner desenvolveu a teoria do cristianismo anónimo e Edward Schillebeeckx debruçou-se sobre o cristianismo implícito. Também Xavier Zubiri propõe a ideia de haver, em toda a parte, um cristianismo intrínseco, um cristianismo germinal. 3. Estaremos nós, em Igreja, a optimizar devidamente este ADN espiritual da humanidade? É bom não esquecer que, já em 1985, os bispos do mundo inteiro, reunidos em Sínodo, perguntavam se a difusão das seitas não era o sinal de que nós, católicos, estávamos a perder o sentido do sagrado. D. Walmor Oliveira de Azevedo assinalou, recentemente, que «um católico abandona a Igreja porque, muitas vezes, não encontra Deus nela». Na sua óptica, «muitos, no fundo, não querem abandonar a Igreja; o que querem é procurar sinceramente a Deus». 4. Em conexão com a espiritualidade vem sempre a caridade. Se não praticamos o acolhimento e a delicadeza, se não nos envolvemos nas causas da justiça e da defesa dos mais pobres, não convenceremos ninguém. As pessoas necessitam de ouvir a verdade. Mas precisam igualmente de ver o amor. Se não o virem na nossa vida, não acreditarão nas nossas palavras. D. Adriano Bernardini, Núncio Apostólico na Argentina, advertiu em tom autocrítico: «Explicamos ao povo as sublimes palavras de Jesus e, na prática, descobrimo-nos, com frequência, rudes e até desumanos». É por isso que, como refere Louis Mangkhanekhoun, «o mundo está cansado de escutar, mas não está cansado de se maravilhar e de admirar um testemunho verdadeiro. Há fome e sede de pastores que vivam aquilo que pregam e que preguem aquilo que vivem».

João António Pinheiro Teixeira
Padre


sábado, junho 27, 2009

Imagem de Deus e do Homem


I ndependentemente do que se pense sobre a concepção de Deus como mera projecção do Homem, penso que mesmo os crentes não terão dúvidas de que a imagem de Deus será decisiva para a imagem que têm de si mesmos, do Homem e do mundo.

Talvez nada possa prejudicar tanto o ser humano como uma imagem malsã de Deus. Por isso, nunca se agradecerá suficientemente àqueles e àquelas, crentes e ateus, que ousaram, até ao sacrifício da própria vida, purificar a imagem de Deus. De facto, é preferível ser ateu a acreditar num deus que humilha o Homem, o escraviza ou diminui aos seus próprios olhos. Uma imagem malsã de Deus envenena a imagem do Homem e vice-versa.

Cá está! Durante séculos, foi pregado um deus irado e mesquinho. Era tal a sua ira que precisou da morte do Filho para ser aplacado e reconciliar-se com a Humanidade. E, devido ao pecado cometido por Adão e Eva, mandou todos os males ao mundo, incluindo a morte. Durante quanto tempo se pregou que foi por causa de terem comido o fruto proibido - uma maçã, segundo a imaginação popular?

Perante a arbitrariedade de um deus assim, o que podia esperar-se senão ateísmo? Não se tratava de um deus mesquinho e invejoso da alegria dos seres humanos? E não criou esta ideia personalidades atormentadas, torturadas, com a obsessão de não ofenderem um deus que tudo proibia? Ainda recentemente, uma jovem estudante me atirou: "quando penso na Igreja, só vejo proibições, como se a alegria estivesse envenenada".

Mas, depois, foi-se para um outro extremo, não menos pernicioso. Começou-se a pregar um Deus que é amor, mas sem se perceber o que é o amor. Prega-se então um deus "bonzinho", que nada exige, que não impõe regras nem limites, que permite tudo.

No fundo, um deus que não é nada. De facto, um deus que tudo permite e nada exige ainda ama? Sabemos o que acontece aos filhos com a imagem de pais irados. E que lhes acontece, quando os pais tudo permitem e nada exigem? Quando os pais não impõem regras nem limites, os filhos ainda acreditam que lhes têm amor de verdade?

Afinal, onde reside o equívoco? A imagem de um deus irado estará na base de personalidades torturadas, azedas e violentas; a imagem do deus "bonzinho" estará na base de personalidades anárquicas, desestruturadas, sem auto-estima e igualmente destruidoras.

Assim, o que é preciso compreender é que Deus não impõe mandamentos arbitrários, pelo culto de si e para ser tiranicamente obedecido. É igualmente um erro pensar que os homens e as mulheres ofendem Deus directamente. Como pode um ser finito ofender Deus? Pelo menos segundo a compreensão do cristianismo, Deus não se revelou por causa dele e da sua glória, mas por causa dos seres humanos e da sua felicidade, de tal modo que só o que ofende os homens e as mulheres o pode ofender a ele.

O que Deus exige é por causa do Homem. O único interesse de Deus é o Homem. Como escreveu Santo Ireneu, "a glória de Deus é o Homem vivo", isto é, o Homem plenamente realizado em todas as dimensões. De tal modo Deus ama o Homem que quer que tenha um desenvolvimento íntegro de toda a sua pessoa. Não pode desenvolver-se apenas numa dimensão, pois precisa de um crescimento holístico. Deus quer que o Homem vá tão longe no seu ser quanto pode ser.

É necessário sublinhar este desenvolvimento harmónico da pessoa toda, que é o que Deus quer.

A pessoa deve desenvolver-se no seu ser físico - também é preciso cuidar da saúde, por exemplo -, no seu ser intelectual - é preciso esforçar-se por entender a realidade, entender-se a si mesmo e a sociedade -, no seu ser emocional - cada vez estamos mais despertos para a importância das emoções positivas e negativas na existência humana -, no seu ser social - os outros também existem e sem tu não há eu -, no seu ser artístico - sem beleza, não há salvação -, no seu ser moral - é preciso aprender a distinguir entre bem e mal e a saber julgar do bem e do mal - no seu ser espiritual - não é o Homem, constitutivamente, o ser do transcendimento sem fim, até ao Infinito?

PADRE ANSELMO BORGES - DN,Lisboa hoje

quarta-feira, maio 27, 2009

"Vaticano defende punição de padres pedófilos"

Vaticano defende punição de padres pedófilos

O cardeal Claudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero, admite que há padres envolvidos em casos de abusos, como os da Irlanda, mas lembra que essa é uma percentagem muito pequena do clero.

O Vaticano declarou ontem que os padres que estiveram envolvidos em casos de abusos sexuais devem ser julgados e, se for o caso, punidos.

“É verdade que alguns padres estiveram implicados em graves problemas e situações delituosas”, declarou o cardeal Claudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero, numa carta, em francês, publicada no site da congregação (www.clerus.org).

“Evidentemente que será preciso continuar a investigar sobre eles e que será preciso julgá-los de forma correcta e puni-los”, disse o prefeito, garantindo que estes padres são “uma pequena percentagem do clero”.

Na Irlanda, há uma semana, uma comissão de inquérito publicou um relatório que concluiu a existência de abusos sexuais contra crianças, ao longo de quase sete décadas, em instituições geridas por congregações da Igreja Católica.

O relatório da comissão, divulgado após nove anos de investigações, acusou a Igreja de ter guardado o silêncio sobre estes abusos. Tal como o Estado irlandês.

Há cerca de um mês, o Papa Bento XVI tinha lamentado os abusos cometidos contra crianças ameríndias canadianas por parte da Igreja católica, denunciando como “deplorável” a conduta dos membros do clero.

Sobre o caso da Irlanda, o Vaticano tinha deixado, inicialmente, a reacção para a Igreja irlandesa, que disse lamentar esta “vergonha”. Até hoje nenhum dos seus altos responsáveis se tinha pronunciado, incluindo o Papa. A Igreja irlandesa prevê divulgar os resultados da sua própria investigação em Julho. E essa poderá ser, então, uma oportunidade para Bento XVI falar.

por PATRÍCIA VIEGAS - DN

quarta-feira, maio 13, 2009

Curiosidades:Como se elege um Papa e como o nome é escolhido.


O Papa é eleito por um colégio de cardeais que se reúne no Vaticano a portas fechadas. A assembleia para a escolha de um novo pontífice chama-se Conclave. Após a morte do papa, todos os cardeais do mundo com menos de 80 anos devem viajar para Roma. Hoje existem 135 "eleitores" nessa situação, seis deles brasileiros. Mas o processo de escolha nem sempre foi tão restrito (e pacífico). Foi o papa Nicolas II quem instituiu, em 1509, um decreto tornando a participação na votação exclusiva aos cardeais. Antes disso, era o clero e o povo quem apontava o representante máximo da Igreja Católica e as eleições costumavam ser bem mais conturbadas.
Quando o novo pontífice é eleito, ele recebe um nome especial para honrar uma tradição iniciada ainda com o primeiro líder da Igreja Católica. Segundo a historiografia cristã, Jesus mudou o nome do pescador Simão, um dos seus apóstolos, quando o escolheu para ser seu representante na terra, dizendo o seguinte: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja". Simão tornou-se São Pedro e desde então cada Papa eleito indica o nome que lhe agrada. "A escolha do nome é surpresa também para nós, cardeais", diz o cardeal brasileiro dom Paulo Evaristo Arns, que participou dos conclaves que elegeram os papas João Paulo I e João Paulo II, em 1978.

Fumo branco nos céus do Vaticano indica que um novo nome já foi escolhido

1. Quando o papa morre, o camerlengo - cardeal que assume a igreja interinamente - cumpre um ritual. Ele toca três vezes a testa do papa com um martelinho e o chama pelo nome de baptismo. Sem resposta, ele anuncia oficialmente o falecimento

2. O conclave começa 18 dias após a morte do papa, tempo necessário para que os cardeais de todo o mundo cheguem a Roma. Eles se reúnem num edifício ao lado da Basílica de São Pedro e recebem um livro contendo parte da vida e da obra de cada um dos cardeais presentes ao conclave - todos candidatos a ser o novo papa

3. A eleição é na Capela Sistina, famosa pelas pinturas do genial Miguel Angelo (1475-1564). Cada cardeal indica o colega que quer como papa e põe o voto (secreto) num cálice. É difícil algum nome receber logo as indicações necessárias: dois terços mais um voto. Por isso, ocorrem várias votações, duas por dia, até surgirem candidatos fortes que consigam atrair cada vez mais apoio

4. No fim de cada rodada, os votos são contados e queimados. Se nenhum cardeal atingiu os dois terços, os votos são queimados com um produto químico que gera uma fumaça negra que sai da capela. Se a votação indicou um novo papa, os votos são queimados com um produto que torna a fumaça branca

5. Quando um cardeal atinge dois terços mais um dos votos (ou a maioria simples após 30 votações), o camerlengo pergunta ao vitorioso se ele aceita ser Papa e qual nome deseja usar. Depois, o camerlengo vai ao balcão de pregações na Basílica de São Pedro e diz a famosa frase:" Habemus papam", ou seja, "temos um Papa"
In: Mundo Estranho