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sexta-feira, novembro 12, 2010

em 1871 escrevia-se...


"O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguén crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. Os servis públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o País está perdido"

Eça de Queiroz
"As Farpas", vol.I -1871  
na foto, Eça de Queiroz, 1871, autoria de H. S. Mendelssohn

como se fazem os cenários no cinema?

quinta-feira, novembro 11, 2010

Keenan Cahill a pequena sensação musical

Morreu o "Senhor do Adeus"

João Manuel Serra morreu aos 79 anos. Ficou conhecido por cumprimentar toda a gente que passava na zona do Saldanha


João Manuel Serra, o "Senhor do Adeus", morreu ontem aos 79 anos. João ficou conhecido dos lisboetas por todas as noites acenar aos carros e às pessoas que passavam perto da zona do Saldanha, sempre com um sorriso estampado na cara e impecavelmente vestido.
Esta era a fórmula do "Senhor do Adeus" para afugentar a solidão. "Essa senhora é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias da casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente", disse numa entrevista à revista "Única", do Expresso.
"Venho para a Praça Duque de Saldanha desde que fiquei nas mãos de não ter ninguém. Nasci aqui perto, na casa da minha avó. Um palacete bonito que o Calouste Gulbenkian quis comprá-lo. A vida dá estranhas voltas, o meu destino é acenar a quem me cumprimenta. Estou sujeito a que me chamem maluco, mas não me importo. Da minha solidão sei eu", acrescentou.
João Manuel Serra era um amante de cinema. E todos os domingos ia ao El Corte Inglés assistir a um filme na companhia de Filipe Melo, músico de jazz e realizador, e Tiago Carvalho. Posteriormente, João Serra fazia um comentário do filme no blogue "O Senhor do Adeus".fonte DN, Lisboa
NOTA DA REDACÇÃO - JOÃO SERRA SOFRIA COM A SOLIDÃO; ACENAR E SORRIR, MESMO SE SENDO INSULTADO, ERA A SUA FORMA DE MINORAR ESSA SOLIDÃO. FELIZ DELE PORQUE PODIA SAIR, PORQUE AINDA TINHA AMIGOS, PORQUE TINHA ESTRUTURA MORAL PARA PARTILHAR UM SORRISO. FICA A REFLEXÃO.

(surge et ambula)
‘ergue-te e anda
Tu que dormes, espírito sereno, 
Posto à sombra dos cedros seculares, 
Como um levita à sombra dos altares, 
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo
O sol, alto e pleno
Afugentou as
larvas tumulares 
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera um aceno

Escuta
É a grande voz das multidões! 
São teus irmãos, que se erguem!  
São canções 
Mas de guerra… e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos
raios de luz do sonho puro, 
Sonhador, faze espada de combate!


Antero de Quental

quarta-feira, novembro 10, 2010

Salvando um beija-flor

ah, se todos pensassem assim...
 

a paixão popular

"Zé-Povinho amarrado pelos laços dos deficit à coluna dos impostos, é ameaçado pela lança do selo, suporta resignado as crueldades dos judeus políticos, até que a cana verde que tem nas mãos se transforme num cacete seco."
O António Maria, 25 de Março de 1880
Rafael Bordalo Pinheiro

a Terra precisa de nós

arroz do céu

(...) E foi assim que aquela chuva benéfica, de arroz polido, carolino, de primeira, acabou por lhe dar a noção concreta de uma Providência. O arroz, vinha do céu, como a chuva, a neve, o sol e o raio. Deus, no Alto, pensava no limpa-vias, tão pobre e calado, e mandava-lhe aquele maná para encher a barriga aos filhos. Sem ele ter pedido nada. Guardou segredo – é mau contar os prodígios com que a graça divina nos favorece. Resignou-se a ser um objecto da vontade misericordiosa do Senhor. E começou a rezar-lhe, fervorosamente, à noite, o que nunca fizera: ao lado da mulher. Arroz do céu...
O céu do limpa-vias é a rua que os outros pisam.

José Rodrigues Migueis, Arroz do Céu

terça-feira, novembro 09, 2010


A EXCELENTE MUSICA PORTUGUESA

A Vaidade como Base da Sociedade

“A vaidade e a fortuna governam a farsa dessa vida. Ninguém recebe o seu papel. Cada um recebe o que lhe dão. Aquele que sai sem fausto nem cortejo e que logo no rosto indica a dor e o sofrimento, este representa o papel do homem. A morte, que está de sentinela, em uma das mãos tem o relógio do tempo e na outra tem a foice fatal. E com ela, de um golpe só, dá fim à tragédia, fecha a cortina e desaparece"

"Nada contribui tanto para a sociedade dos homens, como a mesma vaidade deles: os Impérios, e Repúblicas, não tiveram outra origem, ou ao menos não tiveram outro princípio, em que mais seguramente se fundassem: na repartição da terra, não só fez ajuntar os homens os mesmos géneros de interesses, mas também os mesmos géneros de vaidades, e nisto se vê dois efeitos contrários; porque sendo próprio na vaidade o separar os homens, também serve muitas vezes de os unir. Há vaidades, que são universais, e compreendem Vilas, Cidades, e Nações Inteiras; as outras são particulares, e próprias de cada um de nós; das primeiras resulta a sociedade, das segundas a divisão."


Matias Aires, Filósofo, 1705-1764,
in "Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna"

segunda-feira, novembro 08, 2010

Coca-cola....

Patria Abnegada

Crucé la frontera amor,
no sé cuando volveré.
Tal vez cuando sea verano,
cuando abuelita luna y padre sol se saluden otra vez,
en una madrugada esclareciente,
festejados por todas las estrellas.
Anunciarán las primeras lluvias,
retoñarán los ayotes que sembró Víctor
en esa tarde que fue fusilado por
militares,
florecerán los duraznales
y florecerán nuestros campos.
Sembraremos mucho maíz.
Maíz para todos los hijos de nuestra tierra.
Regresarán los enjambres de abejas
que huyeron
por tantas masacres y tanto terror.
Saldrán de nuevo de las manos
callosas tinajas
y más tinajas para cosechar la miel...
... volveré mañana, cuando mamá torturada
teja otro hupil multicolor
cuando papá quemado vivo madrugue otra vez,
para saludar el sol desde las cuatro esquinas
de nuestro ranchito...

 
Rigoberta Menchú


Rigoberta Menchú Tum é uma indígena guatemalteca do grupo Quiché-Maia. Foi premiada com o Nobel da Paz em 1992, pela sua campanha pelos direitos humanos, especialmente a favor dos povos indígenas, sendo Embaixadora da Boa-Vontade da UNESCO e vencedora do Prémio Príncipe das Astúrias de Cooperação Internacional.
Grande parte de sua popularidade foi conquistada através do livro auto-biográfico de 1982-83 "Me llamo Rigoberta Menchú y así me nació la conciencia".

domingo, novembro 07, 2010

"o rato do campo e o rato da cidade"


Tudo no Universo tem valor relativo.
Na vida dos povos é a História que regista os factos.
Na vida das pessoas é a memória que regista as emoções.
Instintivamente criamos hábitos, afectos, necessidades que se vão substituindo em cadeia, tecendo a nossa maneira de ser e agir, espalhando sinais no registo da nossa própria história.
A globalização, as exigências tecnológicas que todos os dias nos entram porta adentro, contrastam com as limitações e simplicidade de vida que ainda se vive nas zonas rurais da Madeira.
Vivi a realidade rural em 1973 sem água canalizada, com cortes quase diários de luz, com redes viárias distantes, autênticas vias dolorosas da necessidade de chegar. Porém, eram matematicamente certas e acertadas no seu empedrado simétrico, património que nunca deveria ter sido destruído ou alcatroado na sua totalidade.
A luz estabilizou e tornou-se universal tal como a água nos chegou, não tem muitos anos, com à vontade, mas perdendo a frescura das nascentes pela necessidade de desinfecção.
Evoluem as estradas, os edifícios, os espaços comerciais vocacionados para o turismo, mas há mentalidades que nunca evoluem.
Às lufadas, a civilização vai penetrando o meio rural, mas não entra o saneamento básico, o simples número de porta, a qualidade ambiental, o sentimento ecológico da Natureza e a sua capacidade de pressão e impressão sobre o turismo, a tecnologia. Não para um ou dois, mas para todos.
Fazem-se projectos, inventam-se obras e submetem-nas ao parecer de uma, duas, três cabeças, de ideias “acimentadas”, sem ouvir a opinião dos residentes, sobre o que é deles e para eles.
Tudo se resolve em gabinetes de cidade.
E o que outrora era aprazível, rico de verdes, de folhagens rebeldes que no Outono enchiam a estrada, no Verão dando a sombra, dos bancos de madeira e neles o descanso dos idosos a caminho da Igreja, das crianças, dos encontros imprevistos, da cabine telefónica – única por sinal – desaparecida sabe-se lá porquê e para onde, hoje é uma imensidão árida, fria e impessoal, de um branco obsceno pelo seu custo ao m2, descaracterizando um adro, um parque, o centro de uma povoação, desertificando a paisagem da Santa, em Porto Moniz.
Ninguém se conforma!
Sinais de tempos insensatos em que o ciclo repetitivo da História nos dará, de luva branca, a chamada de atenção às gerações futuras.
Haverá sempre um destino a preencher, um fim a conseguir, uma ambição a realizar e quem queira, num impulso, opinar ou contrariar uma insensatez será, no mínimo, marginalizado. Assim se vive a Democracia.
Entra aqui a conhecida fábula de Esopo “O Rato do Campo e o Rato da Cidade”.
A teoria do conceito de existência áurea mediocritas que defende o ideal de vida tranquila, caracterizando a ruralidade numa total ambientação com a natureza, livre por opção, mas a que hoje sentimos necessidade de acrescentar alguma da tecnologia moderna, tem levado a que sejam dezenas as famílias urbanas que escolhem para lazer, fins-de-semana e férias, as veredas e ruas estreitas onde antigos palheiros se transformaram em pequenas habitações. Sejam bem-vindos!
A qualidade de vida do “rato do campo” que, na sua paz de espírito usa a tranquilidade, o ar puro e aproveita da terra os seus frutos para uso, venda e despensa, vê – se assim na dependência da necessidade do tino do rato urbano para que na sua ambição, ânsia ou proveito próprio, não transformem os ratos do campo em ratos de laboratório…


Maria Teresa Santos Tavares de Góis

Publicado no Diário de Notícias da Madeira, 07 de Novembro de 2010, rubrica "Sinais dos Tempos"

tarde no mar


A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...

Florbela Espanca

sábado, novembro 06, 2010

eu e os telejornais...

Devo confessar que há mais de uma semana me recuso a ver telejornais: fartei-me do orçamento, dos políticos, das cavaqueiras, das guerras em rodapé...
Mas hoje, e enquanto fazia um trabalho de mãos, decidi fazer companhia à sonolência do meu marido e ouvir o telejornal.
Fiquei a saber que no Ruanda se criam porcos ao som de música, tal qual já se fizera com criação de vacas algures no ocidente, que as porcas que ouvem música parem mais e que o negócio vai de vento em poupa. Não sei é se os habitantes são maioritariamente muçulmanos...
A segunda notícia que me ficou no ouvido foi a da visita do Papa a Santiago de Compostela, da fraca afluência de público para a estimativa de 200 mil pessoas inicial, do apelo a uma Espanha em que apenas 14% dos católicos são praticantes ao Domingo, aos valores da Igreja e da recepção feita pelos príncipes das Astúrias, no aeroporto. Por acaso, Letícia, princesa das Astúrias pelo 2º casamento, foi a que viu INDULTADO ou PERDOADO, como queiram, o seu divórcio do 1º casamento, a troco de uma declaração em que dizia passar a ser Católica praticante. Foi esta mesma moral que anulou dois casamentos a Carolina do Mónaco e tantos outros casos de peso na Europa.
Não é com esta balança de dois pesos e duas medidas, com este discurso falsete ,quese leva o rebanho ao redil.
Moral da história: é melhor continuar o jejum dos telejornais!

tukakubana

foto do dia

Elevador da Capela Sixtina

Liberdade com Limites

Há muitas espécies de liberdade. Umas tem o mundo de menos, outras tem o mundo de mais. Mas ao dizer que pode haver «de mais» de uma certa espécie de liberdade devo apressar-me a acrescentar que a única espécie de liberdade que considero indesejável é aquela que permite diminuir a liberdade de outrem, por exemplo, a liberdade de fazer escravos.
O mundo não pode garantir-se a maior quantidade possível de liberdade instituindo, pura e simplesmente, a anarquia, pois nesse caso os mais fortes seriam capazes de privar da liberdade os mais fracos. Duvido de que qualquer instituição social seja justificável se contribui para diminuir o quantitativo total de liberdade existente no mundo, mas certas instituições sociais são justificáveis apesar do facto de coarctarem a liberdade de um certo indivíduo ou grupo de indivíduos.
No seu sentido mais elementar, liberdade significa a ausência de controles externos sobre os actos de indivíduos ou grupos. Trata-se, portanto, de um conceito negativo, e a liberdade, por si só, não confere a uma comunidade qualquer alta valia.
Os Esquimós, por exemplo, podem dispensar o Governo, a educação obrigatória, o código das estradas, e até as complicações incríveis do código comercial. A sua vida, portanto, goza de um alto grau de liberdade; contudo, poucos homens civilizados prefeririam viver assim a viver no seio de uma comunidade mais organizada.
A liberdade é um requisito indispensável para a obtenção de muitas coisas valiosas; mas essas coisas valiosas têm de partir dos impulsos, desejos e crenças daqueles que desfrutam dessa liberdade. A existência de grandes poetas confere um certo brilho a uma comunidade, mas não se pode ter a certeza de que a comunidade produzirá grande poesia só pelo facto de não existir uma lei que a proíba. De uma maneira geral, consideramos justo que se obrigue a juventude a ler e a escrever, ainda que a maioria dos jovens preferisse o contrário; fazemo-lo porque acreditamos em bens positivos que só um alto grau de alfabetização torna possível. Mas, ainda que a liberdade não constitua o total das coisas socialmente desejáveis, é tão necessária para a obtenção da maioria delas, e corre tanto o risco de ser insensatamente limitada, que mal será possível exagerar a sua importância.
Bertrand Russell, in "Realidade e Ficção"

Nota da Redacção - Palavras sábias que se resumem em duas apenas: educação e instrução.
O Homem só poderá ser livre quando lhe levantarem o véu da ignorância...

Conceito de Vida...

Na minha próxima vida, quero viver de trás para a frente. Começar morto, para despachar logo o assunto. Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar  40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo. E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer. Por fim, passo nove meses flutuando num "spa" de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois – "Voilá!" – desapareço num orgasmo...

Woody Allen

sexta-feira, novembro 05, 2010

a razão da morte do polvo PAUL

A razão de uma morte.

Colocaram o polvo Paul a tentar adivinhar o resultado das próximas eleições legislativas em Portugal. Junto à caixinha de comida colocaram as fotos do Sócrates e do Passos Coelho.
Resultado: o polvo preferiu morrer à fome

como eu vejo a Ilha

Àgua d'Alto- S.Vicente 09h00

Da Conversa

Há quem, na conversa, prefira mostrar espírito brilhante, e ser capaz de sustentar todos os argumentos, a exercer o juízo no discernimento da verdade, como se houvesse maior mérito em saber o que pode ser dito, do que em conhecer o que deve ser pensado, alguns têm certos lugares comuns e certos temas em que se mostram bons conversadores, mas são falhos na variedade; esta espécie de indigência é quase sempre aborrecida, e de vez em quando ridícula; a parte mais honrosa do colóquio consiste em dar ocasião a novo tema, e também em moderar ou acelerar a transição para assunto diferente; é bom variar, mesclando o assunto de que se está a conversar com argumentos, narrativas com discussões, perguntas com respostas, jocosidades com seriedades; há, porém, assuntos que não permitem brincadeira, nomeadamente a religião, os negócios do Estado, as altas personalidades, todas as questões de importância para as pessoas presentes, enfim, todos os casos dignos de dó.
Aquele que muito interrogar muito aprenderá também, muito contentará também, especialmente se adaptar as suas perguntas aos conhecimentos daqueles que lhe podem responder, pois assim lhes dará ocasião de se comprazerem a falar, e ele próprio continuará a ganhar conhecimentos; se por vezes fingirdes ignorar o que consta que sabeis, para outra vez passareis por saber o que ignorais. Falar acerca de si próprio não é bom que se faça com frequência, e há só um caso em que um homem consegue fazer com graça o seu próprio elogio: é quando louva uma virtude que pretende ter. Discrição na conversa vale muito mais do que eloquência, e mais vale falar singelamente com o interlocutor, do que exprimir-se em palavras cadenciadas e altissonantes. Uma conversa bem conduzida, mas sem uma boa réplica do interlocutor, torna-se muito vagarosa; uma boa réplica que não seja seguida por um bom discurso é de manifesta frivolidade. Usar de muitos circunlóquios antes de abordar o tema é fastidioso; não usar alguns significa demasiada rudeza.
Francis Bacon, in 'Ensaios'

quinta-feira, novembro 04, 2010

diálogo para o acordo do Orçamento

a verdadeira foto...
 rec. por email

como eu vejo a Ilha

Serra D'Água

A Inveja é a Espada que Mais Corta

Lançar a melhor carta na baralha talvez é treta de jogador; esconder com indústria o com que melhor se pode ganhar, nunca foi consequência de perder. Que importa que no jogo seja o rei a melhor carta, se talvez porque as espadas são trunfo, não faz a figura vaza? A inveja é a espada que mais corta, e está esta carta de espadas levantada, desde que no jogo da fortuna se levantaram sujeitos. Esconder, pois, a melhor figura, será a melhor prudência para que ganhe a seu tempo. (...) Encobrindo a terra seus metais e ocultando o mar suas pérolas, granjeia em nossa estimação maiores admirações. O mesmo coral, que por baixo da água é buscado pelo seu valor, quando já descoberto, parece que, de corrido, se torna vermelho. É melhor que luzir em todo o tempo, o luzir somente a tempo; assim se enganam os olhos da inveja, e assim se concilia nos ânimos a estimação. Destes temperilhos necessita a fortuna, para se conservar sempre próspera, e de tal maneira que, como o seu curso é em roda, e no esférico não há primeiro nem último lugar, pode o último vir a ser o primeiro, e o primeiro vir a ser o último.
 
Padre António Vieira, in "As Sete Propriedades da Alma"

quarta-feira, novembro 03, 2010

A vida não é de abrolhos


A vida não é de abrolhos.
É de abr'olhos.


A vida não é de escolhos.
É de escolhas.

Por que me olhas e m'olhas?
Por que me forras a alma
com o relento de um sentimento?

Serei eu a tua escolha?

Abre os olhos e olha,
que eu já me escolhi em ti!




Alexandre O'Neill, Entre a Cortina e a Vidraça, 1972

a nacionalidade de Adão e Eva

Um alemão, um francês, um inglês e um português apreciam o quadro de Adão e Eva no Paraíso.

O alemão comenta:
- Olhem que perfeição de corpos:
Ela, esbelta e espigada;
Ele, com este corpo atlético, os músculos perfilados.
Devem ser alemães.

Imediatamente, o francês contesta :
- Não acredito. É evidente o erotismo que se desprende das figuras:
Ela, tão feminina,
Ele, tão masculino,
Sabem que em breve chegará a tentação.
Devem ser franceses.

Movendo negativamente a cabeça o inglês comenta :
- Que nada! Notem a serenidade dos seus rostos, a delicadeza da pose, a sobriedade do gesto.
Só podem ser ingleses.
 
Depois de alguns segundos mais, de contemplação silenciosa,
o português declara :
- Não concordo. Olhem bem:
não têm roupa,
não têm sapatos,
não têm casa,
estão na "fossa",
Só têm uma única maçã para comer.
Mas não protestam ,
só pensam em sexo, e pior,
acreditam que estão no Paraíso .
Só podem ser portugueses

Pastai então, povos mansos, pastai!

Exiit qui seminat seminare semen suun.

Ermo semeador da liberdade,
Saí
sozinho, antes da estrela; 

Com a mão límpida e sem pecado, 
Nos sulcos da terra escravizados
Lancei o
grão vivificante 

Pena perdida: perdi meu tempo, 
Meus bons desígnios e meus cuidados

Pastai
então, povos mansos, pastai! 

Não vos acorda o clamor da honra.
Os
dons da liberdade a um rebanho
À
matança ou tosquia destinado? 

Vossa herança é, por todo o sempre,
O
jugo de chocalhos
e a aguilhada.
Aleksandr Púchkin
tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra

terça-feira, novembro 02, 2010

Nova espécie de macaco descoberta na Birmânia espirra à chuva

Uma equipa internacional de primatólogos descobriu uma nova espécie de macaco no Norte da Birmânia. O animal, cujo nariz virado para cima o faz espirrar à chuva, já é considerado ameaçado por só existirem entre 260 e 330 indivíduos.
A descoberta, publicada na revista “American Journal of Primatology”, revela como o Rhinopithecus strykeri - no dialecto local é chamado "mey nowoah", ou seja, "macaco com uma cara virada para cima" - tem as narinas viradas para cima, o que faz com que espirre quando chove.
Esta nova espécie foi encontrada no início deste ano por uma expedição realizada no âmbito do Programa de Conservação de Primatas na Birmânia, liderada pelo biólogo Ngwe Lwin, da Associação birmanesa de Conservação da Natureza e Biodiversidade e apoiada pela Fauna & Flora International e a Fundação People Resources and Biodiversity.
Thomas Geissmann, coordenador da descrição taxonómica da espécie e investigador da Universidade de Zurique-Irchel, descreve o macaco como tendo o pelo quase totalmente preto e uma cauda relativamente longa, aproximadamente 140 por cento do tamanho do seu corpo.
Apesar de a espécie ser nova para a ciência, as populações locais conhecem-no bem e dizem que é muito fácil de encontrar quando está a chover porque os macacos espirram quando apanham água no nariz. Para evitar molharem as suas narinas, passam os dias chuvosos sentados com as cabelas protegidas entre as pernas.
Segundo as populações locais, os macacos passam os meses de Verão, entre Maio e Outubro, a altitudes mais elevadas, nas florestas temperadas mistas. No Inverno descem para mais perto das povoações quando a neve torna a procura de alimento mais difícil.in Pubico

Autoridades iranianas dão ordem para executar Ashtiani nas próximas horas

A execução por apedrejamento de Sakineh Ashtiani, a mulher condenada no Irão pelos crimes de adultério e, depois, cumplicidade em homicídio, deve realizar-se nas próximas horas, até à manhã de amanhã, denuncia hoje o Comité Internacional contra a Lapidação.
A organização sustenta ter recebido informações ontem – ainda não confirmadas por outra fonte – de que as autoridades judiciais em Teerão emitiram já a ordem para a prisão de Tabriz, onde Ashtiani está detida há cinco anos, para avançar com a execução. Ainda segundo o Comité, o tribunal encarregue do caso conclui a investigação com o parecer de que “de acordo com as provas apresentadas, a culpa [da arguida] foi demonstrada”.

Sakineh Ashtiani, de 43 anos e mãe de dois filhos, foi condenada originalmente em 2006 por adultério, tendo então sido submetida a 99 chicotadas. Dois anos mais tarde, um outro tribunal, durante a análise de um outro caso, sentenciou-a à lapidação, com a arguida a manter desde sempre a sua inocência.

Depois de os primeiros protestos contra a sua condenação terem eclodido a nível internacional, em Julho deste ano, o regime de Teerão anunciou que a sentença foi pronunciada não pelo crime de adultério mas pelo de homicídio, sustentando que Ashtiani foi cúmplice na morte do marido.

A lei iraniana prevê o adultério como “um crime contra Deus”, penalizado com 100 chicotadas para aqueles – homens e mulheres – que o tenham praticado sem estarem casados e com a lapidação para os casados. O adultério deve ser provado em tribunal através de confissão do arguido ou testemunho de pelo menos quatro homens ou três homens e duas mulheres.

Mas o Comité Internacional contra a Lapidação desmente a versão dada pelo regime de Teerão, sublinhando que Ashtiani nunca foi acusada e julgada por homicídio. E convocou para esta tarde manifestações em defesa da condenada em frente à embaixada iraniana em Paris e junto à sede do Parlamento Europeu, em Bruxelas.
fonte: Publico

este pequeno vídeo pode levar-nos a reflectir das inúmeras vezes em que lhe podemos escapar se formos cautelosos. De outro modo, é preciso encara-la como um fim apenas físico. Dos nossos actos e afectos a lembrança da Vida.
Tuka

"Dia de Finados" poema de Manuel Bandeira


Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai.
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
Em verdade estou morto ali.

Bandeira, Manuel, 1886-1968
Libertinagem & Estrela da manhã / Rio de Janeiro

segunda-feira, novembro 01, 2010

 

La nuit n’est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l’affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée

Paul Éluard

Dia de todos os santos, Dia de todos os pobres

1 de Novembro. Dia de todos os santos e de «pão-por-Deus». As crianças espalham-se pelas ruas e batem às portas.
- Pão... por Deus...
Nas arcas há nozes e castanhas e figos secos... A tradição manda que se encham bornais com «tenha paciência». Os pobres tiram o pão da boca para os filhos dos pobres. E os ricos sacodem as migalhas, em nome de Deus.
Dia de todos os santos - Dia de todos os pobres 
 Soeiro Pereira Gomes -excerto de "Esteiros"

para apalpar as intimidades do Mundo....

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) o modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) porque é que as borboletas de tarjas vermelhas
    têm devoção por túmulos
d) se o homem que toca de tarde sua existência num fagote,
    tem salvação.
e) que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura
    que rio que flui entre dois lagartos.
f) como pegar na voz de um peixe
g) qual o lado da noite que humedece primeiro
etc
etc
etc
Desaprender oito horas por dia ensina os princípios.

Manoel de Barros

in "o encantador de palavras"
edição da quasi