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quinta-feira, dezembro 24, 2009

"Os tempos da Lapinha, lembram-se?"

"Outro tempo e outra inocência que remetia para o saudável reconhecimento de Deus como Pai, Irmão e Amigo, estava bem patente no ambiente da Festa (o Natal). A memória recorda-me esse retracto de simplicidade e pobreza, como imagem da família toda. Por exemplo, a cerimónia da transformação do recanto do quarto onde se erguia a Lapinha, era simples, mas carregado de significado e de fé. O Oratório saía do seu local habitual e durante a quadra da Festa colocava-se as escadinhas, cheias de frutos variados e searinhas. No cimo, lá estava o Menino-Deus de braço em punho anunciando, os novos tempos da paz e do amor em todas as famílias do mundo e, naquela, em particular, onde o desejo de paz e compreensão familiar, bradava aos céus em todos os momentos de oração. O momento dos “brindeiros” - era assim que se chamava a sofisticada troca de presentes que temos hoje - revestia-se de uma expectativa muito grande. O Menino Jesus não tinha mãos a medir, abria os cordões à bolsa e a todos alegrava com lembranças simples mas densas de sentido. As frutas da Lapinha, eram do Menino Jesus, porém, se as nossas tias estivessem em horas de boa disposição, podíamos pedir a peça de fruta desejada e logo tínhamos a permissão do Menino. Não posso esquecer que as frutas do Menino Jesus eram sempre as melhores da árvore, eram escolhidas uma por uma para o efeito. Todos desejavam por demais aquelas laranjas, os pêros Domingos, as mais variadas maçãs, as castanhas secas… Estávamos perante um verdadeiro manancial de frutas belas e apetitosas. O Menino-Deus merecia o melhor das colheitas. Este encanto simplório, fez parte de um tempo, cuja inocência seria reflexa de uma fé antiga, que passava de geração em geração. Porém, era tudo saudavelmente natural e espontâneo. No nosso tempo, tudo se compra, mesmo até os artigos inúteis e vazios de conteúdo: os jogos de guerra para as crianças; as árvores de Natal de papel ou de plástico; os presépios artificiais com figuras tristes e deslocadas do imaginário e todas essas variedades incalculáveis que o mercado oferece. Tudo se reduz a plástico artificial sem magia e sem encanto. Usar e deitar fora, eis a regra deste tempo. A inocente pobreza do tempo dos meus avós acabou, para dar lugar à abundância das muitas e variadas coisas de Natal sem conteúdo, sem interioridade, sem tradição (sem memória), sem espírito e sem fé. O reino do plástico, que se compra, usa e deita para o lixo, está no meio de nós. Hoje, a nossa mentalidade descobre um mercantilista “Pai-Natal”, que está mais de acordo com esta sociedade do bem vestir e o bem falar, que são a regra número um da convivência social. A vaidade da aparência, da imagem artificial e hipócrita são os caminhos mais visíveis dos homens e mulheres do nosso tempo. Os “grandes” do mundo, são os orgulhosos, os que ostentam poder e fama que contrasta de forma desconcertante, com a simplicidade, a pobreza e a inocência do grupo de pastores que Deus escolhe para dar a boa notícia em primeira mão, sobre o nascimento do Deus-Menino. Deus deveria estar “louco” ou enganou-se redondamente, porque escolheu o pior que há na sociedade, um grupo de marginais andrajosos que não tinham onde cair mortos. Esta gente que Deus prefere não sabe vestir, são ladrões, mal cheirosos, incultos, com uma aparência pouco digna, nada atraentes pelo que se vê e, como não podia deixar de ser, são gente acima de tudo, de pouca fama na sociedade em geral. Então que Deus é este que transmite a notícia do nascimento do Redentor a este tipo de pessoas? - A nós, sem dúvida, longe de nos lembrar convidar essa gentalha para um acontecimento tão importante. Escolheríamos logo talvez os sacerdotes, os políticos e todos os que a sociedade considera senhores bem vestidos e perfumados. Que Deus nos perdoe, mas tínhamos melhor gosto, porque saberíamos escolher melhor e, sem dúvida, que se arranjaria gente mais bonita, mais bem vestida, mais bem falante e mais bem comportada do que pobres e simples pastores. E ainda, que nos perdoe Deus, mas também se arranjaria melhor lugar para o Menino-Deus nascer!... Uma clínica cheia de bons médicos, com muita luz, boa cama, roupa quente e cheirosa. No fim, depois de tudo correr bem reuniríamos numa sala majestosa de um qualquer palácio ou hotel de cinco estrelas, para fazermos uma festa com a melhor gente da sociedade, com boa música, danças de qualidade e a melhor ostentação da nossa praça. Então alguém com bom senso, pensaria em colocar um Menino-Deus na frieza de uma gruta envolto em palhas, respirando o bafo de animais sem tino, sujeito a sobressaltos constantes por causa dos berros desmedidos dos bem-aventurados animais. Mas afinal que Deus é este? - Um Deus radical e extremo que, quiçá, por teimosia ou birra infantil fez nascer o coitado do filho numa manjedoira. Ah!.. Se fossemos nós, não olharíamos a medidas. A festa melhor e a maior do ano seria a festa do Menino-Deus. Meu Deus, não deves estar admirado nem surpreso com a nossa vaidade, a nossa tendência para a luxuosidade e para as grandezas. Somos, provavelmente, numa perspectiva humana um caso perdido. Pelo teu lado, descobrimos que continuas, mesmo passados tantos, envolvido numa mesma causa, ora com alguns resultados positivos, ora com muitos resultados negativos, a preferir a simplicidade, a pobreza e a marcar encontro com todos os abandonados, porque não desistes de ser um Deus da vida para todos, sobretudo, para aqueles que diante dos olhos do mundo a perderam. A tua insistência impressiona e desconcerta-nos sempre. Por isso, perdoa-nos porque continuamos preferir a vaidade e fazemos sempre as melhores escolhas convencidos que com isso mudaremos o mundo. Para onde vamos? E Onde chegaremos, afinal, com esta mentalidade desenfreada assente no orgulho, na vaidade pelas coisas grandes e faustosas? - A simplicidade de Deus, que todos os anos faz nascer sempre nova, a luz da pobreza e da humildade, para nos relembrar que não faz sentido nenhum, estarmos minados pelo gosto do chique, a avidez das modas e a atenção constante nos bens materiais de último modelo. Até parece que tomámos gosto pela violência da vida e que o nosso coração se torna dia para dia cada vez mais sofisticado. A nossa recusa acentua-se na ausência de um coração simples, livre de preconceitos, sem medos absurdos sobre o futuro e sem nos inquietarmos sobre o que parece bem ou sobre o que parece mal. Para quando a riqueza de corações livres de manchas negras que aprisionam a criatividade? E para quando o assumir da humildade que nos conduz à entrega de serviços humanos que edifiquem aqui e agora o reino da fraternidade? - A resposta, lê-se no rosto alegre e confiante das figuras da Lapinha. Ainda assim, parece-me, ser o quadro mais apaixonante que embeleza a casa do nosso coração. BOM NATAL PARA TODOS OS MEUS LEITORES..."

 autor: José Luís Rodrigues, 23-12-08

Neste singelo postal, feito por mim há uns anos e que representa
a Maternidade de Maria com o Seu Menino, quero desejar-vos
um Natal em Família, se possível, com a simplicidade e Alegria 
das Crianças, com as nossas recordações, mas com um sentido de
Esperança e Confiança enormes, um Natal cheio de luz interior.
tukakubana 


quarta-feira, dezembro 23, 2009

chegou o inverno....

tem chovido muito na Madeira, posso até dizer que nos últimos quinze dias deverá ter chovido mais do que nos últimos 6 meses.
Bastou ontem, duas horas de uma chuva torrencial para por à mostra as obras que, um pouco por todo o lado, proliferam na Ma(ma)deira: feitas à pressa - a tempo de inaugurações -, sem pareceres de entidades SÉRIAS E COMPETENTES, vão fazendo o estrangulamento de ribeiras, tomando conta das margens da Natureza e vazando nessas mesmas ribeiras tudo o que lhes vem "aos camiões". Um dia, a Natureza vinga-se e toma conta do que é seu. Não havendo espaço, toma conta do que é público, como poderão ver neste vídeo de ontem,que não mostrou toda a realidade. Fala-se em Copenhague mas, mesmo ao pé da porta há atentados ambientais.(...e em alerta laranja já andamos há dezenas de anos!)

canções ao Menino Jesus - PORTO MONIZ

Quem quiser ver o MeninoNão procure nas piscinas
Vá lá acima até à Santa
Ouvir as canções divinas

Os pastores das Achadas
De lanterna à luz da vela
Acordaram o Seixal
E a Ribeira da Janela

E todos em romaria
Foram ao Porto Moniz
Dizer que aquele Menino
Quer todo o povo feliz.

In: "Entre Dezembro e Janeiro de cada Ano" feixe de memórias colectivas
Ribeira Seca - Machico 2006-2007

Cartas ao Pai Natal de alguns políticos Portugueses



Pai Natal
Acordei agora da sesta. Tive um sonho original.
Conversei com a Maria
E achamos que não é sonho 
Mas uma ideia genial!
Já fui ministro, primeiro-ministro
E duas vezes presidente deste país
Está na hora de mudar de ares
Aceitar novos desafios
Levar mais longe o nome de Portugal
Ou o meu nome... Como sempre quis.
Como tu tenho já uma certa idade
E no ventre a mesma proeminência
Decidi que para o ano quero ser o Pai Natal.
Portanto... 
Olha pá faz as malas. Desocupa a Lapónia.
Vou ser eu o Pai Natal.
Tem lá paciência.


Assinado: Mário Soares
(Ex-deputado. Ex-Primeiro Ministro. Ex-Presidente da Republica. Ex-Deputado
europeu. Futuro Pai Natal) 


Cartas ao Pai Natal II - Manuel Alegre



Pai natal quando voares nos céus da minha Pátria
Quando aterrares as renas nas planícies do meu País
Lembra-te desta carta, pedido singelo
De um homem que só para a Pátria pede
Para si... Nada quis. 
Se o nevoeiro que levou D. Sebastião
Te fizer perder o rumo e baralhar o norte
Segue o cheiro a verde pinho
Ouve a minha trova no vento que passa
E chegarás às chaminés do meu país
Pátria desafortunada. Sem euros. Má sorte.
Numa das chaminés de Lisboa 
Sentirás o odor e verás o fumo negro da traição
Que o teu trenó sobre ela paire.


Assinado: Manuel Alegre  

Cartas ao Pai Natal III- Jerónimo de Sousa



Camarada
Tu que és explorado pela entidade patronal
Durante a época do Natal
Usado como símbolo do capitalismo
Para fomentar o consumismo
Desenfreado, descontrolado
Que enriquece a burguesia
E empobrece o proletariado
Junta-te a nós no combate
Contra a guerra no Iraque
Oferece Che Guevara's não ofereças Action Man's
Luta pela igualdade feminina
Não dês Barbies mas Matrioshkas
Educa as crianças de hoje 
Comunistas amanhã
Substitui o Harry Potter pelo livro "O Capital".
Camarada
Reivindica o teu direito a um transporte decente
Pára o trenó e as renas
Que não é veículo de gente operária e trabalhadora
Como tu oh pai natal!
Unidos venceremos o imperialismo e os reaccionários 
Viva o Natal dos oprimidos
Viva o Natal dos operários!


Assinado pelo candidato: Jerónimo de Sousa
(Carta aprovada por unanimidade e braço no ar pelo Comité Central do PCP) 




Cartas ao Pai Natal IV- Francisco Louçã

Isto não é uma carta!
É um manifesto. Um protesto. Uma petição
Assinada por dezenas de intelectuais
E outras pessoas que jamais 
Se reviram numa festa
Bacanal
Orgia de oferendas
Dadas sem qualquer critério
E que perpetuam uma tradição 
Caduca. Reaccionária. Clerical.
Que tu representas oh pai do natal.
Com esta petição pretendemos 
Que a data seja referendada
Não imposta, decretada                                                                              
Por um estado economicista e liberal 
E que seja celebrada quando um homem quiser
Não à roda da mesa. Consoada.
Mas num portuguesíssimo arraial.


Assina: Francisco Louçã


 Cartas ao Pai Natal V - Aníbal Cavaco Silva


Excelentíssimo Senhor Doutor Pai Natal
Venho por esta via pedir para a minha Maria
O Kama Sutra, versão condensada
Não sei se a minha Maria teria
Para a versão completa e ilustrada
Suficiente pedalada.
Eu para mim
Por ora nada peço
E de momento nada digo
Não abdico do meu direito de manter o suspense
E de fazer tabu do meu posterior pedido.
Mas.... E só isto adianto
Não preciso de Viagra
Para acompanhar a minha Maria na leitura
Do acima citado livro
Que teso e hirto ando eu sempre
Não precisando por isso de muleta
Ou qualquer outro suplemento
Para manter a rigidez
E o meu porte sobranceiro.
Despeço-me atentamente economizando palavras
Porque como vossa Excelência sabe:
Os tempos são de crise e tempo é dinheiro.


Assina o Professor Doutor:
Cavaco Silva  



recebido por email

Padre Mario da Lixa-A minha mensagem de Natal

(Esta mensagem foi-me enviada por mail, por um Amigo,em serviço militar na Guiné tendo como capelão o P. Mário, como abaixo podem ver.É um pouco longa mas é verdadeira e actual.)

nota da redacção - Mensagem, que me foi enviada pelo capelão do
meu batalhão, na Guiné, quando lá estivemos na guerra colonial.
O interveniente no vídeo é o próprio capelão. Partilho do conteúdo.

Celebração de Natal

A luz que há dois mil anos raiou no mundo

Não se reduziu à simples forma de criança rosada,

Em noite de geada,

Sob olhar amoroso de Mãe.

Não foi a correria apressada de pastores e reis

Que deu o nome a Belém!

Naquele humílimo estábulo nasceu um Deus

E da forma gloriosa de vida,

À vida de Nazareno ignorada,

À mensagem chocante do Amor,

Amor perene, há dois mil anos doado,

Iniciado naquele humílimo estábulo,

Até à Cruz,

Nasceu para todos nós, Jesus.




Maria Teresa Góis

Ladainha dos póstumos natais


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se seja à mesa o meu lugar vazio



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós contigo



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo a Nada a sós comigo



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido



Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Natal retome a cor do Infinito 


(David Mourão-Ferreira)

terça-feira, dezembro 22, 2009

foto do dia


foto: Maxim Shipenkov
European Pressphoto Agency











A subversão da religião



por Anselmo Borges

No meio da vertigem das compras e das prendas, do consumismo, não sei quantas pessoas se lembrarão ainda de que a festa do Natal está referida ao nascimento de Jesus Cristo. Seja-se cristão ou não, crente ou ateu, impõe-se reconhecer que se trata de uma figura determinante da História. Sem ele, a nossa autocompreensão não seria a mesma.
Nos últimos tempos, a atenção voltou-se para o que não é de modo nenhum central, quando se pensa no que ele é e no seu significado: como e quando nasceu, se a mãe era virgem, se teve irmãos e irmãs... Compreende-se a curiosidade das pessoas, mas estas perguntas não vão ao essencial.
Hoje sabemos que Jesus nasceu alguns anos antes da era cristã (entre 6 e 4) - o erro deveu-se a Dionísio o Pequeno, quando no século VI calculou a data do seu nascimento. Provavelmente nasceu em Nazaré da Galileia, onde se criou. Os relatos dos Evangelhos referentes ao nascimento e à infância servem-se de linguagem simbólica para significar o que mais interessa. Assim, a data de 25 de Dezembro foi adoptada mais tarde pelos cristãos de Roma, para significar que ele é o Sol verdadeiro que a todos ilumina. A presença dos pastores e dos magos anuncia o núcleo da sua mensagem: que Deus se interessa em primeiro lugar pelos mais pobres e que não exclui ninguém.
Hoje ninguém intelectualmente responsável põe em dúvida que Jesus existiu. A sua existência é atestada não apenas por fontes cristãs, pois há também textos de Flávio Josefo, Tácito, Suetónio, Plínio, entre outros. O que é preciso compreender é que os textos cristãos, concretamente os Evangelhos, são textos de crentes, que narram a história de Jesus a partir da fé e convocando à fé.
Na vida de Jesus, há um paradoxo. Por um lado, viveu num recanto obscuro do Império Romano, a sua vida pública pode não ter chegado sequer a dois anos, morreu crucificado - a pena de morte mais ignominiosa, aplicada aos escravos. Por outro lado, a sua influência decisiva atravessa a História e mais de dois mil milhões de homens e mulheres reclamam-se ainda hoje do seu nome e confiam nele na vida e na morte.
Qual foi o núcleo da sua mensagem? A sua revolução consistiu em primeiro lugar numa nova ideia de Deus. Deus não é o Deus longínquo e tenebroso, que quer adoração e submissão, que exclui, que explora e humilha os seres humanos. Pelo contrário, Jesus fez a experiência de Deus como Abbá, paizinho. Embora as crianças se dirigissem com esta palavra ao pai, em Jesus, não se trata, com esta invocação, nem de infantilismo nem de machismo, pois este Deus-Pai tem traços de Mãe.
A partir desta experiência radical, deriva toda a mensagem de Jesus, para quem o decisivo não era a religião, mas a humanidade. Como mostrou recentemente o teólogo José M. Castillo, o centro do interesse de Jesus não foi a religião, mas a saúde, a comida, as relações humanas boas, a liberdade, o bem-estar e a felicidade das pessoas. Com Jesus, revelou-se a humanidade de Deus e que o caminho para Deus é a humanidade. O Deus de Jesus encontra-se, antes de mais, no secular, não no religioso. "O 'sagrado', o 'religioso' e o 'espiritual' são autênticos, aceitáveis e meios para encontrar Deus, na medida, e só na medida, em que nos humanizarem, nos tornarem mais profundamente humanos". Para Jesus, o "sagrado" indubitável neste mundo é o ser humano.
Leia-se os Evangelhos e concretamente aquele passo de São Mateus, referente à verdade última, ao chamado Juízo Final. Nada há aí de religioso, pois tudo é secular: "Destes-me de comer, de beber, de vestir, fostes ver-me ao hospício e à cadeia."
Jesus, que não era sacerdote, mas leigo, teve de enfrentar a religião e os seus dirigentes, num conflito mortal, porque a religião e os seus dirigentes estavam mais interessados na religião do que na vida e porque "a religião pode ser e costuma ser uma ameaça, um perigo muito sério, para a vida e para a felicidade dos seres humanos". Condenaram-no à morte os dirigentes da religião oficial do seu tempo. Mas Jesus foi tão profundamente humano que "se pôs do lado da vida e deu vida, vencendo as forças da morte".

Judeus querem ver arquivo do Vaticano para crer em Pio XII


Portugueses juntam-se às lamentações depois de Bento XVII colocar o Papa do tempo do holocausto a um passo da santidade
Colocar Pio XII a um passo da santidade é uma coisa que não lembra a nenhum judeu. Mas lembrou a Bento XVII e, com a agora anunciada proclamação como "venerável" do líder da Igreja Católica durante a II Guerra Mundial, o papa provocou a ira da comunidade judaica. A reacção de Israel não se fez esperar. "O processo de beatificação não nos diz respeito, é um assunto da Igreja Católica. Quanto ao papel de Pio XII, é para os historiadores avaliarem e, por isso, desejamos a abertura dos Arquivos do Vaticano durante a II Guerra Mundial ", disse à AFP o porta-voz do Ministérios dos Negócios Estrangeiros, Yigal Palmor. Também a comunidade judaica portuguesa prefere ver os ficheiros secretos para crer que o papel de Pio XII foi mais do que o silêncio complacente perante o holocausto. 
Esther Mucznik, vice-Presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, diz que esta decisão é "prematura". Se o papel do papa foi outro, então que se mostre primeiro e se beatifique depois. A investigadora sublinha que estes processos são assuntos que só à Igreja Católica dizem respeito, mas que o Vaticano também tem um papel político. Nesse campo, refere que só a abertura dos arquivos aos historiadores poderá revelar "o papel real de Pio XII", porque "se é um facto que muitos colégios e conventos católicos salvaram judeus, oficialmente a posição do Vaticano foi de silêncio. Não sabemos a razão do silêncio - há quem defenda que foi uma forma de proteger as comunidades cristãs na Alemanha -, nem se uma posição diferente do Vaticano poderia ter mudado a História. O mais importante e urgente é abrir os arquivos". De acordo com os especialistas religiosos, haverá documentos que provam ordens do Papa para que os conventos acolhessem judeus perseguidos. Esther Mucznik diz que em Israel "há um debate muito grande e investigadores que defendem que a posição de Pio XII foi diferente, mas tudo tem que ser estudado". Até prova em contrário, o italiano Eugenio Pacelli foi o Papa que não confrontou nem tentou contrariar Hitler. 
Miriam Assor, jornalista e membro da comunidade judaica portuguesa, diz que só não fica surpreendida com esta decisão "porque deste papa nada [a] choca". "Ele já disse tanta coisa errada que já não sei se é da idade se da falta de humanidade", acusa. E defende que a concordata assinada por Eugenio Pacelli e a Alemanha em 1933 (ainda como núncio apostólico em Berlim) funcionou "como uma auto-estrada que a Igreja abriu ao nazismo". "Por uma questão de justiça", a complacência de Pio XII não pode ser branqueada.  
"Fico tão horrorizada como se estivesse em 1933", refere, afirmando que "assassino é quem mata e quem pactua". Por isso, também diz que se o Vaticano tem informações que mostrem outra faceta do Papa que liderou o mundo católico entre 1939 to 1958, "que a divulgue ao mundo". Mas refere que em nenhum dos discursos de Pio XII durante e no pós-guerra "há uma palavra sobre judeus".  
A decisão de Bento XVI promete acender a polémica entre Israel e o Vaticano. O nome de Pio XII tinha sido proposto em 2007 mas o processo estava congelado até agora, para evitar incidentes diplomáticos. Bastou um dia para que o Vaticano começasse a ser pressionado.

Hugo Chávez muda tudo. Até o nome das maiores cataratas do mundo


O presidente venezuelano, Hugo Chávez, ordenou ontem a mudança do nome das cataratas ÁngelChurun Merú, a denominação dada pelos índios antes da sua descoberta por um piloto americano nos anos 30. 
As cataratas Ángel, ou Churun Merú, são a maior queda de água do mundo (979 metros de altura) e situam-se no sul da Venezuela, perto da fronteira com o Brasil..
“Como vamos aceitar a tese de que as cataratas foram descobertas por um senhor que veio dos EUA de avioneta? Se aceitarmos isso, aceitamos que não havia aqui habitantes.” Foi assim que Chávez justificou a alteração do nome, durante o seu programa televisivo “Aló, presidente”.
 Em 1937, o aviador americano Jimmy Angel e o piloto venezuelano de origem catalã Félix Puig tiveram um acidente enquanto sobrevoavam a cascata gigantesta. A queda da avioneta na zona – sem deixar vítimas mortais – motivou a a escolha do nome “Salto Ángel”.
Chávez recordou que as cataratas já eram “propriedade indígena, aborígene” e que a sua existência não deve ser atribuída ao um piloto americano, porque os nativos já protegiam essa maravilha natural séculos antes de ser descoberta.
(jornal i online)

O mistério de Shakespeare: por onde andou entre 1585 e 1592?


O maior dramaturgo da época isabelina, o inglês William Shakespeare (1564-1616), pode ter sido um cripto-católico que passou vários anos em Itália, pelo que se pode deduzir da leitura de várias inscrições de um livro de peregrinos. Pelo menos é o que afirma o padre Andrew Heaton, vice-reitor do Venerable English College, durante um seminário romano para sacerdotes católicos ingleses.
O livro a que se refere está assinado em 1585 por um certo Arthurus Stradfordus Wigomniensis. Também há referência a Gulielmus Clerkue Strafordiensis, que deixou a sua marca no livro em 1589, informa o “The Independent”. Ambos os nomes pertenciam, na realidade, a William Shakespeare.
Segundo o vice-reitor, o primeiro nome pode decifrar-se como “(O compatriota) do (rei) Artur de Startford (na diocese) de Worcester”.
Mas existe ainda uma terceira menção, de 1587, noutro livro de peregrinos: Shfordus Cestriensis. Segundo Heaton pode querer dizer “Sh(akespeare de Strat)Ford (na diocese de) Chester”.
Estas referências coincidem com os anos em que o paradeiro de William Shakespeare continua a ser um mistério.
O autor de “Hamlet” abandonou a sua Stratford natal em 1585 e reapareceu em Londres em 1592, onde começou a sua carreira como dramaturgo. Até ao momento, não havia nenhuma pista sobre a residência do autor. O vice-reitor Heaton acredita que "o mais provável é que Shakespeare tenha visitado Roma nessa altura como católico clandestino":
in: jornal  i online

"Roupa Velha"


Na noite de Natal, contam as lendas Minhotas, não se arruma a mesa, porque os nossos mortos vêm comer à nossa mesa, e para isso não se pode arrumar a comida que sobrou da CEIA DE NATAL, daí segundo alguns, a tradição e o nome da ROUPA VELHA, nome dado ao prato que é feito com as sobras da comida da CEIA da noite de 24 de Dezembro, e que é consumido ao almoço do dia de Natal…na nossa Terra é usualmente feito com as sobras do Bacalhau couves e batatas, mas há terras em que tambem fazem de carne e polvo.
(Fernando Oliveira)
Preparação:
Cortam-se aos bocadinhos a couve, o bacalhau e as batatas que sobraram da consoada. Picam-se alguns dentes de alho e alouram-se em azeite. Juntam-se as couves, o bacalhau e as batatas, mexe-se e deixa-se ao lume apenas o tempo necessário para aquecer bem. Atenção: Este prato é feito apenas com os restos da consoada, que já se fez mais abundante para que a roupa-velha possa ser feita no almoço do dia de Natal.

Para os mais pequeninos

Natal de Quem?


Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do perú, das rabanadas.


-- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!


- Está bem, eu sei!


- E as garrafas de vinho?


- Já vão a caminho!


- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?


- Não sei, não sei...


Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:


- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?


Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!


Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?


Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?


O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?
Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!


Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:


- Foi este o Natal de Jesus?!!!


(João Coelho dos Santos
in Lágrima do Mar - 1996)
O meu mais belo poema de Natal

segunda-feira, dezembro 21, 2009

morre lentamente quem não viaja


"Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O "preto no branco"
E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!»


Pablo Neruda

canção de Natal (tradicional)

Quando S. José andava com a Virgem Maria,
Tanto andava de noite como de dia.
Lá chegando a Belém,
Já toda a gente dormia
E S. José disse:
Porteiros, abri a porta que é José mais Maria.
E, de lá, lhe responderam:
Não abro a minha porta sem ser o claro dia.
Era S. José com o lume (tocha)
Que bem míngua lhe fazia.
E quando S. José chegou,
Já a Virgem tinha parido.
Não quis parir em Palácio,
Nem em cama de cortina.
Foi numa pobre manjedoura,
Onde o Boi Bento A cobria
E a mula A descobria.
E Deus disse:
Deus te abençoe Boi Bento,
Que de ti haja um cento.
E Deus te amaldiçoe mula,
Que não dês fruto nenhum.
Ave-Maria rezada,
Quero subir ao Céu.
E os Anjos lhe perguntaram:
Como ficou a Maria?
A  Maria ficou bem,
Nos alpendres em Belém,
Com O Seu Menino nos braços,
Que assim lhe parecia bem.
E Jesus lhe respondeu:
Minha Mãe olha para o Céu,
Lá vejo estar uma Cruz,
Lá vejo estar Cama e Berço,
Para O MENINO JESUS.


domingo, dezembro 20, 2009

Não parecia ser Dezembro


Não parecia ser Dezembro. 
O sol mais que aquecia, queimava, e o povo ladainhando queixava-se das securas.

Mas em tudo era Dezembro; as limpezas, o jeito activo das gentes, aconchava-se o preço dos recos, mira-se o galo prá canja da Ceia, as teias de aranha urdidas em noites longas desaparecem, contam-se os "sapatinhos" para o ornamento dos altares, enfim, é a Festa.


Nos sótãos aneiros buscam-se as imagens da lapinha, os troncos e socas velhas, os papéis pintados. Branqueia-se o vestidinho do Menino, desenceram-se castiçais; o trigo demolhado cai nos minúsculos cântaros em sítios escusos e escuros, mais germinativos.

Eiras fora, chega-se terra à novidade pedindo aos céus o amadurecimento. A semilha nova não pode faltar dia de Festa e p'lo Ano Novo!


Em cada paróquia inventam-se ideias para o Presépio onde tudo será diferente menos as imagens. Ensaiam-se as romagens ou romarias para a noite de Natal. Lembrar os da terra, os emigrantes, os que aflitos prometeram, tudo é medido à sílaba, metricamente, num compasso sempre igual, entremeado de um coro demasiado longo, castigador por repetitivo, mas entregue de coração e garganta à solenidade.


Os "Meninos" surgem, num sorriso eterno, cândido, purificador, apaziguante de ódios, braços abertos, dedos de paz, pés assentes em tronos. É preciso repor alvas vestes cintadas. Uns, mais pudicamente vestidos que outros.

Melhor ou pior todos acreditam que o Natal é a Esperança, o tempo de solidariedade, a vez de todos e cada um, a Igualdade.
A geada da noite, o sereno, lembram Dezembro como as gambiarras lembram e iluminam, da casa para a rua, o caminho para as Missas do Parto. 
Manhã cedo, noite ainda, o grito lancinante da morte estremece os chiqueiros. De pronto avança o sopro do maçarico, o copo de vinho, o sangue aparado e depois frito na frigideira, e o bom dia de até logo que um novo porco os espera. É assim a "matada" do porco. Depois, escorridas as carnes, é salgar e avinhar o dente da época.


Dias Santos, amassa-se o pão de vésperas, varrem-se fornos, sacode-se a novidade do traje e, comidos e bebidos, corre-se à Missa em noite de Amor.

Acotovelado - não há faltosos nem pecadores - o povo sustém a curiosidade da romagem. E surgem oferendas, ramos forrados a notas grandes, seiras de produtos da terra, aguardentes, mel, vinhos, frutos escolhidos, tudo do bom e do melhor em honra do Menino. Toca o acordeão, a viola, cantam pastores e romeiros e, passo a passo, avançam para o altar. Fiéis filam-se com envelopes (uns de avião outros não), para o "Menino" que é dado a beijar na Imagem da Pobreza, da Humildade e Despojamento.


No regresso a casa todos comentam.

E os mais pobres, os mais humildes e os mais sós, enxugam os olhos no sorriso do Menino pintado, róseo, que dos Céus os convida.


Maria Teresa Góis

Lembrando o Natal (vídeo)