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terça-feira, dezembro 21, 2010

licor de Alfarroba






Após dois meses em infusão, hoje terminei o licor de alfarroba. Tem cor de âmbar mas, quanto ao gosto, é preciso deixar arrefecer e descansar.
Passem para provar...

o último Menino a chegar à colecção....

Natal


Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:
É dia de Natal. Nada acontece.


José Saramago

segunda-feira, dezembro 20, 2010

da árvore...


(...)
Da árvore nascia um brilho maravilhoso que pousava sobre todas as coisas.
Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra.
Era o Natal. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que, numa noite muito antiga, se tinha espalhado sobre a Terra (...)

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'A noite de Natal'

domingo, dezembro 19, 2010

Na Tal


Na tal habitação volto a falar-te
Na tal que já eu-próprio não conheço
Na tal que mais que tálamo era berço
Na tal em que de noite nunca é tarde

Na tal de que por fim ninguém se evade
Na tal a que sei bem que não regresso
Na tal que umbilical cabe num verso
Na tal sem universo que a iguale

Na tal habitação te vou falando
Na tal como quem joga às escondidas
Na tal a ver se tu me dizes qual

Na tal de que eu herdei só este canto
Na tal que para sempre está perdida
Na tal em que o natal era Natal


David Mourão-Ferreira

assim também se faz o Espírito do Natal...

AÇORES no top de melhor destino da Forbes


A revista norte-americana Forbes elegeu os Açores como um dos "poucos destinos do mundo que oferecem verdadeiramente uma experiência única" de viagem, onde se pode vivenciar algo novo, "nunca antes visto".

A revista cita a editora Anna Banas e Tom Hall, do site de viagens SmartTravel.com e dos guias de viagem Lonely Planet onde é recomendado o arquipélago dos Açores para quem quer "uma mistura de sabor europeu com uma herança cultural atlântica única".

"Há um sítio onde podemos cozinhar a comida em fontes geotermais, deitam-na na terra, deixam-na cozinhar por diversas horas, e depois tiram-na e levam-na para ser servida nos restaurantes mais próximos", descreve Banas, referindo-se ao Cozido das Furnas, em São Miguel.

O jornalista John Giuffo da revista Forbes aconselha ainda a visitar "a dramática beleza natural das lagoas em crateras de vulcões no conjunto de nove ilhas de origem vulcânica no meio do Atlântico que têm o português por língua e uma cultura e cozinha próprias".

A Forbes aconselha ainda outros destinos únicos como o Hotel de gelo na Suécia, as espécies únicas e exóticas de Madagáscar, o reino do Butão, Porto Rico ou a Blue Lagoon, a Lagoa Azul, na Islândia.

Para aceder à lista da Forbes clique aqui para saber mais.

Nota da Redacção - Felizmente que nos Açores se continua a respeitar a Natureza, a biodiversidade, não usando o cimento para justificar a evolução ou para arranjar obras para os amigos, como se faz na Madeira. Parabéns Açores!

sábado, dezembro 18, 2010

MENINO JESUS DA MINHA COR

Meu Natal Timor,
Meu primeiro Natal.

Quantos anos tinha?!
Nunca o soube ao certo.

Minha Mãe-Menina
Fez-me o seu presépio:
Uma encosta arrancada ao Ramelau
Com uma gruta ausente
Cheia de Maromak
E perfume de coco,
Um búfalo e um kuda
E o bafo quente dos seus pulmões.

E um menino sobre a palha de arroz
E folhas de cafeeiro.

Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.
- Ínan, quem é?
- É o Maromak-Filho e teu Irmão!

E eu recuei, porque via no berço
Um menino rosado,
Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ele é, mais do que todos, teu Irmão...
- Mas como pode ser um meu irmão?
- É teu Irmão: Firma-lhe bem teus olhos, meu Amor!

E eu, obedecendo,
Firmei-me todo nEle.
E vejo-O desde então
Também da minha cor!



FERNANDO SYLVAN

(de 7 poemas de Timor, 1965)


Ínan = mãe
Kuda = Pequeno cavalo
Maromak = Deus

Bolo Rei

Ingredientes:
750 gr farinha - 30 gr fermento padeiro - 150 gr de margarina - 150 gr de açúcar - 250 gr frutos secos e cristalizados partidos - 4 ovos inteiros - raspa de 1 limão - raspa de laranja - 1 dl vinho do Porto - 1 colher café de sal - gema para pincelar

Preparação :
Pique os frutos cristalizados e deixe-os no vinho do Porto. Pese a farinha. Dissolva o fermento em 1 dl de água morna e adicione uma chávena da farinha que pesou. Amasse, deixe em forma de bola e deixe levedar por 15m. Bata a margarina com o açúcar e as raspas. Junte os ovos uma a um batendo sempre bem. Quando estiver ligado adicione a farinha restante e o sal. Amasse até a massa estar elástica e macia. Junte os frutos picados e os cristalizados com o vinho do Porto. Amasse, forme uma bola, polvilhe com farinha e deixe levedar durante 1 hora. Ao fim deste tempo, molde-a em forma de rosca no tabuleiro que vai usar e deixe mais 1 hora. Pincele com gema de ovo, enfeite com frutos e leve a forno pré aquecido a 180 graus por 20/25 minutos. Polvilhe com açúcar pasteleiro.

NOTA DA REDACÇÃO - Esta receita é extremamente fácil de fazer e, como podem ver na foto, resulta. O meu não está muito direitinho mas, garanto, para a semana já sai melhor. Esta receita foi tirada da revista Continente/Magazine de Novembro de 2010

George Michael - December Song (I Dreamed of Christmas)

sobre a palha loura...


Sobre a palha loura
dorme, a rir, Jesus:
tudo a rir se doura
de inocente luz

Há no olhar etéreo
do boizinho bento
sonhos de mistério
num deslumbramento...

Chegam pegureiros:
Chegam-se ao redor,
tal e qual cordeiros
para o seu pastor.

Anhos que vêm vindo
põem-se a meditar:
que zagal tão lindo
para nos guiar!

Ajoelham magos,
êxtase profundo!...
Com os olhos vagos
no senhor do mundo...

E a banhada em pranto
mãe se trasnfigura,
por divino encanto,
numa virgem pura.


Guerra Junqueiro

sexta-feira, dezembro 17, 2010

cântico de Natal

Natal


Tu que dormes na calçada de relento
Numa cama de chuvas com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão,do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um Homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poder comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que não vês na montra a tua fome que eu nem sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um Homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Ary dos Santos

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Carlos Pinto Coelho

O jornalista Carlos Pinto Coelho morreu, ontem, aos 66 anos, em Lisboa, na sequência de uma intervenção cirúrgica à aorta no Hospital Santa Marta para onde foi transferido depois de ter sido internado de urgência no Hospital de São José, segundo a agência Lusa.
Gostava que lhe chamassem “o senhor Acontece”, considerava ser essa “uma forma gentilíssima” de lembrar os nove anos, em que diariamente, acabava o magazine cultural que teve na RTP2, de 1994 a 2003, com a célebre frase: “E assim, Acontece”. O programa foi cancelado pela direcção de José Rodrigues dos Santos.
Carlos Pinto Coelho ficou conhecido pela intervenção na área do jornalismo cultural, mas teve uma carreira abrangente. Começou a sua carreira jornalística no “Diário de Notícias”, como estagiário, em 1968, depois de ter abandonado o curso de Direito no último ano e de ter chumbado na oral de Direito das sucessões.

Além de repórter deste jornal, Carlos Pinto Coelho foi um dos fundadores do diário “Jornal Novo”, foi redactor da Agência de Notícias portuguesa ANI, director executivo da revista “Mais”.
Na rádio foi locutor das estações TSF, Rádio Comercial, Antena1 e Teledifusão de Macau. Na televisão foi chefe de redacção do Informação/2, da RTP2, director de Cooperação e Relações Internacionais, director-adjunto de Informação e director de programas da RTP durante quatro anos.
Na opinião de Joaquim Vieira, que com ele trabalhou, o que mais o distinguiu foi a projecção que deu à cultura. “Era a menina dos olhos dele. E sempre acreditou que viesse alguém que o chamasse a fazer de novo o “Acontece”. É curioso, há hoje na RTP2 uma tentativa de fazer um “Acontece”, o “Câmara Clara”, sem ser um “Acontece”. É o reconhecimento de que o programa fazia sentido e havia necessidade dele. É uma homenagem indirecta a ele”, acrescenta o jornalista Joaquim Vieira.
Pelo programa “Acontece” – que chegou a ser o mais antigo jornal cultural da Europa e acabou depois de uma polémica com o ministro Morais Sarmento que afirmou que seria mais compensador oferecer uma volta ao Mundo a cada espectador - recebeu o Prémio Bordalo e o Prémio do Clube de Jornalismo.
Foi condecorado com o Grau da comenda da Ordem do Infante D. Henrique por Jorge Sampaio, em 2000, e era oficial da Ordem das Artes e das Letras de França (2009).
Carlos Pinto Coelho nasceu em Lisboa mas viveu em Lourenço Marques (agora Maputo, Moçambique) até aos 19 anos, altura em que regressou a Portugal. Daí vinha certamente o seu grande interesse pela África lusófona (teve um programa que se chamava “Em Português nos Entendemos”). Outra das suas paixões era a fotografia. Começou a expor em 1992 e ao longo da vida lançou vários livros de fotografia “A Meu Ver” (editora Pegasus, 1992), foi co-autor “Do Tamanho do Mundo” (Ataegina/1998), publicou “De tanto Olhar, fotografias e textos seus e com um prefácio de Lídia Jorge na editora Campo das Letras. E “Assim Acontece - 30 Entrevistas Sobre Tudo... E o Resto”, livro publicado em 2007.
Era professor de jornalismo na Escola Superior de Tecnologia do Instituto Politécnico de Tomar desde 2003 e estava a preparar uma série de entrevistas a personalidades para o programa “Conversa Maior”, a emitir na RTP Memória. fonte PUBLICO

Nota da Redacção - O panorama cultural Português sofre mais uma baixa. Pinto Coelho um homem que amava a literatura, a defendia, a trazia à vida do quotidiano. Na fotografia também exprimia o seu sentimento. Está em Paz!

As Amizades Comuns


O que habitualmente chamamos amigos e amizades não são senão conhecimentos e familiaridades contraídos quer por alguma circunstância fortuita quer por um qualquer interesse, por meio dos quais as nossas almas se mantêm em contacto. Na amizade de que falo, as almas mesclam-se e fundem-se uma na noutra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem. Se me intimam a dizer porque o amava, sinto que só o posso exprimir respondendo: «Porque era ele; porque era eu».
(...) Não me venham meter ao mesmo nível essoutras amizades comuns! Conheço-as tão bem como qualquer outro, e até algumas das mais perfeitas do género, mas não aconselho ninguém a confundir as suas regras: laboraria num erro. Em tais amizades deve-se andar de rédeas na mão, com prudência e cautela - o nó não está atado de maneira que, acerca dele, não se tenha de nutrir alguma desconfiança. «Amai o vosso amigo», dizia Quílon, «como se algum dia tiverdes que o odiar; odiai-o como se tiverdes que o amar.» Este preceito, tão abominável se aplicada à soberana e superna amizade, é salutar a respeito das amizades comuns e habituais, em relação às quais se deve empregar este dito tão ao gosto de Aristóteles: «Ó amigos meus, não há nenhum amigo!»
Michel de Montaigne, in 'Ensaios'

quarta-feira, dezembro 15, 2010

poemas de Natal



Caros Amigos,

Achei interessante, nesta quadra de Natal, procurar poesias alusivas em que a sensibilidade dos autores é diversa e publica-las. Assim, nestes próximos dias, a poesia portuguesa será a vossa companhia e, vão ver, vão gostar.

tukakubana

Imagine

o último a chegar à colecção....

Este foi o último Presépio que chegou à minha colecção. Simples, analítico, vindo do Algarve lembra as chaminés brancas tradicionais. Mas que podia ter vindo com um versinho, lá isso podia! Como não veio, improviso:
Ó meu Menino Jesus
Venho lá do nosso Algarve
Acompanhado dos doces
Feitos pelo meu compadre!
No tempo dos Magos as prendas eram ouro, incenso e mirra. Hoje, são umas delícias de figos secos, temperados de carinho e muita Amizade. Que o Menino te ajude, Ivo.

como eu vejo a ilha

da minha janela, 14.12.10 às 07h20

poema do Menino Jesus


Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?


Alberto Caeiro