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terça-feira, abril 24, 2012

"carta aberta ao venerando chefe de estado a que isto chegou"

Senhor Presidente,
Há muito
, muito tempo, nos dias depois que Abril floriu e a Europa se abriu de par em par, foi V.Exa por mandato popular encarregue de nos fazer fruir dessa Europa do Mercado Comum, clube dos ricos a que iludidos aderimos, fiados no dinheiro fácil do FEDER, do FEOGA, das ajudas de coesão(FUNDO DE COESÃO) e demais liberalidades que, pouco acostumados, aceitámos de olhar reluzente, estranhando como fácil e rápido era passar de rincão estagnado e órfão do Império para a mesa dos poderosos que, qual varinha mágica, nos multiplicariam as estradas, aumentariam os direitos, facilitariam o crédito e conduziriam ao Olimpo até aí inatingível do mundo desenvolvido.

Havia pequenos senãos, arrancar vinhas, abater barcos, não empatar quem produzisse tomate em Itália ou conservas em Marrocos, coisa pouca e necessária por via da previdente PAC, mas, estando o cheque passado e com cobertura, de inauguração em inauguração, o país antes incrédulo, crescia, dava formação a jovens, animava a construção civil , os resorts de Punta Cana e os veículos topo de gama do momento.
Do alto do púlpito que fora do velho Botas, V.Exa passaria à História como o Modernizador, campeão do empreendedorismo, símbolo da devoção à causa pública, estóico servidor do povo a partir da marquise esconsa da casa da Rua do Possôlo. Era o aplicado aluno de Bruxelas, o exemplo a seguir no Mediterrâneo, o desbravador do progresso, com o mapa de estradas do ACP permanentemente desactualizado.
O tecido empresarial crescia, com pés de barro e frágeis sapatas, mas que interessava, havia pão e circo, CCB e Expo, pontes e viadutos, Fundo Social Europeu e tudo o que mais se quisesse imaginar, à sombra de bafejados oásis de leite e mel, Continentes e Amoreiras, e mais catedrais escancaradas com um simples cartão Visa.
Ao fim de dez anos, um pouco mais que o Criador ao fim de sete, vendo a Obra pronta, V.Exa descansou, e retirou-se. Tentou Belém, mas ingrato, o povo condenou-o a anos no deserto, enquanto aprendizes prosseguiam a sanha fontista e inebriante erguida atrás dos cantos de sereia, apelando ao esbanjamento e luxúria.
No início do novo século, preocupantes sinais do Purgatório indicaram fragilidades na Obra, mas jorrando fundos e verbas, coisa de temerários do Restelo se lhe chamou. À porta estava o novo bezerro de ouro, o euro, a moeda dos fortes, e fortes agora com ela seguiríamos, poderosos, iguais.
Do retiro tranquilo, à sombra da modesta reforma de servidor do Estado, livros e loas emulando as virtudes do novo filão foram por V.Exa endossados , qual pitonisa dos futuros que cantam, sob o euro sem nódoa, moeda de fortes e milagreiro caminho para o glorioso domínio da Europa.
Migalha a migalha, bitaite a bitaite, foi V.Exa pacientemente cozendo o seu novelo, até que, uma bela manhã de nevoeiro, do púlpito do CCB, filho da dilecta obra, anunciou aos atarantados povos estar de volta, pronto a servir.
Não que as gentes o merecessem, mas o país reclamava seriedade, contenção, morgados do Algarve em vez de ostras socialistas.
Seria o supremo trono agora, com os guisados da Maria e o apoio de esforçados amigos que, fruto de muito suor e trabalho, haviam vingado no exigente mundo dos negócios, em prol do progresso e do desenvolvimento do país.
Salivando o povo à passagem do Mestre, regressado dos mortos, sem escolhos o conduziram a Belém, onde petiscando umas pataniscas e bolo-rei sem fava, presidiria, qual reitor, às traquinices dos pupilos, por veladas e paternais palavras ameaçando reguadas ou castigos contra a parede.
E não contentes, o repetiram segunda vez, e V. Exa, com pungente sacrifício lá continuou aquilíneo cônsul da república, perorando homilias nos dias da pátria e avisando ameaçador contra os perigos e tormentas que os irrequietos alunos não logravam conter.
Que preciso era voltar à terra e ao arado, à faina e à vindima, vaticinou V.Exa, coveiro das hortas e traineiras; que chegava de obras faraónicas, alertou, qual faraó de Boliqueime e campeão do betão; que chegava de sacrifícios, estando uns ao leme, para logo aconselhar conformismo e paciência mal mudou o piloto.
Eremita das fragas, paroquial chefe de família, personagem de Camilo e Agustina, desprezando os políticos profissionais mas esquecendo que por junto é o profissional da política há mais anos no poder, preside hoje V.Exa ao país ingrato que, em vinte anos, qual bruxedo ou mau olhado, lhe destruiu a obra feita, como vil criatura que desperta do covil se virou contra o criador, hoje apenas pálida esfinge, arrastando-se entre a solidão de Belém e prosaicas cerimónias com bombeiros e ranchos.
Trinta anos, leva em cena a peça de V.Exa no palco da política, com grandes enchentes no início e grupos arregimentados e idosos na actualidade.
Mas, chegando ao fim o terceiro acto, longe da epopeia em que o Bem vence o Mal e todos ficam felizes para sempre, tema V.Exa pelo juízo da História, que, caridosa, talvez em duas linhas de rodapé recorde um fugaz Aníbal, amante de bolo-rei e desconhecedor dos Lusíadas, que durante uns anos pairou como Midas multiplicador e hoje mais não é que um aflito Hamlet nas muralhas de Elsinore, transformado que foi o ouro do bezerro em serradura e sobrevivendo pusilâmine como cinzento Chefe do estado a que isto chegou, não obstante a convicção, que acredito tenha, de ter feito o seu melhor.
Respeitoso e Suburbano, devidamente autorizado pela Sacrossanta Troika,             
António Maria dos Santos
sobrevivente(ainda) do cataclismo de 2011
recebido por e-mail

segunda-feira, março 26, 2012

porque se deve ser contra o Acordo Ortográfico

Omens sem H... e sem espinha! dorsal...claro...
Espantam-se? Não se espantem. Lá chegaremos.
No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece.
A Bahia, felizmente, mantém orgulhosa o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica bonito e porque sim.
Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco.
Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje.
Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas.
Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio.
O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias. Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota.
"É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico.
É verdade, as crianças, como ninguém se lembrou delas? O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas,
espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie, tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen?
Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"? Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas.
Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita".
Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema.
A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.
Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo.
Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores?
Vermelhas? Amarelas? Brancas?
Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo.
Só "omens" sem H podem ter inventado isto, é garantido.

Por Nuno Pacheco – Jornalista

terça-feira, fevereiro 28, 2012

porque se deve ser contra (o famigerado) o AO:

Omens sem H... e sem espinha! dorsal...claro...
Espantam-se? Não se espantem. Lá chegaremos.
No Brasil, pelo menos, já se escreve "umidade". Para facilitar? Não parece.
A Bahia, felizmente, mantém orgulhosa o seu H (sem o qual seria uma baía qualquer), Itamar Assumpção ainda não perdeu o P e até Adriana Calcanhotto duplicou o T do nome porque fica bonito e porque sim.
Isto de tirar e pôr letras não é bem como fazer lego, embora pareça. Há uma poética na grafia que pode estragar-se com demasiadas lavagens a seco.
Por exemplo: no Brasil há dois diários que ostentam no título esta antiguidade: Jornal do Commercio. Com duplo M, como o genial Drummond. Datam ambos dos anos 1820 e não actualizaram o nome até hoje.
Comércio vem do latim commercium e na primeira vaga simplificadora perdeu, como se sabe, um M. Nivelando por baixo, temendo talvez que o povo ignaro não conseguisse nunca escrever como a minoria culta, a língua portuguesa foi perdendo parte das suas raízes latinas.
Outras línguas, obviamente atrasadas, viraram a cara à modernização. É por isso que, hoje em dia, idiomas tão medievais quanto o inglês ou o francês consagram pharmacy e pharmacie (do grego pharmakeia e do latim pharmacïa) em lugar de farmácia; ou commerce em vez de comércio.
O português tem andado, assim, satisfeito, a "limpar" acentos e consoantes espúrias. Até à lavagem de 1990, a mais recente, que permite até ao mais analfabeto dos analfabetos escrever sem nenhum medo de errar. Até porque, felicidade suprema, pode errar que ninguém nota.
"É positivo para as crianças", diz o iluminado Bechara, uma das inteligências que empunha, feliz, o facho do Acordo Ortográfico.
É verdade, as crianças, como ninguém se lembrou delas? O que passarão as pobres crianças inglesas, francesas, holandesas, alemãs, italianas,
espanholas, em países onde há tantas consoantes duplas, tremas e hífens? A escrever summer, bibliographie, tappezzería, damnificar, mitteleuropäischen?
Já viram o que é ter de escrever Abschnitt für sonnenschirme nas praias em vez de "zona de chapéus de sol"? Por isso é que nesses países com línguas tão complicadas (já para não falar na China, no Japão ou nas Arábias, valha-nos Deus) as crianças sofrem tanto para escrever nas línguas maternas.
Portugal, lavador-mor de grafias antigas, dá agora primazia à fonética, pois, disse-o um dia outra das inteligências pró-Acordo, "a oralidade precede a escrita".
Se é assim, tirem o H a homem ou a humanidade que não faz falta nenhuma. E escrevam Oliúde quando falarem de cinema.
A etimologia foi uma invenção de loucos, tornemo-nos compulsivamente fonéticos.
Mas há mais: sabem que acabou o café-da-manhã? Agora é café da manhã. Pois é, as palavras compostas por justaposição (com hífens) são outro estorvo.
Por isso os "acordistas" advogam cor de rosa (sem hífens) em vez de cor-de-rosa. Mas não pensaram, ó míseros, que há rosas de várias cores?
Vermelhas? Amarelas? Brancas?
Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo.
Só "omens" sem H podem ter inventado isto, é garantido.
Por Nuno Pacheco – Jornalista

terça-feira, fevereiro 07, 2012

O ANALFABETO POLÍTICO

 
O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
... Nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe o custo da vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha,
Do aluguer, do sapato e do remédio
Dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
É tão burro que se orgulha
E estufa o peito dizendo
Que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
Nasce a prostituta, o menor abandonado,
E o pior de todos os bandidos,
Que é o político vigarista,
Pilantra, corrupto e lacaio
Das empresas nacionais e multinacionais.

Bertold Brecht

quinta-feira, janeiro 26, 2012

"Amarás o teu próximo...."

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus, 22, 39). Quem é o meu próximo? Aquele que pertence ao mesmo grupo familiar, local, social, económico, nacional, étnico, cultural, linguístico, político ou religioso? Aquele que pertence à mesma espécie, ao mesmo planeta ou à mesma galáxia? Ou o meu próximo é aquele de quem me sentir próximo, ao ponto de o não sentir separado de mim nem a mim separado dele? O meu próximo tem então de ter duas pernas e dois braços ou pode ter quatro patas, muitas, nenhuma, caule, tronco, folhas, flores e frutos? Tem de ter cabelos e pele quase nua ou pode ter pêlos, penas, couraça, escamas e casca? Tem de viver sobre a terra ou pode rastejar dentro dela e voar e brilhar nos céus? Tem de ter uma vida individual ou pode ser a própria terra, as areias, as rochas, os minérios, as águas, os ventos, o fogo e as energias que em tudo isso habitam? Tem de falar a minha linguagem ou pode miar, ladrar, zumbir, uivar, cacarejar, grunhir, mugir, relinchar, rugir, trinar, grasnar, trovejar, soprar, relampejar, chover ou florir, frutificar, repousar e mover-se em silêncio? Tem de ter forma e ser visível ou pode não ter forma e ser invisível? Tem de ter vida consciente e senciente? Tem de ter vida? Tem de ser algum ser ou coisa ou pode ser tudo? A empatia, o sentir em si o outro como o mesmo, a compaixão, têm limites? Temos limites? Conhecemos a fronteira do que somos? Ou só o medo nos limita? O medo de tudo o que há. O medo do infinito e da vasta multidão que somos.

Paulo Borges, um professor em Portugal

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

"Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coerência, a convicção, a certeza são além disso, demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.
Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predileções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, é católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da "Odisseia".
Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam d'essa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.
Quando é que despertaremos para a justa noção de que política, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética — a estética dos que ainda a não podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumado as suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida. "

Fernando Pessoa, in 'Idéias Políticas'

quarta-feira, janeiro 18, 2012

"Portugal"

"Portugal atravessa um dos momentos mais difíceis da sua história e terá que resolver com urgência, sob o perigo de deflagrar crescentes tensões e consequentes convulsões sociais.

Importa em primeiro lugar averiguar as causas. Devem-se sobretudo à má aplicação dos dinheiros emprestados pela CE para o esforço de adesão e adaptação às exigências da união.

Foi o país onde mais a CE investiu "per capita" e o que menos proveito retirou.
Não se actualizou, não melhorou as classes laborais, regrediu na
qualidade da educação, vendeu ou privatizou mesmo actividades primordiais e património que poderiam hoje ser um sustentáculo.

Os dinheiros foram encaminhados para auto-estradas, estádios de futebol, constituição de centenas de instituições público-privadas, fundações e institutos, de duvidosa utilidade, auxílios financeiros a empresas que os reverteram em seu exclusivo benefício, pagamento a agricultores para deixarem os campos e aos pescadores para venderem as embarcações, apoios estrategicamente endereçados a elementos ou a próximos deles, nos principais partidos, elevados vencimentos nas classes superiores da administração pública, o tácito desinteresse da Justiça, frente à corrupção galopante e um desinteresse quase total das Finanças no que respeita à cobrança na riqueza, na Banca, na especulação, nos grandes negócios, desenvolvendo, em contrário, uma atenção especialmente persecutória junto dos pequenos comerciantes e população mais pobre.

A política lusa é um campo escorregadio onde os mais hábeis e corajosos penetram, já que os partidos cada vez mais desacreditados, funcionam essencialmente como agências de emprego que admitem os mais corruptos e incapazes, permitindo que com as alterações governativas permaneçam, transformando-se num enorme peso bruto e parasitário.
Assim, a monstruosa Função Publica, ao lado da classe dos professores, assessoradas por sindicatos aguerridos, de umas Forças Armadas dispendiosas e caducas, tornaram-se não uma solução, mas um facto de peso nos problemas do país.

Não existe partido de centro já que as diferenças são apenas de retórica, entre o PS (Partido Socialista) e o PPD/PSD (Partido Popular /Social
Democrata), de direita, agora mais conservador ainda, com a inclusão de um novo líder, que tem um suporte estratégico no PR e no tecido empresarial abastado.

Mais à direita, o CDS (Partido Popular), com uma actividade assinalável, mas com telhados de vidro e linguagem publica, diametralmente oposta ao que os seus princípios recomendam e praticarão na primeira oportunidade.
À esquerda, o BE (Bloco de Esquerda), com tantos adeptos como o anterior, mas igualmente com uma linguagem difícil de se encaixar nas recomendações ao Governo, que manifesta um horror atávico à esquerda, tal como a população em geral, laboriosamente formatada para o mesmo receio.
Mais à esquerda, o PC (Partido comunista) menosprezado pela comunicação social, que o coloca sempre como um perigo latente e uma extensão inspirada na União Soviética, oportunamente extinta, e portanto longe das realidades actuais.

Assim, não se encontrando forças capazes de alterar o status, parece que a democracia pré-fabricada não encontra novos instrumentos. Contudo, na génese deste beco sem aparente saída, está a impreparação, ou melhor, a ignorância de uma população deixada ao abandono, nesse fulcral e determinante aspecto. Mal preparada nos bancos das escolas, no secundário e nas faculdades, não tem capacidade de decisão, a não ser a que lhe é oferecida pelos órgãos de Comunicação.

Ora é aqui está o grande problema deste pequeno país; as TVs as Rádios e os Jornais, são na sua totalidade, pertença de privados ligados à alta finança, à industria e comercio, à banca e com infiltrações accionistas de vários países. Ora, é bem de ver que com este caldo, não se pode cozinhar uma alimentação saudável, mas apenas os pratos que o "chefe" recomenda. Daí a estagnação que tem sido cómoda para a crescente distância entre ricos e pobres.

A RTP, a estação que agora engloba a Rádio e TV oficiais, está dominada por elementos dos dois partidos principais, com notório assento dos sociais-democratas e populares, especialistas em silenciar posições esclarecedoras e calar quem levanta o mínimo problema ou dúvida.
A selecção dos gestores, dos directores e dos principais jornalistas é feita exclusivamente por via partidária.
Os jovens jornalistas, são condicionados pelos problemas já descritos e ainda pelos contratos a prazo determinantes para o posto de trabalho enquanto, o afastamento dos jornalistas seniores, a quem é mais difícil formatar o processo a pôr em prática, está a chegar ao fim.
A deserção destes, foi notória.

Não há um único meio ao alcance das pessoas mais esclarecidas e por isso, "non gratas" pelo establishment, onde possam dar luz a novas ideias e à realidade do seu país, envolto no conveniente manto diáfano que apenas deixa ver os vendedores de ideias já feitas e as cenas  recomendáveis para a manutenção da sensação de liberdade e da prática da apregoada democracia.

Só uma comunicação não vendida e alienante, pode ajudar a população, a fugir da banca, o cancro endémico de que padece, a exigir uma justiça mais célere e justa, umas finanças atentas e cumpridoras, enfim, a ganhar consciência e lucidez sobre os seus desígnios."

 Jacques Amaury, sociólogo e filósofo francês, professor na Universidade de Estrasburgo

segunda-feira, janeiro 09, 2012

GANHEI CORAGEM

"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche. 
É o meu caso. 
Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. 
Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: "Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice.
Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre o que me calei: 
O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.
Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: A democracia é o governo do povo. 
Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. 
Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. 
Nada mais distante dos textos bíblicos. 
Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. 
Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras ideias. Amava a prostituição. Pulava de amante em amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou. 
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu?
Viu a sua amada sendo vendida como escrava.
Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre.". 
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.
Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. 
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. 
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. 
Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.
O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. 
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.
Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. 
Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. 
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.
Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. 
O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. 
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. 
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. 
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. 
Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. 
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. 
O povo, unido, jamais será vencido!
Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. 
Mas, que posso fazer? 
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.
Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.
De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção.", 
Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

Rubem Alves 
... colunista da Folha de S. Paulo ...
 

domingo, novembro 20, 2011

A nostalgia da quimera: o fantástico é o género dominante na literatura portuguesa

A “comunidade” literária portuguesa contemporânea que se dedica à Ficção Científica e ao Fantástico (autores, tradutores, editores, divulgadores), apesar da sua (ainda) reduzida dimensão e (ainda) diminuta visibilidade mediática, tem-se mostrado nos últimos dez anos crescentemente interventiva, pelo menos “intramuros”. Os que a observam mais de perto têm sido testemunhas de regulares – ocasionalmente ácidas mas sempre salutares – controvérsias, discussões, polémicas, em torno de temas como a qualidade, quantidade e diversidade das obras, a sustentabilidade destas (para lá das modas) por parte de um mercado e de um público (mais ou menos) conhecedor e consumidor, ou as estratégias das editoras.
 Existe, porém, outro tema fundamental que acaba, invariavelmente, por constituir como que o “cenário”, o “pano de fundo” de todos os outros: a existência, ou não, de algo que se poderia designar como uma “tradição” -secular, de preferência – do fantástico em Portugal. Eu afirmo que sim, que existe, e vou mesmo mais longe: não tanto pelo número dos seus livros mas mais pelo impacto e influência daqueles, o fantástico assume-se como o género dominante na (história da) literatura portuguesa – muito mais importante do que categorias ou épocas como o iluminismo, romantismo, realismo, modernismo, neo-realismo, pós-modernismo e outros “ismos”.

Encontrei o ponto de partida para esta conclusão numa das muitas iniciativas desenvolvidas por aquele que, pelo seu trabalho enquanto escritor (ficcionista e ensaísta, investigador e divulgador) e cineasta, é hoje incontestavelmente a maior figura de referência do panorama FC & F português: António de Macedo. Que há dez anos dirigiu uma colecção, denominada “Bibliotheca Phantastica”, na já extinta editora Hugin, onde foram editadas obras de autores actuais: Luísa Marques da Silva, Maria de Menezes, Pedro Lúcio, Sérgio Franclim… e eu próprio – “Visões” constituiu a minha estreia literária e ainda o sétimo e último número daquela colecção. Esta, no entanto, incluiu também dois autores “antigos”: João da Rocha com “Memórias de um Médium”, editado originalmente em 1900 mas provavelmente escrito em 1892; e Teófilo Braga com “Contos Fantásticos”, editado originalmente em 1865 (refira-se que o futuro Presidente da República publicaria, em 1905, mais um livro de ficção, “Frei Gil de Santarém”, sobre a lenda do médico, clérigo e santo português da Idade Média que teria assinado um pacto com o Diabo – um antecessor do “Fausto”). Mais: nas introduções que fez aos sete livros, António de Macedo aproveitou para recordar – para muitos de nós, tratou-se mesmo de revelar – obras e autores que podem integrar perfeitamente, graças aos seus romances, novelas e contos, um “quadro de honra” da FC & F portuguesa do século XX – em especial aquela prévia à da geração que se tornaria mais conhecida na viragem dos anos 80 para os anos 90 do século passado, em grande parte graças à “colecção azul” da Editorial Caminho.

Assim, os títulos e os nomes sucederam-se: “Um Jantar Muito Original”, “A Rosa de Seda” e “Czarkresko” (esta incompleta), de Fernando Pessoa; “A Grande Sombra”, “A Estranha Morte do Professor Antena”, “O Fixador de Instantes” (os três incluídos em “Céu de Fogo”) e “A Confissão de Lúcio”, de Mário de Sá-Carneiro; “O Príncipe com Orelhas de Burro” e “Há Mais Mundos”, de José Régio; “Apenas uma Narrativa”, de António Pedro; “As Aventuras de João Sem Medo”, de José Gomes Ferreira; “AK – A Tese e o Axioma”, “Não lhes Faremos a Vontade” e “A Buzina”, de Romeu de Melo; “Contos do Gin-Tonic”, “Novos Contos do Gin” e “Casos do Direito Galáctico”, de Mário-Henrique Leiria; “O Físico Prodigioso”, de Jorge de Sena. Inevitavelmente, António de Macedo também refere José Saramago; na verdade, como não atribuir um significado muito especial ao facto de o (até agora) único Prémio Nobel da Literatura da língua portuguesa ter várias obras – provavelmente, as suas principais – que se podem (e devem) inserir no género fantástico, nomeadamente “Deste Mundo e do Outro”, “O Ano de 1993”, “Objecto Quase”, “Memorial do Convento”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “A Jangada de Pedra”, “A Segunda Vida de Francisco de Assis”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Ensaio Sobre a Lucidez” e “Caim”?

O futuro com história

Todavia, é fundamental salientar que o fantástico na literatura portuguesa é muito anterior ao século XX. Aliás, o realizador de “Os Abismos da Meia Noite” e de “Os Emissários de Khalom” mencionou igualmente dois outros livros – duas colectâneas – que podem dar uma primeira perspectiva do que nesse âmbito se fez para trás. Um é a “Antologia do Conto Fantástico Português” (Afrodite, 1967), com “amostras” dos séculos XX e XIX, editada por Fernando Ribeiro de Mello e com introdução de Ernesto de Melo e Castro – que também está presente enquanto autor, juntamente com, entre os outros 34, Pinheiro Chagas, Álvaro do Carvalhal (com “Os Canibais”, que Manoel de Oliveira adaptou para o cinema), Fialho de Almeida, Teixeira Gomes, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Almada Negreiros, Ferreira de Castro, Natália Correia e… Ana Hatherly. Esta, curiosamente, é por sua vez a autora/organizadora do segundo livro mencionado acima: “A Experiência do Prodígio: Bases Teóricas e Antologia de Textos Visuais Portugueses dos Séculos XVII e XVIII” (IN-CM, 1983).Temos pois que, para já, existem “registos” de artistas e de obras identificadas como (podendo ser) inseridas no género fantástico até aos anos de 1600. Contudo, deve-se recuar ao século anterior para encontrar a maior obra do fantástico em língua portuguesa… que é, simultaneamente, a maior obra alguma vez escrita em língua portuguesa, e ainda um triplo símbolo – da literatura nesse idioma, da nação que lhe deu origem e da comunidade intercontinental de países, povos e pessoas fundada a partir daquelas. Exactamente: “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. Que dúvidas pode haver quanto à classificação de uma obra que inclui na sua galeria de personagens os principais deuses greco-romanos fazendo uso dos seus poderes sobrenaturais, e um gigante monstruoso, titânico (Adamastor), além de a sua acção culminar numa “Ilha dos Amores” imaginária povoada de ninfas acolhedoras? E não esqueçamos, também de Camões, o “Auto dos Anfitriões”, sobre o mito dos amores entre Júpiter e Alcmena e o consequente nascimento de Hércules.

Porém, o nosso maior poeta não está sozinho, na sua época, no seu gosto pelo irreal. De gerações anteriores vêm: João de Barros com a sua “Crónica do Imperador Clarimundo…”, em que, segundo António José Saraiva e Óscar Lopes (na “História da Literatura Portuguesa”), “o maravilhoso céltico de filtros, gigantes, bruxedos, sonhos premonitórios e outros espantos é cuidadosamente harmonizado com o maravilhoso cristão”; Gil Vicente com vários dos seus “Autos” - “dos Reis Magos”, das Barcas (“do Inferno”, “do Purgatório”, “da Glória”) – e também “Cortes de Júpiter” e “Templo de Apolo”, trabalhos cuja natureza dispensa, suponho, explicações e justificações.

Indo mais longe nas profundezas do tempo, chegamos ao que poderíamos designar como o “pai” de toda a narrativa imaginária portuguesa: “Amadis de Gaula”, escrito provavelmente no século XIII por João de Lobeira, talvez trovador durante os reinados de D. Afonso III e de D. Dinis, e cujo protagonista, cavaleiro apaixonado pela princesa Oriana, “se arriscava a combates assombrosos com gigantes ou monstros” (Saraiva e Lopes, idem).

Avançando agora na cronologia, voltemos ao século XVII para irmos ao encontro do (nas palavras de Fernando Pessoa) “Imperador da Língua Portuguesa”. Qual é a obra mais marcante do Padre António Vieira? A “História do Futuro”, explanação e desenvolvimento apaixonado e pormenorizado do seu conceito de “Quinto Império”, uma era, uma civilização, uma sociedade perfeita por vir, em que, sob a liderança de um rei português ressuscitado (primeiro D. Sebastião, depois D. João IV), o Cristianismo se tornaria, enfim, plenamente dominante em todo o Mundo. Por outras palavras: uma das mais espantosas utopias, literárias e não só, de todos os tempos.

Entrando no século XVIII vamos encontrar António José da Silva, que renova o interesse pela mitologia greco-romana em obras como “Os Encantos de Medeia”, “Anfitrião, ou Júpiter e Alcmena” (o mesmo tema quase 200 anos depois de Camões), “Labirinto de Creta”, “As Variedades de Proteu” e “Precipício de Faetonte”. Interesse pelo sobrenatural continuado, quase por “inerência”, nos poetas que constituíram a Arcádia Lusitana, em vários textos de Pedro Correia Garção, Manuel de Figueiredo e Domingos dos Reis Quita… e, na “Nova Arcádia”, e inevitavelmente, em muitos momentos de Manuel Maria du Bocage, pré-romântico que queria “fartar (seu) coração de horrores”. Enfim, assinale-se a existência de um livro intitulado “O Que Há de Ser o Mundo no Ano Três Mil”, de P. J. Suppico de Moraes, editado em 1895, mas cujo autor terá sido contemporâneo de… António José da Silva!
Continuando para o século XIX, verificamos que praticamente todos os grandes escritores portugueses oitocentistas experimentaram, uns mais, outros menos, a fantasia… por vezes luminosa, por vezes sombria. Além dos já referidos acima a propósito da “Antologia…” de Fernando Ribeiro de Mello, são de destacar: Almeida Garrett com “O Retrato de Vénus”; Alexandre Herculano com “A Dama Pé-de-Cabra”, conto incluído em “Lendas e Narrativas”; Camilo Castelo Branco com “O Esqueleto”, “Anátema”, “Os Mistérios de Lisboa e dos Seus Crimes” (recentemente adaptado ao cinema por Raul Ruiz), “A Caveira”, “O Livro Negro de Padre Diniz” e “Coisas Espantosas”; e, claro, Eça de Queiroz… O genial José Maria deu-nos, neste âmbito, um “Dicionário de Milagres” que ficou incompleto. Deu-nos contos como: “S. Cristóvão”, “Santo Onofre”, “S. Frei Gil” (outra abordagem à mesma personagem, prévia à do seu amigo Teófilo Braga) - as “Lendas de Santos”; “Frei Genebro”; “Adão e Eva no Paraíso”; “O Defunto”; “O Suave Milagre”. Os folhetins, crónicas, cartas, que constituem “Prosas Bárbaras”. E, obviamente, o romance (ou novela? Ou conto?) “O Mandarim”.

A fantasia como manto

Na respectiva “carta que deveria ter sido um prefácio” para a edição francesa da obra, Eça de Queiroz, ao tentar explicar o que leva um escritor (que se assume como) naturalista a derivar para a fantasia, acaba talvez por exprimir e sintetizar a atitude de outros escritores nacionais, anteriores e posteriores a ele, perante o mesmo dilema – e, porventura, acaba por revelar a genuína essência, mesmo que (aparentemente) “subterrânea”, de toda a literatura portuguesa.

Assim, “O Mandarim” é apresentado como “uma obra bem modesta e que se aparta consideravelmente da corrente moderna da nossa literatura tornada, nestes últimos anos, analista e experimental; (…) pertence ao sonho e não à realidade, (…) é inventada e não observada, e (…) caracteriza fielmente, parece-me, a tendência mais natural, a mais espontânea do espírito português. (…) Ideias justas, exprimidas de uma forma sóbria, não nos interessam por aí além; o que nos encanta são as emoções excessivas traduzidas com um grande fausto plástico de linguagem. (…) O que nos atrai é a fantasia, sob todas as suas formas, desde a canção até à caricatura; também, na arte, havemos sobretudo produzido líricos e satíricos. Mantivemo-nos de olhos levantados para as estrelas. (…) Somos homens de emoção, não de raciocínio. (…) Entretanto, mesmo antes do naturalismo, já alguns jovens espíritos entre nós haviam compreendido que a literatura de um país não poderia manter-se para sempre estrangeira ao mundo real, que trabalhava e sofria à volta dela. (…) Então impusemo-nos bravamente o dever de não mais olhar o céu… mas a rua. (…) Fazemos esta nobre tarefa não por uma inclinação natural da inteligência mas por um sentimento de dever literário… ia quase dizer de dever público. (…) (Mas se o artista português) não puder por vezes fazer uma escapadela para o azul morrerá bem depressa da nostalgia da quimera. Eis porque, mesmo depois do naturalismo, escrevemos ainda contos fantásticos, dos verdadeiros, daqueles onde há fantasmas e onde se reencontra ao canto das páginas o Diabo, o amigo Diabo, esse delicioso terror da nossa infância católica. Assim, ao menos durante todo um pequeno volume, não sentimos mais a incómoda submissão à verdade, a tortura da análise, a impertinente tirania da realidade. Estamos em plena licença estética. (…)” Apenas três anos mais tarde, Eça de Queiroz como que resumiria o seu pensamento sobre esta matéria a uma só frase notável que colocou como subtítulo de “A Relíquia”: “Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia.”

De certo modo, pode-se dizer que, mesmo quando a fantasia não era o género, ou o estilo, maioritário na sua produção literária, vários foram os autores portugueses, em especial os hoje considerados consagrados, que não deixaram de “contribuir para o cânone”, de “picar o ponto”, de “dar o (seu) dízimo” em favor da “causa”. E se equiparássemos a literatura portuguesa ao corpo humano, o fantástico seria a “coluna vertebral” daquela: não é o que ocupa a maior parte da “massa física” mas é o que determina a sua configuração principal, o eixo em volta do qual tudo se relaciona, posiciona e organiza.

Não nos destacámos especialmente no passado por utilizar, e muito menos introduzir, extra-terrestres, super-heróis, vampiros e/ou mutantes, antecipar sociedades futuras e novas tecnologias, descrever viagens inter-planetárias e/ou inter-dimensionais, mas não faltaram autores portugueses que imaginaram e escreveram cenários, situações e personagens fantásticas… nos dois – ou muitos mais – sentidos.

Octávio dos Santos: Jornalista e escritor. Na Ficção Científica & Fantástico é autor de Visões, Espíritos das Luzes e o criador e organizador da antologia colectiva de contos de história alternativa A República Nunca Existiu!; membro da Associação Simetria, desenvolve nesta, desde 2006, o projecto Simetria Sonora, inventário de FC & F na música popular; foi orador nos colóquios Fórum Fantástico (2007 e 2010) e Mensageiros das Estrelas (2010). Venceu em 2009 (no que foi a sua quarta distinção e terceiro triunfo) o Prémio de Jornalismo Sociedade da Informação pelo artigo Humáquinas (versão inicial saída no PÚBLICO) – A ciência e a tecnologia estão a criar novos corpos. Foi o iniciador de um projecto de reconstituição virtual da Ópera do Tejo e da Lisboa Pré-Terramoto de 1755. Traduziu Poemas de Alfred Tennyson.

http://octanas.blogspot.com

terça-feira, novembro 15, 2011

A troika e o Conde de Lippe

   Duzentos anos depois do  Marquês de Pombal  ter  chamado o Conde de Lippe para reorganizar o Exército português muitos dos  regulamentos por ele elaborados ainda estavam em vigor. Assim , por exemplo, em 1950,  na tropa, as mantas que se punham em cima dos cavalos ainda  eram cuidadosamente  dobradas em conformidade com os seus regulamentos. Estou certo que muitas das normas que a troika nos vai agora obrigar a adoptar, algumas benéficas, vão perdurar durante anos.
    Mas há uma diferença substancial: 
  O Conde de Lippe era um profissional muito experiente e do mais alto  nível que, quando chegou a Portugal, soube ensinar e também aprender.  Assim, quando viu que em Portugal,  que tinha suportado longas guerras com um vizinho mais forte, havia estruturas para mobilizar a população,  nomeadamente, as milícias e as ordenanças, as tropas dos concelhos, não só as conservou como levou a ideia quando regressou ao centro da Europa.
  Os elementos da troika são, certamente, técnicos de elevado nível mas, para além das ideias genéricas que nos trazem,  algumas nem sequer bem testadas no exterior, como é o caso da TSU,  podemos interrogar-nos sobre quais são os conhecimentos e a compreensão que têm da realidade do nosso país.  Eles viram, por exemplo, que em Portugal há freguesias, estruturas que não existem na generalidade dos países da Europa  e propuseram a redução do seu número. Ora, esta redução atinge a qualidade de vida de uma fracção importante da população. Portugal é, com efeito, o país com mais aldeias da Europa. E se 5 km pode não ser  nada para quem anda de automóvel, pode ser  muito para os habitantes de duas aldeias que vejam as suas freguesias fundidas numa só.
  A fusão das freguesias urbanas é um problema muito diferente do das freguesias rurais.  A supressão das juntas de freguesia em muitas aldeias é, de facto, o retirar da cidadania aos seus habitantes.  O processo não deve, portanto, ser decidido a régua e esquadro em gabinetes sem ser precedido de um inquérito às populações e uma muito cuidada avaliação dos benefícios e custos, não só imediatos, mas sobretudo a longo prazo. 
  As aldeias portuguesa, hoje, quase só com idosos, podem, no futuro, com as novas tecnologias, vir a ser locais priviligiados de residência e  trabalho.  Encontrei recentemente uma informática da Nova Zelândia que tinha escolhido para local de trabalho uma aldeia portuguesa.  
  O país da Europa com as estruturas locais mais parecidas com as nossas é, talvez,   a Suiça.  Aconselhar Portugal e fundir freguesias é mais ou menos o mesmo  que dizer  à Suiça que para melhorar o seu sistema financeiro deve alterar as suas estruturas locais.
  Um outro problema que preocupou os elementos da troika foi o da fusão dos concelhos. Mas eles ignoraram uma evolução bastante nítida em Portugal desde há várias décadas. Em todos os distritos, a população dos concelhos onde está a capital tem vindo a aumentar e, na generalidade dos outros, salvo na vizinhança de Lisboa e Porto tem vindo a diminuir.  Para aumentar a população dos concelhos com a população mais elevada não é necessário, portanto, fazer nada.  E agregar os que têm a população a diminuir pode criar situações muito dificeis e conflituosas e,  na maior parte dos casos, só pode contribuir para  diminui ainda mais a sua população .
  Em matéria  de ordenamento do território, a troika tinha um outro assunto com que se preocupar e em que nos podia trazer informações de fora: o da Regionalização, que está na nossa Constituição e hoje é uma realidade  em quase toda a Europa. Para criar riqueza, é em  regiões, e não propriamente em  concelhos com a população um pouco maior, que é preciso pensar.
  E, no que diz respeito à  riqueza, o que será importante para os nossos filhos e netos  é o domínio que terão  sobre as empresas existentes em Portugal. Por outras palavras, a troika deve compreender que, embora o país tenha neste momento um gravíssimo problema financeiro (em que nos está a ajudar) a prazo, o problema fundamental para nós, é o de não entregarmos com privatizações feitas num momento difícil o domínio da Economia do país a entidades estranhas e longínquas, interessadas na rentabilidade dos seus negócios, mas não na qualidade de vida dos nossos filhos e netos.
  Por último, ao olhar  Portugal como um país periférico, a troika está a ter  uma muito estreita visão da Europa.  É  bom   que os seu elementos  se inteirem do que foi dito nos três encontros promovidos na Sociedade de Geografia de Lisboa., em Fevereiro e Março deste ano, sobre o tema: “China, Panamá, Sines. A rota da seda do século XXI ?” Neles tratou-se, fundamentalmente, não das ligações  da China a Portugal, mas das ligações da China à Europa.
  Acontece que o porto de Sines é a melhor porto da Europa para os navios vindos da China e as àreas vizinhas são zonas priviligiadas para implantar indústrias dimensionadas para exportar para metade do mundo,  em particular para a China .    
 
António Brotas
             Professor catedrático jubilado do IST e membro da SGL

segunda-feira, outubro 31, 2011

Os Desastres Económicos em que se Caiu

Os sonhos do “25 de Abril”: liberdade, democracia e progresso, empurraram Portugal para a União Europeia, a moeda única e o consumismo. E todos fomo-nos instalando numa vivência social cor-de-rosa, com hipers e supermercados por todo o lado, construções habitacionais que dão quase duas casas para cada família, um parque automóvel com mais de um carro para cada adulto, roupas a preço de feira, mobilidade de circulação e de conversação constantes, tudo num facilitismo impressionante de função. E o dinheiro circulava por todas as mãos.
O grupo humano mais cliente e dinâmico foi a juventude, gente nascida na década dos cinquenta e depois, fora da dureza da ditadura e sem experiência da rudeza do atraso e das carências do Estado Novo. Instalaram-se nas asas do facilitismo, convictos de que a vida era isso mesmo.
Agora aconteceu o desastre. O facilitismo aterrou paralítico. E todos estamos estatelados num tempo de desgraça, cinzento e sombrio.
Por que razão isto aconteceu? Simplesmente por falta de respeito pelos alicerces das comunidades humanas. Fomos e estamos sendo conduzidos por políticos fracos e oportunistas e por grupos financeiros, ciosos de lucros gordos e múltiplos. Estes arrasaram o trabalho e as empresas, obrigando-as a saltitar de uma nação para outra, numa habilidade para a sucção do seu âmago. O resultado foi: muitas e muitas empresas nas prateleiras da falência, os trabalhadores no desemprego e na miséria, mas eles muito mais gordinhos.
Estamos perante um ataque à vida. Vivemos numa sociedade esfaqueada.
O dinheiro é o sangue social das comunidades. O trabalho gera riqueza e a riqueza dá-lhes vida e mobilidade. Mas o dinheiro foi aprisionado, caiu nas mãos de usurários e agora quase só funciona como objecto de aluguer. Por assalto o dinheiro deixou de ser um bem social e passou a senhorio opressor. A que título? Descubram a justiça e a dignidade deste processo.
Concretizando a crise que nos sufoca: O dinheiro, o suor de tantas gerações sequentes desde há milénios, património vivo de todos, tornou-se propriedade privada. Ainda não todo. Os governantes reconhecem os roubos e desvios feitos como protegidos por um estatuto invisível e intocável e reconhecem também este grupo possuidor como parceiro no poder. O parque laboral das comunidades, desmantelado e falido, precisa de retoma. A funcionar dará mais uma nova remessa de lucros. Há que conseguir capital para cobrir as dívidas existentes e para recuperá-lo. Como proceder? Indo às vítimas e impor-lhes impostos pesadíssimos e redução dos seus direitos sociais.
As pessoas do povo sempre foram quem suportou as guerras, pagou as dívidas e cobriu as crises. Pelos vistos, segundo os governantes e seus apoiantes, terão que continuar como património de recurso.
E o povo aceita? De facto tem-se manifestado muito contra. Os movimentos de indignação multiplicam-se e as greves são anunciadas. Mas o povo tem algo contra si próprio. Anda vestido com o uniforme da democracia dos grandes. Por outras palavras: as pessoas têm sido educadas para dadores de votos. As eleições têm funcionado como as palmas nas celebrações e festas, em que só algumas são conscientes e verdadeiras.
Os que são eleitos, seguros pelos votos que receberam, podem funcionar como lhes convém. O povo não lhes pede contas, arca simplesmente com as consequências. Já muitas pessoas não votam, mais de 40%. Contudo o não votar não é protesto, nem iliba a pessoa dos desastres na cidadania.
Algo está a faltar.
Votar não é dar licença para ser explorado. As pessoas, todas as pessoas têm o direito de ver projetada a sua dignidade de cidadania nos resultados da governação.
Os pobres não podem viver restritos à sua vida pessoal e familiar e, nas horas muito duras, saírem à rua de mão estendida. Os pobres não são destituídos nem das faculdades mentais nem das capacidades de trabalho. O exercício das suas faculdades e capacidades fazem parte da vivência e do desenvolvimento comunitário. A desvalorização do valor trabalho e o desemprego significam pura e simplesmente exclusão social.
O povo terá que saber sair de vítima da desgraça política. A democracia participativa terá que funcionar, para que se vão destruindo os bezerrinhos de ouro, os privilégios e a exclusão social.
Mas exige de cada um muita participação activa e responsabilidade. Nada disto é frango assado que caia do céu.
Mário Tavares, Padre

sábado, outubro 29, 2011

Uma raiva a nascer-me nos dentes



Sr. primeiro-ministro, depois das medidas que anunciou sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes, como diria o Sérgio Godinho. V.Exa. dirá que está a fazer o que é preciso. Eu direi que V.Exa. faz o que disse que não faria, faz mais do que deveria e faz sempre contra os mesmos. V.Exa. disse que era um disparate a ideia de cativar o subsídio de Natal. Quando o fez por metade disse que iria vigorar apenas em 2011. Agora cativa a 100% os subsídios de férias e de Natal, como o fará até 2013. Lançou o imposto de solidariedade. Nada disto está no acordo com a troika. A lista de malfeitorias contra os trabalhadores por conta de outrem é extensa, mas V.Exa. diz que as medidas são suas, mas o défice não. É verdade que o défice não é seu, embora já leve quatro meses de manifesta dificuldade em o controlar. Mas as medidas são suas e do seu ministro das Finanças, um holograma do sr. Otmar Issing, que o incita a lançar uma terrível punição sobre este povo ignaro e gastador, obrigando-o a sorver até à última gota a cicuta que o há-de conduzir à redenção.

Não há alternativa? Há sempre alternativa mesmo com uma pistola encostada à cabeça. E o que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse, de forma incondicional, ao lado do povo que o elegeu e não dos credores que nos querem extrair até à última gota de sangue. O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele estivesse a lutar ferozmente nas instâncias internacionais para minimizar os sacrifícios que teremos inevitavelmente de suportar. O que eu esperava do meu primeiro-ministro é que ele explicasse aos Césares que no conforto dos seus gabinetes decretam o sacrifício de povos centenários que Portugal cumprirá integralmente os seus compromissos — mas que precisa de mais tempo, melhores condições e mais algum dinheiro.

Mas V.Exa. e o seu ministro das Finanças comportam-se como diligentes diretores-gerais da troika; não têm a menor noção de como estão a destruir a delicada teia de relações que sustenta a nossa coesão social; não se preocupam com a emigração de milhares de quadros e estudantes altamente qualificados; e acreditam cegamente que a receita que tão mal está a provar na Grécia terá excelentes resultados por aqui. Não terá. Milhares de pessoas serão lançadas no desemprego e no desespero, o consumo recuará aos anos 70, o rendimento cairá 40%, o investimento vai evaporar-se e dentro de dois anos dir-nos-ão que não atingimos os resultados porque não aplicámos a receita na íntegra.

Senhor primeiro-ministro, talvez ainda possa arrepiar caminho. Até lá, sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes.

Nicolau Santos, Expresso, 15/10/2011

quinta-feira, outubro 13, 2011

O Silva das vacas...


Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas. Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por vacas. Primavera e vacas. De forma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca. A vaca era, assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo. Um dia, o Zeca da Maria "gorda", farto de escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:

"A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro, embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi."
Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção.
Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria "gorda", ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura com esta pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele; este "cagarola" que foi humilhado por João Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo "sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano!
Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da Juventude, Cavaco se confessou "surpreendidíssimo por ver que as vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a ordenha"! Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas!!
Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação freudiana. É possível. Porque este homem deve julgar-se o capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim com direito a atendimento personalizado pelo "boi", enquanto as outras são inexoravelmente "ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem proveito.
A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr. Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio que não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.
Luís Manuel Cunha in Jornal de Barcelos de 05 de Outubro de 2011.