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segunda-feira, outubro 05, 2009

"Maria Branca"


A pele morena, rugosa como casca de árvore filha de intempéries, levou-lhe a curtir anos de sol e invernos húmidos de vida.

Só, sempre a conheci só, rua abaixo rua acima, gaguejando num falar difícil, mastigado de nervos, às vezes indecifrável. Os olhos, sob um cabelo ainda escuro desalinhado e grosso, eram gretas vivas, cheios de perguntas. Forte e atarracada vestia-se de azuis claros e vermelhos, a calhar, saia pingona presa com alfinete de nenhuma ama. Perna grossa, esforçada do trabalho que lhe colava no corpo, nos pés os "sapatos do batizo", como dizia, sempre os mesmos e únicos, sola dura habituada à transição de alcatrões e veredas, de terra fôfa cavada e quente, de ervas orvalhadas. Andar descalça na necessidade da vida deu-lhe o pé largo, sem forma, onde ao domingo mal cabiam as botas de vilão a caminho da igreja. A simplicidade da sua existência, a dos pobres de espírito que Jesus gabou, acabou em tortura de doença incurável e morte com flores coloridas e caixão trabalhado. Iria Maria Branca descalça ?

Porto Moniz, 27/04/2002, data do seu funeral
autor: Maria Teresa Góis


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